O Sim de Maria (הנני  (1

Elio Passeto


Falar de Maria em nosso contexto de Sion, a partir da terra que a viu nascer e que foi testemunha de sua vida, ajuda-nos a ter presente sua realidade de mulher a serviço de Deus.

De fato sua grandeza está em sua abertura de espírito à ação de Deus sobre ela. Tornando assim Deus mais próximo da humanidade, se fazendo humano. Uma concepção completamente divina de Maria, puramente imaginário, onde sua realidade humana, histórica, de mulher não seja levada em conta, pode conduzir a um distanciamento de seu exemplo palpável de vida para os viventes (2).

Primeiramente Maria é uma mulher, vem de uma família, de um povo, mora em um lugar e se situa em um tempo na história. Mesmo se o texto do Evangelho quer anunciar um verdade teológica, uma experiência de fé, ele situa Maria em uma realidade concreta:

«No sexto mês, o Anjo foi enviado por Deus a um povoado da Galileia de nome Nazaré, a uma ‘jovem’(3) comprometida em casamento a um homem de nome José, da família de David; esta Jovem moça se chamava Maria» (Lc 1,26).
Neste texto encontramos muitas as informações sobre a mulher Maria: sua família, seu lugar geográfico, seu engajamento familiar...

Segundo os costumes da época, podemos entender que Maria tivesse por volta de 13 a 14 anos (jovem moça). Normalmente depois do Bat Mitzva (maturidade celebrada aos 12 anos), a jovem se preparava para o casamento, dado que ela já estava apta para isso. Neste contexto de Maria, logo depois de celebrar sua maturidade, os próximos anos serão em vista de se organizar para a vida matrimonial.

Fazendo parte de uma realidade judaica e uma realidade religiosa judaica, Maria foi formada na espera religiosa de seu povo: ser preparada para a vinda do Messias (Ungido, Cristo), que deveria libertar o seu povo do jugo do poder estrangeiro que o dominava, afim de poder servir a Deus livremente e não mais ser escravo de reis deste mundo. לעבוד את ה’ ולא אלים אחרים
Como outras jovens, Maria rezava para que isso acontecesse e se preparava para esta vinda. Certamente ele fazia perguntas a si mesma como isso aconteceria? No entanto ela guardava a certeza de que seria Deus, na sua misericórdia e poder, que realizaria, no momento querido por Ele e segundo a sua vontade.

Maria vivia dentro do universo religioso de seu povo, com seus valores, apreensões e esperanças. Deus devia então escolher uma ‘jovem moça’ concreta, humana. Segundo o relato Evangélico, Maria conhecia o tema anunciado a ela através do Anjo. Sua reação ao Anjo será: ‘como é que vai ser isso?’ e não: ‘eu não sei sobre o que está falando’. Lucas nos faz entender que Maria sabia que o Messias deveria vir e seria através das mãos de Deus.

Há uma grande conclusão a ter presente neste diálogo entre Maria e o Anjo enviado por Deus: a consciência de Maria da realidade vigente, da historia de seu povo, de suas esperanças religiosas… Nós aprendemos que Maria buscava entender e discernir os sinais dos tempos. A espera Messiânica de seu povo era também sua espera e isto deveria acontecer concretamente na historia.

Na verdade a Bíblia nos ensina que desde o inicio Deus quis associar as pessoas na Sua ação; Ele age através das pessoas; Ele as vocaciona e espera suas respostas. Maria é o exemplo desta relação entre o projeto de Deus para a humanidade e a resposta ao seu apelo. Sua resposta é livre, é consciente, é querida por ela (4).

Os textos dos Evangelhos falam da missão de Maria, de sua ação: ela é escolhida por Deus para ser o espaço da encarnação. Através de sua resposta Maria se põe a serviço de Deus, obediente à sua Palavra e se deixar agir por ela.

