Como surgiram as primeiras peregrinações à Terra Santa?

Elio Passeto


O princípio da peregrinação é fundamentado na Bíblia e sua tradição se mantém até nossos dias. Não se pode entender o presente sem ter conhecimento do passado que nos formou.

A Bíblia, ela mesma, fixou o princípio de fazer peregrinação. O livro do Êxodo nos diz que “três vezes por ano, todo varão será visto diante da face do Senhor (Ex 23,17).

As três festas ditas ‘de peregrinação’ (que literalmente quer dizer marchar a pé) são: Páscoa, Pentecostes e Cabanas.  No momento do encontro fixado por Deus na sua morada que era o Templo de Jerusalém, cada um será visto por Deus e verá Deus (somente em hebraico é possível fazer esta leitura do texto). Neste encontro há, portanto, esta visão recíproca.

O lugar do encontro é fixado “no lugar que Deus escolheu...” (Dt 16,16), isto é, no Templo de Jerusalém. Assim, cada ano, três vezes por ano, o povo “caminhava para a casa de Deus, entre gritos de alegria, ação de graças, e a movimentação da festa” (Sl 42,5).

Os Salmos 120-134, chamados os Salmos de subida, são certamente os Salmos que eram cantados quando o povo de Israel subia para Jerusalém durante as festas de peregrinação.

O livro do Êxodo nos diz: “Três festas de peregrinação tu celebrarás para mim durante o ano” (Ex 23,14). Todo o caminhar é para o Senhor. Esse motivo é gerador e alimenta a prática e se perpetua durante as gerações.

O Novo Testamento testemunha essa prática vivida por Jesus e por seus discípulos. “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa de Páscoa” (Lc 2,41). Normalmente eles partiam de Nazaré e caminhavam para Jerusalém.

O Evangelho de João é rico em citações sobre esta prática de Jesus. “Houve a festa dos Judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (Jo 5,1).  “Jesus percorria a Galileia... Ora a festa judaica das Cabanas se aproximava... Jesus disse a seus discípulos: vocês subam para a festa; eu não subirei para esta festa porque o meu tempo ainda não chegou... Mas quando os seus irmãos subiram para a festa, então Ele subiu também...” (Jo 7, 1-14).

“Chegou o dia de Pentecostes, eles se encontraram juntos em um mesmo lugar... e todos foram tomados pelo Espírito Santo...” (Atos 2, 1-5).

São algumas citações para mostrar que os princípios estabelecidos pela Bíblia a partir do livro do Êxodo foi vivido pelo povo judeu ao longo do período do I Templo com também no período do II Templo.

E Jesus com seus discípulos seguiram esta prática de maneira normal. Podemos entender que esta prática foi deixada, mesmo pelos seguidores de Jesus, somente depois da destruição do II Templo pelos romanos no ano 70 de nossa era.

Uma vez destruído o Templo  e com a expulsão dos judeus de Jerusalém (incluindo os judeus que seguiam Jesus), toda essa tradição cessou de existir. E durante todo o período romano praticamente não se pode mais pôr em prática este mandamento e costume bíblico. Neste caso nem os judeus e nem os cristãos de origem judaica ou pagã puderam mais manter o princípio de peregrinação.

Foi somente no período bizantino (324-640), com a transformação de todo o império, antes romano e pagão, para o cristianismo, que se tornou possível restabelecer costumes abandonados, mesmo proibidos.

Foi nesta época que os cristãos voltaram  à sua terra de origem e refizeram o seus lugares guardados na memória. E a construção de igrejas nos lugares mais importantes como Santo Sepulcro, Belém, Monte das Oliveiras, depois seguida para a Galileia, abriu as portas para a peregrinação dos cristãos para fazer memória destes lugares importantes para a sua fé.

E este movimento causou uma grande explosão econômica em toda a região da terra de Israel. As cidades prosperaram e a peregrinação foi fonte de vida cristã em todos os lugares onde estava presente a fé cristã.

Há uma rica literatura que informa da época de ouro da vida cristã em Terra de Israel, especialmente Jerusalém, Cesareia marítima, Nazaré, etc. como resultado do grande intercâmbio gerado pela peregrinação que foi intensa.

Hoje as descobertas arqueológicas testemunham a forte economia existente pelas construções imponentes e pelas técnicas utilizadas como fruto de grande desenvolvimento econômico.

Este movimento teve seu declínio com a chegada do Islã (640). O Islã considera o judaísmo e o cristianismo como duas religiões que o precederam e por isso buscou valorizar a cidade de Jerusalém transformando-a em seu terceiro Santuário, depois de Meca e Medina.

Entretanto os califados que dominaram Jerusalém não foram tolerantes para com aqueles que não quiseram se converter ao Islã, de forma que progressiva e rapidamente toda a atividade de peregrinação cristã praticamente cessou de existir.

Somente nos séculos XI a XIII houve uma retomada com o movimento dos cruzados, que vieram para salvar os lugares santos cristãos; mas no final foram vencidos pelos mamelucos (1250-1517); praticamente não houve possibilidade de frequentação de grupos cristãos.

Em seguida, no longo período do império turco (1517-1918), sempre sobre a base islâmica, não foi possível a prática de peregrinação cristã de forma organizada.

​No final da primeira guerra mundial, com a presença da Inglaterra, foi-se retomando a peregrinação; e depois, com a formação do Estado de Israel, Judeus, Cristãos e Muçulmanos frequentam seus respectivos centros sagrados e a peregrinação se tornou uma grande expressão da presença de todos os povos em Jerusalém e nos outros lugares sagrados.

Portanto, a prática de peregrinação, especialmente a Jerusalém, é fundamentada na Bíblia; foi vivida pelo povo judeu, fez parte da identidade das comunidades cristãs desde seu início e tomou força no período bizantino.

Depois de ser quase completamente impedida a manutenção desta prática por causa da presença absoluta do Islã, ela voltou, no último século, a ter sua importância e hoje vir a Jerusalém é uma prática vivida por todas a comunidades cristãs do mundo .

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