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Quarto Domingo do Tempo Comum

Ir. Maycon dos Reis Custodio
02 de Fevereiro de 2019

A liturgia da Igreja é um belo caminho de santificação centrado na vida e no mistério de Jesus Cristo. Toda a vida de Cristo é modelo salvifíco, por isso, durante o ano litúrgico somos convidados a seguir o Cristo em seu caminho. No entanto, Jesus faz parte de um povo e este povo contém uma bela história de amor e de relação com Deus, uma história que também faz parte da História da Salvação, cujo ápice é Jesus Cristo, Verbo de Deus feito homem.

Neste 4º Domingo do Tempo Comum somos convidados a rezar com a vocação profética, seja a dos profetas bíblicos e também nossa própria vocação profética recebida no batismo.

A primeira leitura apresenta um trecho do diálogo de Deus com o Profeta Jeremias, extraída do capítulo 1º. Vale a pena ler todo o capítulo primeiro para compreender a beleza do texto bíblico e para conhecer um dos mais belos diálogos registrados pela Escritura. Não entrou na liturgia deste Domingo, mas o profeta Jeremias, diante da grandeza do chamado que lhe é feito por Deus exclama: “Ah Senhor Deus, eu não sei falar, pois sou ainda uma criança”. Os grandes vocacionados na Bíblia foram homens que viram a grandeza da vocação proposta por Deus e a confrontaram à pequenez de seu próprio ser (veja Moisés, que apresenta a Deus sua dificuldade de fala em Ex 4,10). Toda vocação é fundada primeiramente no amor de Deus e no seu poder e justamente por isso, nós podemos nos apoiar em Deus, pois só Ele nos dá a força de viver nossa vocação com fidelidade. A vocação não é uma retribuição que Deus dá aos bons, aos fortes e aos melhores. Vocação é antes de tudo um dom de Deus. Vejamos como a profecia de Jeremias trabalha o tema da vocação: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profetas das Nações” (Jr 1,5). Esta belíssima poesia da Escritura nos oferece elementos para refletir o tema da vocação. Vejamos apenas alguns dos verbos utilizados pelo escritor sagrado: formar – conhecer – consagrar. Ora, todos estes verbos demonstram as ações de Deus. É Deus quem forma os seres humanos (veja Sl 8). Ele os conhece a todos perfeitamente (Sl 136). E cada ser humano traz em si uma consagração feita por Deus pelo próprio fato de ser humano. Nenhum ser humano está privado da ação que estes três verbos significam: todos os seres humanos foram formados por Deus, são conhecidos por Deus e têm em si uma centelha do divino; por isso dizemos que a primeira vocação mesma do ser humano é a vocação à vida, dom gratuito de Deus. No entanto, cada um de nós recebeu um chamado para consagrar nossa vida a um projeto. Como Jeremias: “eu te fiz profeta das Nações” (Jr 1,5). A vida, dom absoluto de Deus, é para ser colocada à disposição de uma missão.  Jeremias consagrou a sua própria para anunciar a Israel a fidelidade de Deus num momento conturbado da História de Israel, pois o profeta se situa exatamente na época da queda de Jerusalém (por volta de 626 a.C).

Alguns elementos a mais para nossa reflexão. O que chamamos vocação de Jeremias foi resultado do encontro de sua pessoa com a “palavra do Senhor”. Não existe vocação autêntica sem esta proximidade e mesmo interação com a Palavra do Senhor, afinal, é por meio da Palavra (seja ela escrita ou ouvida na Tradição) que compreendemos o que Deus deseja de nós. De um lado temos Deus que fala e por outro, o próprio profeta que escuta a Palavra e a vive. A iniciativa é sempre de Deus. A nós compete estarmos atentos ao Deus que nos fala continuamente para respondermos com fidelidade à vocação a qual Ele nos chama. É isto que Deus espera de nós, ação: “Vamos, põe a roupa e o cinto… levanta-te… comunica-lhes…”(Jr 1,18).

