O carisma de uma congregação ou de qualquer grupo específico na Igreja, isto é, o quadro geral das suas ações externas e visíveis, é o que mais lhe marca publicamente a identidade. Sabemos reconhecer na prática do amor radical aos pobres e na prática da simplicidade de vida o carisma de São Francisco de Assis e de seus discípulos; sabemos reconhecer igualmente na assistência aos doentes o carisma de São Camilo e de tantas famílias religiosas que lhe seguem os passos.

Quais seriam, então, as atividades externas e visíveis que caracterizariam os Irmãos de Sion? Antes de as expor pura e simplesmente, vale a pena primeiro lançar um olhar sobre a teologia bíblica do carisma. O que a Bíblia diz sobre essa realidade chamada “carisma”?

O termo “carisma”, do Grego ΧΑΡΙΣΜΑ, tem o sentido básico de “dom[1]”, o dom que Deus concede àqueles que se voltam a Ele pela fé. Todavia, há algumas variações de significado conforme o contexto em que a palavra é empregada. Vejamos quatro dessas variações no Novo Testamento, estabelecendo uma hierarquia teológica entre elas.

Em Romanos 5, 15-16[2], encontramaos a primeira variação. Aqui é o “carisma” é definido como a graça de Deus, ou a salvação, ou ainda a justificação do pecador.

“Não acontece com o [ carisma ] o mesmo que com a falta. Se pela falta de um só todos morreram, com quanto mais profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos. Também não acontece com o dom como aconteceu com o pecado de um só que pecou: porque o julgamento de um resultou em condenação, ao passo que o [ carisma ], a partir de numerosas faltas, resultou em justificação.” Rm 5, 15-16

Uma outra passagem em Romanos também nos mostra o “carisma” em um contexto de salvação:

“Porque o salário do pecado é a morte, e o [ carisma ] de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Rm 6, 23

A segunda variação vamos encontrá-la em 1 Coríntios. Trata-se de São Paulo Apóstolo explicando a sua opção pelo celibato. Nesta passagem, seu “estado de vida” é um “carisma”.

“Quisera que todos os homens fossem como sou; mas cada um recebe de Deus o seu [ carisma ] particular; um deste modo; outro, daquele modo”. 1 Cor 7,7

Na terceira variação, encontramos o carisma como um dom comunicável na Igreja. A Igreja, pelos apóstolos (hoje em dia diríamos pelos seus sucessores, os bispos) pode transmitir dons espirituais aos fiéis.

“Por este motivo, eu te exorto a reavivar o [ carisma ] de Deus que há em ti pela imposição de minhas mãos”. 2 Tm 1,6

“Realmente desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum [ carisma ]”. Rm 1,11

A quarta variação de significado nos mostra que um carisma é uma ação que se faz ao próximo para o seu bem, seja espiritual (pregar) ou histórico-material (servir).

“Todos vós, conforme o [ carisma ] que cada um recebeu, consagrai-vos ao serviço um dos outros, como bom dispenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém prega[3], faça-o como se pronunciasse palavras de Deus. Alguém serve[4]? Faça-o com a capacidade que Deus lhe concedeu, a fim de que em tudo seja Deus glorificado por Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.” 1 Pe 4, 10-11

Nas duas citações de Romanos (5,15-16 e 6, 23), o carisma, dom de Deus, tem uma dimensão soteriológica, isto é, relativo à salvação; ele aponta para a justificação e a vida eterna.

Nas passagens de Rm 1,11, 2 Tm 1,6 e 1 Pe 4, 10-11, o “carisma” tem uma dimensão eclesiológica. Nas duas primeiras, é o dom que a Igreja, pelos pastores, comunica aos fieis; e na última, recebido o “carisma” diretamente de Deus ou pela Igreja, ele torna-se um meio de serviço ao próximo; o carisma é partilhado. Este se insere, então, naquele quadro de ações externas e visíveis que caracteriza especificamente um fiel ou grupo de fiéis.