Poderíamos dizer que a redenção do mundo, na sua plenitude, Deus quis que fosse pela sua incarnação e para se encarnar foi necessário a participação da pessoa humana. Maria é esta pessoa. A ação de Deus, é, de certo modo, dependente desta colaboração humana, da participação humana. Os textos são fiéis ao evidenciarem que Maria é humana e permanece humana, permanece mulher e mulher cheia de Deus.

É esta realidade humana de Maria, respondendo ao apelo de Deus, que transforma a historia da humanidade, dado que ela, em sua capacidade de escolher entre o sim e o não, respondeu à Palavra de Deus, tornando-se a mulher serva de Deus por excelência, partícipe da ação de Deus para a humanidade. Como as pessoas de seu povo de seu tempo, Maria acreditava que o Messias deveria vir segundo a Palavra de Deus. Sua resposta portanto, é mais que um ‘Sim’, é a tomada de responsabilidade em ação. Na perplexidade de sua pergunta está já seu movimento de ação: ‘Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum? (Lc 1, 34). Nesta pergunta ela não está indicando uma indisposição para aceitar, mas pedindo explicação para agir. Ela não está dizendo que não está de acordo, apenas querendo saber o que e como fazer para que isso se realize.

A resposta dada pelo Anjo não é uma simples frase, para ser lida como uma seqüência de palavras, devemos ouvir o que está por trás do texto. As afirmações são buscadas na longa historia bíblica. Cada palavra é carregada do sentido da ação de Deus na historia:

‘O Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra… Para Deus, com efeito, nada é impossível . Disse então Maria: Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra. E o Anjo a deixou’ (Lc 1, 35-38).

Vejamos algumas correspondências destas expressões presentes já em momentos diferentes da historia bíblica: ‘O Espirito Santo virá sobre ti’: ‘E o Espírito de Deus pairava sobre a superfície das águas’(Gn 1,2). ‘Envias o teu Espírito e eles serão criados, e assim renovas a face da terra’ (Sl 104, 30). ‘Sobre ele repousa o Espírito do Senhor…’ (Is 11, 2); ‘e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra’: ‘A nuvem cobriu a tenda da Reunião, e a glória do Senhor encheu a Habitação. Moisés não pôde entrar na Tenda da Reunião porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia a Habitação’ (Ex 40, 35); ‘Os filhos de Israel permaneciam acampados durante todo o tempo em que a Nuvem repousava sobre a Habitação’ (Nm 9, 18), ‘Ora a Nuvem permanecia dois dias, um mês ou um ano; enquanto a Nuvem permanecia sobre a Habitação, os filhos de Israel ficavam acampados; mas quando ela se levantava, então partiam’ (v.22); ‘Durante o dia a Nuvem do Senhor pairava acima deles…’ (Nm 10, 34). Lucas no relato da transfiguração vai usar a mesma expressão para falar da presença de Deus: ‘Ainda falava, quando uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra; e ao entrarem eles na nuvem, os discípulos se atemorizaram’ (Lc 9, 34). ‘Para Deus, com efeito, nada é impossível’: ‘Acaso existe algo que seja tão extraordinário para o Senhor? Na mesma ocasião, no próximo ano, voltarei a ti, e Sara terá um filho’ (Gn 18, 14).

Estas citações que parecem intercaladas na resposta dada pelo Anjo a Maria, ou melhor dizendo, as palavras que Maria refletiu antes de dar sua resposta, é como se Maria tivesse feito uma revisão (ouvido) toda a historia de Deus, depois da criação. Todo o percurso que seu povo fez juntamente com Deus onde Deus diz e sua Palavra age. Em sintonia com a Revelação da Palavra e amparada na tradição da fé de seu povo, Maria responde positivamente:

‘Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra. E o Anjo a deixou’ (Lc 1, 38).
Com efeito esta resposta faz eco com outras tantas respostas na historia contada na Bíblia. É uma resposta que dá sentido aos outros ‘SIMS’ e por sua vez sem os outros precedentes, o SIM de Maria não seria possível.

