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Terceiro Domingo do Tempo Comum

Ir. Cristóvão Oliveira Silva
26 de Janeiro de 2019

Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir. Lc 4, 20-21

Orígenes, teólogo da Igreja antiga que viveu entre o segundo e o terceiro século, comentando sobre esta passagem do Evangelho segundo São Lucas, tece o seguinte comentário a respeito do fato de que todos tinham os olhos fixos em Jesus:

Também os nossos olhos agora, se assim o quisermos, podem observar o Salvador. Pois, quando você devota todo o seu coração à sabedoria, à verdade e à contemplação do Unigênito Filho de Deus, o que seus olhos veem então é Jesus.

Por estas palavras, o teólogo grego revela uma espiritualidade profundamente cristocêntrica. O Senhor Jesus Cristo é o único objeto da sua contemplação espiritual. Tudo o que ele vê, é Cristo. Ora, essa não é uma experiência unicamente pessoal de Orígenes. Ela é, ou deve ser, a experiência de todo cristão. Ser cristão é ser um só com o Senhor; é não somente ver tudo com os olhos de Cristo, mas também ver Cristo em tudo.

Esta plenificação do Senhor Jesus em nós se manifesta especialmente no modo como lemos a Sagrada Escritura, a Bíblia. O Novo Testamento nos ensina claramente que Jesus de Nazaré, filho da Virgem Maria, e, por adoção, de José, é o Filho de Deus, o Messias enviado ao mundo pelo Pai celestial para operar a nossa salvação pela sua morte e ressurreição. O Antigo Testamento, porém, nos fala destas realidades de forma velada e através de imagens simbólicas.

A Tradição da Igreja ensina que há no Antigo Testamento quatro sentidos, divididos em dois tipos. A primeira parte é chamada de “sentido literal”. Este sentido literal é aquele que foi objetivado pelos autores dos livros. Para entender este sentido, é preciso compreender os modos de expressão literária em voga nos meios sociais a que pertenceram os escritores sagrados.

O segundo tipo é chamado de “sentido espiritual” e é dividido em três subtipos: sentido tipológico, sentido anagógico e sentido tropológico. O sentido tipológico diz respeito a elementos dentro do Antigo Testamento que revelam algo simbolicamente a respeito de Cristo e da Salvação. Este sentido, porém, não foi objetivado pelo autor temporal do texto sagrado, mas somente pelo autor sobrenatural, isto é, o Espírito Santo.

Um exemplo de sentido tipológico é o profeta Jonas no seio do peixe. Nosso Senhor interpreta esta narrativa como apontando para Ele: “do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12:40). Contudo, para que um elemento do Antigo Testamento seja considerado como símbolo de Cristo, é preciso que tal interpretação esteja claramente presente ou no Novo Testamento ou nos Padres da Igreja ou na Liturgia.

O segundo subtipo é o anagógico. Este sentido se refere às realidades da glória, isto é, da Igreja que está no Céu contemplando a Santíssima Trindade face a face. Assim, no segundo capítulo do Gênesis, o jardim de Éden é uma revelação sobre a felicidade futura do homem redimido.

O terceiro subtipo chama-se tropológico. Segundo este modo de ler, os heróis e santos do Antigo Testamento, em suas virtudes, são exemplos para serem imitados. Assim, a Epístola aos Hebreus, no capítulo onze, nos conclama a imitar a fé de Abraão, Moisés, e até mesmo da prostituta Raab.

Pelo batismo, Deus nos deu o dom da fé, isto é, a graça de crer em seu Filho Jesus Cristo. É desde esta graça que nós lemos e meditamos a Sagrada Escritura; é desde esta graça que nós lemos e interpretamos a nossa própria existência. Não é somente, portanto, na Sagrada Escritura que nós contemplamos o Senhor. Nós também o contemplamos como um fato consumado na história da Igreja e na nossa própria história pessoal. Contemplamos o Senhor na Eucaristia, contemplamos o Senhor dentro de nós, no profundo de nossas almas, contemplamos o Senhor em nosso próximo. E essa contemplação faz-nos não somente sábios, mas também verdadeiramente felizes.

Sim, como Orígenes, lancemos o nosso olhar ao Senhor que nos espera nas páginas do Novo e do Antigo Testamento, lancemos o nosso olhar ao Senhor na Eucartistia, lancemos o olhar ao Senhor presente em nós e deixemos que Ele plenifique a nossa existência, de modo que tudo que vejamos seja tão-somente Ele. Que o Senhor seja louvado sempre.

Bibliografia: Catena Áurea de Santo Tomas de Aquino: Lucas 4, 14-21. Catecismo da Igreja Católica: 115-119

Profetas Jonas e Isaías - Pintor anônimo 1560/1560 - Museu de Belas Artes de Tatarstan

De acordo com o sentido espiritual tipológico, os livros de Jonas e de Isaías nos falam de Cristo através de figuras e símbolos.

Cristóvão Oliveira Silva
irmão de Sion
vive em Jerusalém

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Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion
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