“Jerusalém: Sion, Mãe dos povos! ​Todos nela nascem ... morada de Deus!” (Sl 87) 

Elio Passeto, nds


 

Eu gostaria de partilhar com vocês este tema que deve ser muito caro a cada um(a) de Sion: Jerusalém. Como diz o Salmo: ‘todos nela nascem’, nós, irmãos e irmãs de Sion fazemos a experiência de viver cada dia em Jerusalém, outros(as) já fizeram esta experiência e outros(as) partilham sua importância com toda da Congregação.

Inicialmente, é mister dizer que Jerusalém é uma realidade concreta, visível. Antes de ter um valor religioso e de fé, ela tem sua historia e se situa em um lugar e é habitada. Devemos ter claro que independentemente de nós, sua existência é plena de importância nela mesma.

Para motivar esta reflexão, gostaria de citar duas frases de nossos fundadores sobre Jerusalém. Primeiramente, Alphonse Marie, por sua experiencia ao tocar na cidade, que no seu tempo era insignificante aos olhos humanos, expressa algo invisível, mas dentro da experiencia de fé, existente de Jerusalém.

Como se ele falasse da Jerusalém celeste, no entanto, mas tendo necessidade de passar pela Jerusalém terrestre. Segundo, sublinho que a definição de Jerusalém dada pelo P. Theodore, representa uma profunda visão teológica que é sempre de atualidade:

“Estou em Jerusalém! É uma posição sobre a qual ainda não me habituei. Vinte vezes ao dia, eu digo a mim mesmo com profunda emoção: Estou em Jerusalém! Graça insigne! Realização de meu sonho e de todos os meus desejos...”(Alphonse Marie, relato de sua primeira estadia em Jerusalém, 1856).

“Jerusalém! Jerusalém! Que inexprimível magia neste nome!... Jerusalém é o quadro de toda história humana; ela é o rincão das origens e das genealogias; ela é a cidade dos Patriarcas, dos Profetas e dos Apóstolos; a Pátria de Deus e da humanidade.

Ela é o berço da Igreja. Seu nome resume todos os tempos, todas as lembranças, todas as esperanças. Ela é o preâmbulo do passado e a realização do futuro.” (P. Theodore, primeiras impressões de Jerusalém, sua peregrinação de 1858).

O povo judeu, ao longo de sua história, alimentou sua fé no manancial de graça que está em Jerusalém: lugar do sacrificio, da manifestação de Deus (onde habita a Shehina), centro de peregrinação onde toda a comunidade de Israel forma uma única comunidade.

A fé cristã não se desvia desses valores. A morte e ressurreição de Cristo em e a partir de Jerusalém nos faz, por suas vez, seus filhos e filhas, como diz o Salmo. Nosso nome (Sion) não é fruto da escolha gratuita de um entre outros, mas é a expressão bíblica da manifestação de Deus à humanidade, passando pela escolha do povo de Israel.

É o nome que indica a fonte, pois Sion significa Jerusalém, é uma realidade intrelaçada que começa na terra e se une aos Céus. Por isso falar de Jerusalém é falar de nosso Carisma, do Carisma de Nossa Senhora de Sion. Jerusalém, de certa maneira, materializa o Carisma de Sion.

Sua posição no coração da Terra de Israel, é o testemunho (sacramento) perpétuo da promessa de Deus ao povo judeu e à toda humanidade.

Nosso início em Jerusalém, como Congregação, foi muito difícil. Alphonse Marie começou quase sozinho e de maneira imprevista, aparentemente sem nenhuma chance de ter sucessos: sem contatos para ser introduzido neste universo desértico de então, sem o mínimo de meios econômicos, aparentemente, lança-se na água contra a corrente.

Depois de um certo tempo, um pequeno grupo de irmãs se associou a ele e mais tarde um grupo de sacerdotes se sentiu chamado a caminhar com ele. Através de meios muito precários, a Congregação pode construir três grandes centros que se destacam mesmo em nossos dias: Ecce-Homo, Ein Karem e Saint-Pierre de Sion - Ratisbonne.

Estes centros tiveram uma grande importância na construção e evolução da sociedade local e suas influências atravessaram os mares. Hoje, nós de Sion, somos frutos deste passado e a questão agora é: como justificar nossa presença em Jerusalém?

Como nosso ser Sion em e a partir de Jerusalém responde ao chamado que a Igreja lança à Congregação? Evidentemente não necessitamos inventar o novo, temos apenas que saber renovar o que recebemos. A sabedoria nos convida, lá onde nós nos encontramos, a não ignorarmos nossa rica história que nos precedeu e não negligenciarmos os progressos que já fizemos.