Servir a Palavra de Deus remonta ao começo da criação. No momento da criação, quando Deus estabeleceu as pessoas sobre a Terra, Ele havia seu partner, com quem ele dialogava; havia confiança entre os dois lados e a criatura reconhecia o seu Criador e o Criador se comunicava com a criatura.

Um dia, segunda as Escrituras, Deus disse ao seu partner: ‘… da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás…’ (Gn 2,17); a decisão das pessoas foi não obedecer este mandamento, não pautar a vida segundo a Palavra de Deus. Não ser mais servos do Senhor, agir segundo a própria sabedoria humana. A Palavra de Deus não obriga mais.

Quando Deus quis continuar sua relação normal com as pessoas não houve mais comunicação; o elo foi rompido, não havia mais fidelidade, sua Palavra não foi mais ouvida, observada. Deus procura ainda as pessoas (representada por Adão) e as pessoas se escondem da presença do Senhor Deus:

‘Eles ouviram o passo do Senhor Deus que passava no jardim à brisa do dia e o homem e sua mulher se esconderam da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. O Senhor Deus chamou o homem: (איכה) Onde estas? Disse ele: Ouvi teu passo no jardim, respondeu o homem, tive medo porque estou nu, e me escondi’ (Gn 3, 8).

A Bíblia nos relata que o homem não respondeu à pergunta, sua resposta é já a explicação da razão de ter se escondido, mas não a pronta resposta à pergunta: ‘onde estas?’ Este não cumprimento à Palavra de Deus e a não resposta ao seu apelo, criou uma ruptura entre a criatura e o Criador. Por uma atitude humana, Deus perdeu o seu partner que era o representante entre suas criaturas. A criatura seguiu o seu própria caminho, ou melhor dizendo se perdeu no caminho.

A misericórdia de Deus busca sempre estabelecer este elo rompido, mas não há resposta ao seu apelo. Esta pergunta: ‘onde estas?’permanece na historia da humanidade; este eco de voz ressoa por toda a terra na espera de uma resposta, aguardando que a criatura se reconheça diante de seu Criador.

Através da natureza, que é obra do Criador, todo o mundo ouve a Palavra de Deus (todos os povos e nações). A resposta de nossa parte é sempre livre e pode ser positiva ou negativa, mais não se pode dizer que não ouvimos o chamado de Deus. Deus chama e toca cada pessoa pelo seu próprio ato de criar.

A Bíblia nos conta que no inicio as pessoas ouviram a voz de Deus e correram se esconder, a encontrar falsas explicações. A expressão הנני (eis-me aqui) supõe estar transparente diante de Deus, disponível, sem reserva, é uma entrega total. Neste caso a Palavra de Deus passa a agir sobre o sujeito.

Em meio a realidade politeísta, onde reinavam vários deuses na consciência da humanidade, Abraão surge representando a inversão desta mentalidade. Sua atitude, segundo as Escrituras, marca o inicio do restabelecimento do elo rompido. Na verdade ele vai responder à pergunta feita por Deus a Adão no inicio, (איכה) ‘onde estas?’ e contrariamente a Adão, que rompe com a Palavra, Abraão age segundo a Palavra de Deus: Deus disse: vai e ele vai; parte e ele parte.

A partir de Abraão Deus recupera seu partner entre as criaturas. Se por um lado a não resposta de Adão ao apelo de Deus, causou o distanciamento entre a criatura e seu Criador, o ‘sim’ de Abraão restabelece, no mundo, o lugar de Deus. Como conseqüência a historia bíblica se situa no tempo e no espaço, tendo como lugar do encontro entre o Criador e o seu povo a partir de uma terra (Terra de Israel), de uma cidade (Jerusalém) e de um lugar especial (o Templo), como se representassem o Paraíso inicial. O primeiro pedido que Deus dirige a Abraão será vai (volta) para a Terra da promessa (lugar do Paraíso) e Abraão, sendo o homem do ‘sim’ a Deus, abre as portas à humanidade para o retorno ao Paraíso inicial:

- ‘O Senhor disse a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei… Abraão partiu como lhe disse o Senhor…’ (Gn 12, 1-14). Ele age segundo a Palavra do Senhor, como servo da Palavra.
- ‘Depois destes acontecimentos, sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui!’(Gn 22, 1). Ele responde ao apelo de Deus. Está a disposição, não se esconde.

