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Primeiro Domingo da Quaresma

Nem Toda Dor é Sofrimento

Frei Joel M. Moreira, nds
8 de Março de 2019

A fé cristã nasce de uma revelação e de uma esperança: a revelação do Deus encarnado entre os homens e a esperança de que ele retornará para trazer sua justiça e paz definitivas. Não é certo, contudo, sugerir que a Igreja viva em função de um futuro encantado e aparentemente utópico, onde o Messias realizará a plenitude dos anseios do coração de seus eleitos.

A missão dada por Cristo aos seus discípulos sugere engajamento e compromisso direto na construção do Reino e este processo ainda parece estar bem distante daquelas justiça e paz definitivas que todos um dia pretendemos alcançar. É preciso dar-se conta do caminho pedregoso, árido e espinhoso que se encontra à nossa frente e é para adentrarmos na lucidez desta realidade que a liturgia da Igreja nos introduz no tempo quaresmal.

No Evangelho deste domingo, Jesus responde a Satanás ao ser tentado: “Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4), ao que Mateus complementa: “…mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). É interessante notar que Jesus é tentado a fazer algo que não é necessariamente moralmente errado. No próprio versículo 2, Lucas diz que “ele sentiu fome”. Ora, quem tem fome é natural que busque algo para comer.

Na verdade, a recusa de Jesus não está relacionada ao simples ato de comer, mas às reais intenções do Satanás, pois nos versículos seguintes ele diz: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória […]. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”. (Lc 4,6-7) O que Jesus nega não é o pão, mas a oferta de uma vida fácil e de uma glória mundana. Seu propósito é outro e a lógica de chegar a este propósito é diversa da lógica deste mundo. A dor nem sempre reflete o sofrimento. A falta nem sempre reflete o vazio. Jesus sentiu fome, mas encontrou saciedade na Palavra e sua experiência de ser tentado por quarenta dias no deserto vai ao encontro direto do povo hebreu ao sair do Egito.

É o retrato deste povo que a primeira leitura nos apresenta. O livro de Deuteronômio (do grego deuteros + nomos = a segunda lei) funciona como uma revisão da Lei dada no Monte Sinai. O povo hebreu finalmente está na Terra Prometida, mas é preciso rever o que Deus deu como mandamento enquanto estavam no deserto, pois as gerações se passam, mas a Palavra continua a mesma. Eles já não passam a privação que havia diante da aridez do deserto, pois afirmam que “Deus conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel” (Dt 26,9). Mas Deus os convida a sempre lembrar da experiência humilhante que foi o Egito: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro. […] Os egípcios nos maltrataram e oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão” (Dt 26,5-6).

A memória (do hebraico zikaron) é um elemento importante na história do povo hebreu, pois é por meio dela que se preserva a lucidez do que somos, partindo da consciência de onde viemos. Lembrar da experiência de escravidão no Egito é um mandamento divino e (de maneira evidente na leitura de hoje) é também um ato litúrgico. Longe de expressar um puro ressentimento, esta memória, na verdade, faz o povo de Deus recordar de que, embora estejam numa terra “onde corre leite e mel”, foi a providência e a misericórdia de Deus que os livrou da escravidão.

É por isto que a Igreja, seguindo os passos e a tradição de Israel, dá um espaço próprio na liturgia especialmente para recordar da nossa própria experiência de dor e aridez. Não se trata de um tempo de tristeza, mas de consciência e contemplação. É preciso revisitar o Egito para sabermos do que fomos salvos. É preciso caminhar pelo deserto para chegarmos na terra prometida.

De qualquer forma, esta caminhada não é feita sozinho. É o próprio Deus quem nos acompanha. O Salmo nos indica quem é a nossa fortaleza: “Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim! […] Sois meu refúgio e proteção, sois o meu Deus, no qual confio inteiramente” (Sl 90). Como o próprio Jesus nos ensina no Evangelho, é a Palavra que nos dará força e nos sustentará diante da fraqueza. Mas para isto é preciso contemplá-la, estudá-la e colocá-la em prática. Pois, assim como disse Paulo na segunda leitura: “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração. […] É crendo no coração que se alcança a justiça e é confessando a fé com a boca que se consegue a salvação.” (Rm 10,8-10).

A Tentação de Cristo pelo Diabo - Félix-Joseph Barrias, 1860

Fonte: Google Arts & Culture

Este comentário litúrgico foi escrito por
Frei Joel M. Moreira, nds
Jerusalém, Israel

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