Não devemos entender com isso que todos e todas de Sion devam estar em Jerusalém, no entanto, nossa Congregação é chamada a uma missão específica e única na Igreja e por causa disso Jerusalém, é para nós, a fonte imprescindível de nossa vocação.

Antes de tudo resta a pergunta que deve nos nortear sempre, o que fazer em Jerusalém? Evidentemente que a primeira coisa seria fazer precisamente o que não se faz em outro lugar.

Somos chamados(as) a buscar pelo estudo e pelo vivido em Israel, em contato direto com o povo judeu, a experiência do Mistério da Igreja que desde de suas origens está vinculada a Israel.

Os documentos oficiais da Igreja falam hoje de uma relação “intrínseca” com o povo judeu (Cf. O Povo Judeu e suas Santas Escrituras na Bíblia Cristã, 2001, nº 86).

Na realidade, estar em Israel, em contato com o povo judeu, no lugar mesmo onde os textos bíblicos foram gestados e elaborados, deve significar para nós, de Sion, uma dimensão outra que o simples fato de estar em um lugar, devemos ser interpelados(as) a irmos além do óbvio, do rotineiro e buscarmos a entender o que signifca viver em um lugar sacramento (lugar que preferencialmente Deus se faz presente).

Ademais, a vida religiosa que continua sendo vivida pelo povo judeu, hoje, estimula mais a compreensão de nossas raízes cristãs. Este fato ilumina nossa relação com a economia da salvação, tal qual foi designada por Deus e vivida por Jesus e seus discípulos...

Desta forma, a descoberta de nossas relações especiais com o povo judeu, proclamada pela Igreja nesses últimos 50 anos, encontra seu pleno sentido através da presença de Sion em Jerusalém, Israel.

Eu retorno à idéia da urgência de que a Congregação de Sion deve ser de mais a mais preparada para ser Sion, bebendo desta fonte que é para nós Jerusalém. Vários grupos na Igreja, por falta de perspectiva ou por outras razões se envolveram no diálogo com o judaísmo.

No seu tempo, Sion soube tomar iniciativas que foram confirmados no Concílio Vaticano II. Hoje, com mais experiência, somos interpelados a responder aos novos desafios que estão diante de nós, como Congregação e como Igreja.

Nós possuímos uma sensibilidade e mesmo um conhecimento que não estão ultrapassados. No entanto, nós devemos ser vigilantes. A nova geração pode perder essa sensibilidade e consequentemente não ser mais capaz de dar continuidade e responder aos novos desafios com os quais somos confrontados, dada nossa vocação na Igreja.

Sion deve ser formada em Jerusalém e formar pessoas para nela viver. Penso que ainda não soubemos utilizar suficientemente o potencial de formação que nos é específico em Jerusalém. Entendo que deveríamos estabelecer um quadro de formação contínua, seja em vista de uma introdução, seja para uma experiência mais aprofundada. U

m trabalho comum entre irmãos e irmãs, conjugando nossas capacidades materiais e humanas, dar-nos-ia as melhores chances de sermos melhores formados e de podermos formar os outros. Uma coisa é certa: a falta de formação do nosso específico conduzir-nos-á à perda de nossa identidade e de nossa razão de ser.

Uma boa formação, voltada para o estudo da tradição de Israel e da Igreja, é a condição sine qua non. Porém todos e todas sabemos, isso exige investimentos e decisões que supõem tempo e esforço, nada é gratuito e acontece de um momento ao outro. Somos vários(as) que vivem em Israel ou fora, que receberam uma certa formação.

Estas pessoas teriam que priorizar suas atividades na transmissão deste aprendizado feito. Desta maneira, nos capacitaríamos a desenvolver o que somos chamados a viver, como Congregação, na Igreja para o mundo. Devemos sustentar e encorajar os mais jovens que já estão no local e ao mesmo tempo exigir de cada irmão ou irmã um envolvimento no carisma de Sion na compreensão e na transmissão.

Não deve ser possível, como Sion, simplesmente estar em Jerusalém, deve ser inerente a Sion fazer a experiência do Mistério da fé cristã na busca de um conhecimento profundo do povo judeu; o contrário, seria colocarmo-nos em contradição conosco mesmos.

Concluo reafirmando o que nos é pedido, como Sion, alguma coisa de único na Igreja, abandonar isto ou não priorizar nossas energias no essencial é renunciar nossa razão de ser. Jerusalém permanece o lugar ‘sacramento’ que nos foi dado como ponto de partida e ponto de chegada, para que jamais percamos nossa identidade. “In Sion firmata Sum” (Sirácide 24,10).

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Viva Nossa Senhora de Sion!

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