Assim, todo carisma autêntico como ação na Igreja tem essas dimensões salvíficas e eclesiais. Um carisma, ação na Igreja, é um eco temporário (histórico) de um dom maior e eterno, a salvação.

Agora a pergunta pelo “carisma” dos Irmãos de Sion pode fazer um pouco mais de sentido, uma vez que sabemos que o carisma é esta ação externa e visível na Igreja, tendo, porém, sua origem em Deus, como um “eco” da vida eterna na história.

As atividades dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion, as suas ações externas e visíveis na Igreja, são definidas pelas suas Constituições[5]. Vejamos alguns pontos:

§2. A meditação constante das Escrituras, iluminada pela Tradição judaica e cristã, será o elemento fundamental da vida consagrada de seus membros, que inspirará suas atividades apostólicas.

§20. Nossas atividades apostólicas se fundamentam, desde as origens, sobre:A certeza de que Deus continua a amar seu Povo por causa dos Pais, que os dons e as promessas feitas a Israel são irrevogáveis (Rm 9-11).
A vontade de seguir Jesus Cristo no seu amor pelo seu Povo.
A convicção de que nossa Congregação tem um papel a desempenhar na relação entre Israel e a Igreja.

§22.  (...) procuramos um melhor conhecimento do lugar e do papel do Povo de Israel na História da Salvação, bem como sua relação com a Igreja.

§24. Nós nos esforçamos em conhecer, pelo estudo e pelo diálogo, a Tradição viva de Israel. Esta ilumina em profundidade nossa vida cristã, estimulando nossa busca de justiça e paz.

§25. O contato com judeus, onde for possível, nos permite conhecê-los, e conhecer sua Tradição.

§29. Na catequese, na liturgia, nas pregações e ensinamentos, procuraremos contribuir para uma melhor compreensão do “patrimônio comum aos cristãos e aos judeus” e fomentar “o mútuo conhecimento e estima” (Nae4)

§30. Nós participamos do movimento ecumênico e do diálogo judeu-cristão. Estas atividades supõem o conhecimento e o respeito do outro; elas excluem toda forma de proselitismo.

§31. Nós nos esforçamos não somente para conhecer o Judaísmo, mas também para torná-lo conhecido entre os cristãos, como ele próprio se define. Buscaremos, com as Religiosas de Nossa Senhora de Sion, com outras pessoas ou Institutos cristãos e Mestres judeus competentes, como sustentar ou fundar, onde for possível e necessário, centros cristãos de estudos judaicos e também centros ou serviçoes de informação e de documentação judeu-cristã.

Cada uma destas ações, embora simples sob um primeiro olhar, exige uma explicação profunda e uma contextualização adequada para ser melhor compreendida, o que podemos apresentar em outra oportunidade.

Todas estas ações, como uma exigência que decorre da natureza de todo carisma, devem refletir na história aquele dom maior de Deus, a salvação. E segundo o modelo que seguimos para a compreensão da natureza do carisma, como emanação histórica de um dom eterno, talvez tenhamos na seguinte sentença, extraída da Introdução às Constituições, de 2006,  a “essência” da carisma sioniano:

“Testemunhar na Igreja e no mundo o amor particular de Jesus Cristo pelo seu povo Israel.”

[1] Kittel, Gerhard, Gerhard Friedrich, Theological Dictionary of the New Testament. Vol IX. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids: 1995.

[2] Todas as citações bíblicas são tiradas da Bíblia de Jerusalém (edição de 1985 - Paulinas), com a ressalva de que a palavra “carisma” é empregada para traduzir o termo [χαρισμα] conforme consta na versão grega.

[3] εἴ τις λαλεῖ - A Bíblia de Jerusalém, traduz “se alguém fala”.

[4] εἴ τις διακονεῖ - A Bíblia de Jerusalém trazuz como “se alguém presta um serviço”.

[5] Constituições da Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion – São Paulo – Julho de 2006. Casa Generalícia – Brasil.

Rolar até o topo