No Evangelho deste domingo (Lc 4,21-23) a Igreja apresenta a continuação do episódio iniciado no domingo passado, em que Jesus, “segundo seu costume” lê a Escritura e a interpreta em dia de Shabbat na Sinagoga de Nazaré. O Senhor Jesus atualiza em sua própria pessoa a Escritura, pois Ele mesmo é a atualização plena de todas as promessas contidas no Livro Sagrado.

Vemos na cena do Evangelho um Profeta no sentido pleno da palavra, como aquele que anuncia aos seus concidadãos que a Aliança de Deus com povo chegava à sua plenitude. A pregação de Jesus no início do seu ministério público é um retorno àquilo de mais essencial da experiência religiosa de Israel: a Palavra de Deus. Como Profeta Jesus convida os seus a centrarem-se na Escritura; foi isto que fez Jeremias.

A cena evangélica continua afirmando um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o texto diz que diz que “todos estavam admirados a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” e se perguntavam: “Não é este o filho de José?” (Lc 4, 22), Jesus começa seu sermão na sinagoga citando um ditado que deveria ser conhecido entre os seus: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Que significa este ditado utilizado por Jesus para ilustrar sua pregação? Podemos pensar que Jesus quis apresentar o fato paradoxo de os presentes ali louvarem a sua oratória, a beleza do discurso sem abraçar o conteúdo indicado por Jesus.  Louva-se a forma sem se ater ao essencial da mensagem de Jesus. E o Senhor ilustrou sua pregação com exemplos de dois profetas importantes em Israel, Elias e Eliseu. Estes dois profetas são importantes na história de Israel por terem realizado seu ministério num momento crucial da definição da fé na Unidade de Deus.  Jesus menciona a cura da viúva por Elias (1 Rs 17,17ss.) e a cura de leprosos realizada por Eliseu (2 Rs 5). Estes dois exemplos apresentam os profetas de Israel que realizam sinais milagrosos, tidos como sinais da presença de Deus, não na Terra de Israel, mas sim entre os pagãos, povos que estavam fora da Aliança de Moisés.  Com este discurso e utilizando os exemplos de grandes profetas de Israel, Jesus chama a atenção para o mistério de Sua Pessoa. Jesus deseja na verdade que os presentes na Sinagoga escutem em suas palavras humanas a Palavra Eterna de Deus, a mesma que foi dada no Sinai, anunciada pelos Profetas e vivenciada pelos justos.  Mais que maravilhar-se da aparência, eles foram convidados a contemplar o mistério do Filho de Deus presente entre eles.

“O cristianismo não nasceu de uma bela ideia ou de um programa ético, mas de um acontecimento, ou seja, de um encontro com uma pessoa: Jesus de Nazaré” nos ensinou Bento XVI. O problema identificado pela comunidade de Lucas também está presente em nossa sociedade.  Podemos encontrar diversas pessoas que discursam sobre Jesus, sua vida e ensinamentos, mas que são incapazes de adentrar no mistério da vida de Jesus. Pessoas para quem Jesus e seu Evangelho não representam nada mais que uma elaboração de pessoas boas, ou mesmo pessoas que consideram altamente humanistas as atitudes de Jesus, sem, no entanto enxergar nos Evangelhos a história do Verbo Eterno de Deus que se fez carne e habitou entre nós. O mundo moderno louva a prática de Jesus sem confessar a fé n’Ele. Há inclusive cristãos que agem assim; abraçam um cristianismo sem Cristo, sem cruz, sem nenhuma forma de comprometimento e mesmo sem fé. Devemos confessar a nossa fé em Jesus Cristo e testemunhá-LO. É deste modo que agem os verdadeiros profetas, aqueles que deixam transparecer Deus naquilo que fazem; Jesus nos chama a orientarmos nossa vida de acordo com nossa fé. Se assim o fizermos palavras seriam desnecessárias, mas nossa prática mesmo seria uma bonita profissão de fé.