- ‘Tomou o livro da Aliança e o leu para o povo; e eles disseram: Tudo o que o Senhor falou, nós o faremos e obedeceremos’ (Ex 24,7). Neste caso temos a seqüência de Abraão, o povo que é fruto da promessa feita, se define como povo através de seu relacionamento com Deus e à sua Palavra; é o povo do ‘sim’ a Deus em oposição às nações que não respondem a Deus.
-‘... O Senhor chamou: Samuel! Samuel!, e Samuel respondeu: Fala, que teu servo ouve’ (ISm 3, 10). Samuel está atento ao chamado e prontamente se põe a disposição de Deus.

A partir de Abraão, portanto, o sujeito é conduzido pela Palavra. A Palavra passa a ser ação, ela faz o impossível. É Deus que age, porém Ele se serve das pessoas; Ele propõe e espera a resposta.

Todos os homens e mulheres que a Bíblia nos conta continuaram a resposta dada por Abraão. O plano de Deus, depois da relação rompida, visa a redenção da humanidade inteira; o restabelecimento da primeira relação rompida: Criador e criatura. Pelo sim de Abraão e o povo que dele surge, Deus estabelece a fundação desta relação em vista de toda a humanidade.

Maria é o ápice da cadeia dos ‘sims’ iniciado por Abraão: ‘Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra...’ (Lc 1, 35-38).

Em outras palavras, Maria afirma: eu sou disponível, que seja segundo a Tua Palavra; Eu sou a serva da Palavra: Eu sou fiel a Tua Palavra como foram todos os que me antecederam. Por esta disponibilidade de Maria Deus se faz conosco (Imanu-El). Toda a humanidade é partícipe desta relação estabelecida. Deus se faz ao alcance de todas.

Maria, portanto, plenifica a resposta à Deus, ela se põe a disposição da Palavra para que Deus conclua o restabelecimento da relação primeira. E para que a incarnação seja possível entre nós, Maria é a palavra final: do ponto de vista humano, ela tornou a humanidade de Deus possível.

A percepção desta maravilha de Deus para a humanidade, a consciência que somos criaturas e que nós temos um único Criador, depende de nosso הנני sim, como o de Maria a cada dia. Nosso não é possível, pois somos livres criaturas de Deus, mas assim agindo estamos impedindo Deus agir no mundo. Como se dissermos que a salvação do mundo passa por Maria e por nós também.

Do ponto de vista da filiação de Deus, nós somos como Maria e Maria é como nós, filhos e filhas de Deus e vocacionados por Ele. O consciência da presença de Deus na historia, na Congregação, dependem de nossa resposta ‘sim’ ou ‘não’. Deus quer se servir de nossa resposta, de nossa liberdade e de nossa disponibilidade. A relação entre o passado e o futuro é responsabilidade nossa que estamos no presente. A historia da criação é dinâmica, Deus nos associa neste movimento. A criação não cessa de acontecer, mas somos nós, pelo nosso ‘sim’ a Deus que a conduzimos para o futuro ou pela nossa não resposta a Deus a impedimos de se realizar.

