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Cisternas Vazias?

Ir. Cristóvão Oliveira Silva
6 de Janeiro de 2019

“Eles me abandonaram, a mim, fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem conter água.”
Jr 2, 13

O lamento que Deus, pela boca do profeta Jeremias, entoa sobre a infidelidade do povo, presta-se bem para ilustrar uma calamitosa tendência que tem crescido em nossas comunidades: o abandono de uma relação viva com Deus por uma religiosidade meramente “significativa” e em nada “operativa”.

A vida espiritual é o assunto mais sério pode haver para um cristão. O começo do Evangelho de São João nos diz que “a todos aqueles que o receberam [Cristo] deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). A dádiva que nos foi feita, portanto, é imensa, infinita até, uma vez que o dom recebido é Deus mesmo. No entanto, não há assunto também mais esquecido e menosprezado do que a presença real de Deus em nós – e os dons reais que disso podemos auferir. De fato, abandonamos Deus e cavamos para nós cisternas furadas. É a triste realidade de largas porções de cristãos.

O que é a vida espiritual? Há muitos termos e expressões, orindos da Bíblia e da Tradição da Igreja, que descrevem esta realidade: devoção, espiritualidade, conversão, arrependimento, piedade, virtude de religião, santidade, perfeição etc. Cada uma destas palavras enfatiza um aspecto particular de uma realidade que, não obstante una, é todavia complexa e variada.

Eu, pessoalmente, a definiria como “uma relação viva que temos com Deus na graça”. Chamo de relação aquele intercâmbio, mediado pela mente e sobretudo pelo coração – o centro do ser, entre duas ou mais pessoas. Se é intercâmbio, há então a troca de palavras e pensamentos, isto é, o diálogo. Na relação com o Senhor, trata-se da oração, a oração que se dirige e fala e a oração que acolhe e escuta o que de Deus vem, a sua Palavra. Se é intercâmbio entre corações, então há amor, amor que se dá e amor que se acolhe.

A relação é “com Deus”, isto é, não é com o “universo”, nem consigo mesmo, tampouco com espíritos das trevas. Se às vezes recorremos aos santos, e amiúde à Santíssima Virgem, é porque estão em Deus e nos conduzem a Ele.

A relação é na graça, isto é, não é meramente natural ou ou meramente humana. De acordo com o ensinamento da Igreja, nossa oração é sempre uma resposta a um apelo divino – é sempre a Trindade a causa primeira de toda verdadeira oração, que não se opera senão por vários auxílios divinos.

Várias passagens bíblicas, sobretudo nos Evangelhos, nos mostram a altíssima importância, senão primazia, da vida espiritual sobre os demais aspectos da vida cristã. No final do capítulo dez do Evangelho de São Lucas, escutamos de Jesus que “Maria escolheu a melhor parte”. Esta melhor parte era escutar as palavras do Senhor (Lc 10, 39).

No Evangelho de São João, Jesus diz: “se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará e a Ele viremos e nele estabeleceremos morada (Jo 14, 22). Ora, se Deus se estabelece na alma daqueles que guardam a sua Palavra, é impossível que estes mesmos vivam sem prestar atenção àquele que dentro deles habita. E o que seria este “prestar atenção” senão a relação viva de amor cujas torrentes de ternura se intercambiam no mistério da oração?

No fim do capítulo seis do Evangelho de São Mateus, o Senhor nos exorta a buscarmos “primeiro o Reino [do Pai] e sua justiça” (Mt 6, 33); e na parábola do semeador, Ele nos convida a sermos uma “terra boa, que ouve a Palavra e a entende” (Mt 13, 23). E o modo de entendimento só pode ser aquele de Maria, “que conservava a lembrança de todos estes fatos em seu coração” (Lc 2, 51).

Uma grande tentação, porém, que pode assolar muitas almas e até mesmo comunidades inteiras é a de tentar viver a fé sem a dimensão espiritual que ela exige, isto é, sem a relação viva com Deus na graça, a qual se opera, sobretudo, na vida de oração. Neste estado calamitoso, concebe-se o Evangelho, ou a Religião Cristã, como um mero sistema de significação, que, em sua natureza, em nada se distinguiria de outros sistemas de significação ou sentido. É como se o Evangelho fosse apenas mais uma “causa por que lutar”, como a causa ecológica, a causa social, a direitos iguais etc. A situação se torna ainda mais grave quando o anúncio essencial da Palavra [isto é, que pela encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus somos salvos se nos abrimos à fé e à conversão] é omitido e substituído por chavões e etiquetas convencionais como “justiça”, “paz”, “igualdade”.

Em muitos estabelecimentos católicos, ensina-se uma forma de teologia completamente desconectada da dimensão espiritual. É como se essa não existisse mais. É como se a Palavra de Deus fosse uma espécie de filosofia  ou ideologia, que seria especial apenas por tratar de um deus bonzinho cuja lembrana serve tão-somente para aplacar as dores de uma existência sem esperança e sem sentido.

Mas não é assim que deve ser. Como diz a Epístola aos Hebreus, “a Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4, 12). Não. A fé não é uma ideologia sobre um deus bonzinho. Ela é uma relação viva, de amor e real com o Deus todo-poderoso que criou o céu e a terra. Pela vida espiritual podemos ter com Ele um intercâmbio de corações pelo qual Ele nos infunde a sua graça e nos transforma de verdade na imagem que Ele mesmo projetou de nós.

Talvez a fuga para longe da vida espiritual se explique pela sua enorme dificuldade. Não é um caminho fácio certamente. Nosso Senhor o chamou “porta estreita” e “caminho apertado” (Mt 7, 13). E trata-se de algo que demanda um descomunal esforço da nossa parte: “vós ainda não resististes até o sangue no vosso combate contra o pecado” (Hb 12, 4).

Mas há que lembrar também aquilo que a vida espiritual não é. Ela não é a criação à força de sentimentos positivos artificiais em nós. Não é o cultivo de sentimentos – uma pieguice no pior sentido da palavra. Não é tampouco uma ilusão auto-inflingida, quer dizer, uma espécie de auto-hipnose pela qual tentamos nos convencer de que somos capazes disso e daquilo, que somos bons nisso e naquilo. Não é também um conjunto de normas ascéticas que se devem praticar a qualquer custo.

Eu estou realmente convencido de que a vida espiritual, isto é, a nossa relação pessoal com Cristo na graça é a coisa mais séria e importante que existe na vida cristã. Se a nossa história com Deus pudesse ser comparada a uma árvore [e de fato pode, veja-se, por exemplo, o Salmo Um e os incansáveis apelos do Evangelho para darmos “bons frutos”], as raízes mais profundas a sugar água e nutrientes nas profundezas da terra seriam sem dúvida a vida espiritual, o contato vivo com o Senhor. Saibamos, pois, abandonar as cisternas furadas das ideologias materialistas que estão em nosso meio.

Cristóvão Oliveira Silva
irmão de Sion
vive em Jerusalém

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Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion
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