Se observarmos atentamente a segunda leitura, veremos que ao tentar dar uma definição do que é a caridade, São Paulo não apresenta discursos teológicos nem formulações de qualquer tipo. O Apóstolo apresenta casos concretos da vida e uma resposta positiva, que ele chama de caridade. De um lado o Apóstolo apresenta as atitudes que estão longe de serem consideradas como caridade: inveja, rancor, soberba, inconveniência, interesse, iniquidade e registra em seguida as ações que são confundidas com caridade: paciência, ser benigno, ter alegria com a verdade, suportar tudo, crer tudo, esperar tudo, desculpar tudo. Todas as ações aqui presentes são ações do dia-a-dia. Nenhuma delas está além da capacidade humana. Ora, a vida cristã é um caminho em que nos conformamos com a vida de Cristo, e fazer isso significa viver nosso dia-a-dia à luz de Cristo.

Como cristãos somos convidados a assumir nossa vocação de sermos profetas, ou seja, viver nossa vida cotidiana apontando para Deus. Aliás, por ocasião de nosso Batismo recebemos essa missão. Devemos também assumir um novo estilo de ser profeta, não no sentido daquele que acusa e prevê catástrofes, mas um profeta que testemunha com a própria vida sua fé no Senhor. Um profetismo sem palavras explícitas, mas que pelo modo de ser, as opções éticas que faz, o modo de tratar os demais anuncia com eloquência o mistério de Cristo.

Essa é nossa vocação. Para testemunhar a Cristo é que fomos chamados. Cada um a seu modo. O sacerdote que celebra a Eucaristia e vive seu ministério com fidelidade é profeta assim como a mãe de família que trabalha com zelo, é solidária com os que necessitam, educa seus filhos com responsabilidade ou mesmo como qualquer profissional que exerce sua atividade inspirado em Cristo e se esforça por seguir os seus ensinamentos. Ser profeta é ser diferente do normal. É ser humano de tal maneira que as pessoas vêm Deus em nossas ações. Permitindo que a caridade de Cristo seja nossa Lei em todas as ações de nossa vida.

Que Deus nos ajude a viver nossa vocação profética onde quer que estejamos e que a exemplo de Maria, sejamos homens e mulheres comunicadores de Deus.

Shalom.

Cristo Ensinando em Cafarnaum Maurycy Gottlieb 1878 - 1879

"A obra de Maurycy Gottlieb, o pai espiritual da pintura judaica na Europa Central, tornou-se um ponto alto brilhante nas relações artísticas polaco-judaicas. O artista deixou para trás uma abundância de excelentes obras, apesar de ter morrido muito jovem, aos 23 anos. Cresceu numa família judaica abastada na cidade de Drohobycz e manteve fortes laços emocionais com o judaísmo ortodoxo, sendo também fascinado pela história e arte polacas. Ele se considerava igualmente um judeu e um polaco, o que ele expressou nas famosas palavras "Eu sou um polaco e um judeu" e, se Deus quiser, eu quero servir a ambos. Esta atitude manifestou-se na ânsia do artista em retratar temas que identificaram e demonstraram momentos honrosos na coexistência polaco-judaica e nas raízes comuns do judaísmo e do cristianismo. A principal ligação entre as duas religiões e culturas tornou-se a figura de Jesus Cristo, a quem Gottlieb se esforçou por inscrever na tradição judaica. Nesta pintura, como ele faz o sermão em Cafarnaum, Cristo é mostrado usando um tallith, um xale usado pelos judeus durante a oração. Ele se dirige à sinagoga parecendo um judeu ortodoxo, mas, por respeito ao Cristianismo, o artista colocou um halo acima da cabeça de Cristo. As expressões indiferentes usadas por muitos dos ouvintes e o auto-retrato do artista na multidão com os braços baixos num gesto de impotência parecem implicar que a maioria dos pares religiosos do artista não se convenceu com qualquer sugestão de unidade judaico-cristã. Gottlieb começou a trabalhar na pintura em Roma em 1878, não muito antes de regressar à Polónia a convite do grande pintor Jan Matejko. Infelizmente, a pintura ficou inacabada, pois o artista morreu apenas seis meses depois, em julho de 1879, em Cracóvia, de complicações após uma doença na garganta".


Fonte: Google Arts & Culture

Maycon dos Reis Custódio
irmão de Sion
vive em Jerusalém

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Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion
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