A Bíblia nos dá inúmeros exemplos de fé à Palavra de Deus. Deus faz o impossível com a participação humana: Abraão: partir sem saber onde e dele formar um povo; Sara: ter um filho em idade avançada; Moisés: tirar um povo para o deserto, lugar do nada; Jonas: anunciar a conversão de uma cidade, por que se servir de um homem?; Ruth: seguir o Deus de Israel contra todas as evidencias e dela sair Davi de onde sairá o Messias; Ester: salvar um povo do extermínio; Ana: ter uma criança quando as chances não mais existem; Maria: ser a mãe do Salvador; ‘nada é impossível a Deus’, Sua Palavra é criadora. Através do sim de Maria, a Palavra (logos, davar) se materializa. Como diz o evangelho de João: “E a Palavra se fez carne e estabeleceu sua tenda (Suka) entre nós”. (5)

A Escritura nos ensina que Deus age, muitas vezes, contrario às evidencias, diferentemente da lógica do mundo (6); o mais fácil e mais cômodo seria dizer não, continuar como está e que Deus encontre outra pessoa para o seu serviço, é a opção que existiu para Maria, como também para Abraão e outras pessoas de Deus, conhecidas da história bíblica. De Abraão a Maria e até nossos dias, Deus chama as pessoas ao seu serviço, como veículos de sua Palavra no mundo para que Ele seja nele reconhecido como o Deus Um e Único e assim seja louvado. O ‘SIM’ de Maria é o grande exemplo da intervenção de Deus no mundo através das pessoas e ao mesmo tempo é a prova da grandeza humana se fazendo serva de Deus.

Notas:

1. Este texto é uma reflexão apresentada no encontro das irmãs de Nossa Senhora de Sion em Ein Karem (3 a 12 de maio, 2014).

2. Gostaria de salientar que o Papa Bento XVI publicou um livro em três volumes sobre Jesus de Nazaré onde ele trabalha os aspectos fundamentais da fé cristã sobre o Jesus homem, encarnado (portanto Jesus-Deus) dentro da historia da salvação e Maria não faz parte de sua reflexão. Não porque ela não tenha importância, mas ela permanece em sua grandeza de mulher escolhida por Deus, serva de Sua Palavra, sem ser confundida com uma deusa.

3. Eu conservo a expressão ‘jovem’ para significar que naquele tempo uma jovem judia religiosa, antes do casamento, era naturalmente virgem, ao contrario, uma virgem não era necessariamente uma jovem e todas as fontes nos autorizam a afirmar que Maria era jovem.

4. Na história do cristianismo se desenvolveu uma gama enorme de definições sobre Maria; cada época e lugar refletem suas particularidades. É preciso nunca perder de vista que a ação de Deus através de Maria foi a partir de uma realidade humana, de uma mulher concreta. Deus não se serviu de Maria fora da realidade humana. A Igreja sabiamente, na formulação e ensinamento da ‘mariologia’, sempre protegeu este aspecto de serva do Senhor, mulher agraciada por Deus, precavendo-se assim contra o risco de uma ‘marioladria’ que seria uma falsa atribuição à Maria. Mas isso seria um tema para desenvolver em um outro momento. Menciona aqui o texto no final desta apresentação, de João Paulo II sobre a ‘Dormição de Maria’, onde o Papa retoma os ensinamentos da Igreja para falar da humanidade de Maria e de sua morte.

5. Jo 1, 14. Esta mesma afirmação é repetida em Ap 21, 3: “Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: Eis a tenda (Suka) de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus.”

6. ‘Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo do Senhor’ (Is 55, 8).

Anexos:

Como acréscimo a esta exposição apresento três textos que seguem abaixo. Eles não querem ser a conclusão da reflexão apresentada, mas como anexos para ajudar na exposição feita. Eles estão dispostos segundo a ordem histórica.

O primeiro texto é um poema (louvor) feito pelo monge Bernard de Clairvaux1. É uma composição teológica muita rica que reflete uma época da Igreja (séculos XI e XII), onde o autor volta às raízes da tradição bíblica para compreender o lugar de Maria, por outro lado ele desenvolve um diálogo de suspense, entre a fala do Anjo e a resposta de Maria. Segundo Lucas, Maria se dirige ao Anjo pedindo esclarecimento para poder responder: «Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?» (Lc 1, 34). Bernard de Clairvaux estabelece um diálogo com Maria pondo em valor sua resposta e insistindo para que ela responda rápido. Depois da explicação do Anjo, Bernard sugere que Maria tomou um tempo para refletir, não é um tempo quantificado, evidentemente, mas é o tempo de Maria onde, por assim dizer, todos os projetos de Deus foram suspensos: todos esperam sua resposta e somente ela poderia responder, desde Adão, todos os personagens da história bíblica, nós hoje, os Céus, o próprio Deus aguardam impacientemente sua reação e que seja pelo ‘Sim’.

