A Mãe do Nazismo ainda Vive

Cristóvão O Silva


No último dia 27 de janeiro, comemorou-se o Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto. Eventos marcaram a data em Israel, nos Estados Unidos e em vários lugares do mundo, e milhões de pessoas publicaram em suas redes sociais com o lema “We remember”, “Nós lembramos”.

​O Holocausto é como se habituou a chamar aquela perseguição que os nazistas fizeram contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial e que custou a vida de milhões deles. O termo “Holocausto”, todavia, vem sendo substituído por um outro, “Shoa”, que no Hebraico antigo tinha o significado de “completa destruição” ou “calamidade”.

A shoah foi, sem dúvida, um dos mais tristes capítulos da história do século XX, e mesmo da história da Europa e até mesmo do povo judeu. Rememorar um fato tão sinistro é importante para uma conscientização coletiva, para que um “que isto não se repita” se imprima nas mentes de todos.

Todavia, para que um acontecimento tão horrível não venha a se repetir, é preciso que aqueles seus agentes históricos não reapareçam no cenário contemporâneo. Ora, o nazismo, que foi o agente perpetrador da shoah, não mais existe como um agente  histórico relevante; todavia, a mãe geratriz do nazismo está mais viva do que nunca e continua a fazer as suas vítimas.

Parede com os dizeres anticristãos - uma prova de como sociedades empregnadas de subjetivismo podem tornar-se cruéis.

A ideologia nazista germinou, cresceu e deu seus frutos no contexto das correntes ideológicas da modernidade. Somente sob a influência de ideias filosóficas como o subjetivismo e o relativismo, as monstruosidades nazistas poderiam ser executados sem causar em seus agentes o mínimo questionamento moral ou de consciência.

Segundo o subjetivismo, não há para o ser humano a possibilidade de um contato real com a realidade objetiva; toda a experiência cognitiva não passa de representações das quais não se pode ter nenhuma garantia de que correspondam ao real. Se não há, portanto, acesso à verdade objetiva alguma, não poder existir uma lei moral exterior que obrigue o comportamento do ser humano; logo, o bem é aquilo que alguém considera bem, e mal é aquilo que alguém considera mal - o relativismo.

Os nazistas mandaram milhões de judeus a campos de concentração e câmaras de gás, e consideraram isso um bem.

Como dito, embora o nazismo não seja mais um agente histórico, sua mãe - as ideologias da modernidade - aí está, mais viva do que nunca, a determinar e influenciar a história contemporânea.

O nazismo, que julgava judeus não humanos, não mais existe, mas milhões de pessoas foram levadas a crer que bebês nos ventres de suas mães também não são humanos,e que podem ser assassinados e lançados na lata do lixo.
Segundo o site Life Matters TV, desde 1980,  mais de 1,483,617,004 bebês foram abortados. Somente este ano mais de 3,700,000 bebês mundo afora foram clinicamente retirados do ventre de suas progenitoras e lançados na lata do lixo. O site combina dados de várias pesquisas e números divulgados pelas próprias clínicas de aborto americanas. Desde 1980, o número de seres humanos assassinados no ventre materno equivale a 247 holocaustos. Se um dos objetivos da agenda dos globalistas é diminuir o crescimento da população humana, através da cultura do aborto eles largamente alcançaram êxito.

O aborto é um pecado tão grave, que o Direito da Igreja Católica excomunga automaticamente (latae sententiae) toda aquela que o praticar e todos aqueles que participarem do ato ou que dele sejam de algum modo cúmplices (can 1398). Os números assustadores de abortos induzidos cometidos anualmente sobre toda a terra só podem levar a uma consternação profunda e a convicção de que a ira de Deus só pode estar prestes a se manifestar. Pense-se, por exemplo, em Gn 6, 5 -- 9, 27, a história do dilúvio, em que a corrupção de toda a terra tem como consequência um cataclisma universal no qual o inteiro gênero humano é destruído, com exceção de Noé e aqueles que estão com ele na arca. O princípio teológico ali expresso é claro: uma corrupção mundial clama uma ação divina punitiva.

A insensibilidade à tragédia do aborto, mesmo entre nós cristãos, só pode se explicar  pelo mesmo fato do subjetivismo e do relativismo. Parece que as pessoas estão entorpecidas com a falsa convicção de que a verdade e o bem são o que elas julgam ser a verdade e o bem; quando, ao contrário, a verdade e o bem são aquilo que Deus declara como tais, e que a nossa própria razão tem capacidade de identificar.

A semelhança entre nazismo (ou qualquer outro totalitarismo) e aborto não é meramente estética. Assim como um Estado totalitário se arroga o direito de decidir pela morte de qualquer indivíduo que esteja dentro dele, também as mulheres aborteiras se arrogam o direito de decidir pela morte dos filhos que carregam dentro de seus ventres. Assim como a abortante julga o bebê como “meu corpo” ou “algo estranho”, também os Estados totalitários consideram os indivíduos como algo de sua propriedade, os quais podem ser exterminados se assim parecer necessário. O aborto é o símbolo perfeito do totalitarismo; e o totalitarismo é a aplicação do aborto em escala política.

As vítimas do subjetivismo e do relativismo 75 anos atrás foram os judeus; hoje em dia são os bebês que ainda não nasceram. E não causará estupor se surgir daqui a pouco pessoas exigindo o direito de matar seus pais idosos ou que pessoas com síndrome de down sejam declaradas não humanas e, portanto, passíveis de extermínio.

Enquanto vigorarem estas ideologias, uma outra shoah pode voltar a acontecer a qualquer momento, e contra qualquer grupo social. Não tenhamos ilusões quanto a isso.

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