Anexo I
“8.1 [...] Tu ouviste, Oh Virgem, tu conceberás e portarás um filho - não de um homem - tu ouviste - mas do Espírito Santo (Lc 1, 31-35). O Anjo aguarda por tua resposta: é tempo dele retornar para quem o enviou.

8.2 Nós também, nós esperamos, oh Senhora, acablados na miséria por uma sentença de condenação, nós esperamos uma palavra de compaixão. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação. Se tu concordas, nós seremos libertos prontamente. Todos nós fomos criados na Palavra eterna de Deus e nós morreremos. Em tua breve resposta nós seremos recriados para sermos chamados à vida.

8.3 Tua resposta, oh doce Virgem, Adão a implora em meio a lágrimas, exilado do paraíso como ele é com sua pobre descendência. Tua resposta, Abraão a implora, David a implora, todos eles a reclamam instantemente, os Santos Padres, eles são teus ancestrais e eles habitam, eles também, no país da sombra da morte. Tua resposta, o mundo inteiro a espera, prosternado aos teus joelhos. E não é sem razão, dado que tua palavra depende a consolação dos infelizes, o resgate dos cativos, a liberação dos condenados, em uma palavra, de todos os filhos de Adão, que são todos tua raça.

8.4 Oh virgem, dê tua resposta, rápido! Oh Senhora, responde esta palavra que a terra, os infernos e mesmo os céus esperam. Veja: o Rei e Senhor do universo ele também, que tanto desejou tua beleza (Sl 44, 12), deseja com não menor ardor o sim de tua resposta; ao teu consentimento ele quis suspender a salvação do mundo. E se tu O agradaste com o teu silencio, tu O agradarás muito mais agora com uma palavra. Ele mesmo dos céus te interpela: Oh a mais bela entre as mulheres, faça-me ouvir tua voz (Ct 1, 8; 2, 14).

8.5 […] Vamos, responda rápido ao Anjo, ou melhor, ao Senhor pelo intermediário do Anjo. Responda uma palavra e acolha a Palavra. Pronuncie tua palavra e conceba a Palavra de Deus. Emita uma palavra passageira, abrace a Palavra eterna.

8.6 Por que demorar? Por que temer? Creia, fale e acolha. Que tua humildade se revista de audácia e tua hesitação seja coberta de certeza. Evidentemente, não convém que neste momento a simplicidade de teu coração virginal esqueça a prudência; mas nesta circunstancia única, Virgem prudente, não tema a presunção. Se tua reserva no silencio foi agradável a Deus, mais necessário é agora o compromisso de tua palavra. Ben-aventurada Virgem, abra o teu coração à fé, abra teus lábios ao consentimento, abra teu seio ao Criador.

8.7 Eis que o Desejado de todas as nações se coloca fora e bate em tua porta. Oh! se enquanto tu demoras, ele fosse para outra, obrigando-te a buscar novamente entre lágrimas Aquele que teu coração ama! Levanta-te, corra, abra: levanta-te pela fé, corra para o favor, abra pela expressão de tua resposta (Ap 3, 20; Ct 3, 1- 4; 5, 2-6).

9.1 Eis, disse ela, a serva do Senhor: que seja feito de mim segunda a Tua Palavra. (Lc 1, 38).»

O segundo texto é uma audiência do Papa João Paulo II sobre a ‘Dormição de Maria’. É um ensinamento muito rico que as vezes passa despercebido de grande parte do mundo católico. O Papa ensina que o dogma da Assunção não afirma a imortalidade de Maria e retoma a tradição da Igreja sobre o aspecto humano de Maria, sua grandeza como mulher, necessário para compreender sua participação na morte e ressurreição de seu Filho.
João Paulo II: Audiência, Quarta-feira 25 de Junho de 1997 (2)

Anexo II

A dormição da Mãe de Deus

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

1. A propósito da conclusão da vida terrena de Maria, o Concílio retoma os termos da Bula de definição do dogma da Assunção e afirma: «A Virgem Imaculada, que fora preservada de toda a mancha de culpa original, terminando o curso da sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma» (LG, 59). Com esta fórmula, a Constituição dogmática «Lumen gentium», seguindo o meu venerado Predecessor Pio XII, não se pronuncia sobre a questão da morte de Maria. Todavia, Pio XII não quis negar o fato da morte, mas apenas não julgou oportuno afirmar solenemente a morte da Mãe de Deus, como verdade que devia ser admitida por todos os crentes.

Na verdade, alguns teólogos afirmaram a isenção da morte da Virgem e a sua passagem direta da vida terrena à glória celestial. Todavia, esta opinião é desconhecida até ao século XVII, enquanto na realidade existe uma comum tradição que considera a morte de Maria a sua introdução na glória celeste.
2. É possível que Maria de Nazaré tenha experimentado na sua carne o drama da morte? Refletindo sobre o destino de Maria e sobre a sua relação com o Filho divino, parece legítimo responder afirmativamente: dado que Cristo morreu, seria difícil afirmar o contrário no que concerne à Mãe.

Neste sentido raciocinaram os Padres da Igreja, que não tiveram dúvidas a este propósito. Basta citar São Tiago de Sarug (+ 521), segundo o qual quando para Maria chegou «o tempo de caminhar pela via de todas as gerações», ou seja, a via da morte, «o coro dos doze Apóstolos» reuniu-se para enterrar «o corpo virginal da Bem-aventurada» (Discurso sobre a sepultura da Santa Mãe de Deus, 87-99 em C. Vona, Lateranum 19 [1953], 188). São Modesto de Jerusalém (+ 634), depois de ter falado amplamente da «beatíssima dormição da gloriosíssima Mãe de Deus», conclui o seu «elogio» exaltando a intervenção prodigiosa de Cristo que «a ressuscitou do sepulcro» para a receber consigo na glória (Enc. in dormitionem Deiparae semperque Virginis Mariae, nos. 7 e 14; PG 86 bis, 3293; 3311). São João Damasceno (+ 704), por sua vez, pergunta: «Como é possível que aquela que no parto ultrapassou todos os limites da natureza, agora se submeta às leis desta e o seu corpo imaculado se sujeite à morte? ». E responde: «Certamente era necessário que a parte mortal fosse deposta para se revestir de imortalidade, porque nem o Senhor da natureza rejeitou a experiência da morte. Com efeito, Ele morre segundo a carne e com a morte destrói a morte, à corrupção concede a incorruptibilidade e o morrer faz d'Ele nascente de ressurreição» (Panégyrique de la Dormition de la Mère de Dieu, n 10: SC 80, 107).

3. É verdade que no livro do Apocalipse a morte se apresenta como castigo do pecado. Todavia, o fato de a Igreja proclamar Maria liberta do pecado original por singular privilégio divino não induz a concluir que Ela recebeu também a imortalidade corporal. A Mãe não é superior ao Filho, que assumiu a morte, dando-lhe novo significado e transformando-a em instrumento de salvação.

Empenhada na obra redentora e associada à oferta salvífica de Cristo, Maria pôde compartilhar o sofrimento e a morte em vista da redenção da humanidade. Também para Ela vale quanto Severo de Antioquia afirma a propósito de Cristo: «Sem uma morte preliminar, como poderia ter lugar a ressurreição?» (Antijulianistica, Beirute 1931, 194 s.). Para ser partícipe da ressurreição de Cristo, Maria devia compartilhar antes de mais a Sua morte.

4. O Novo Testamento não oferece qualquer notícia sobre as circunstâncias da morte de Maria. Este silêncio induz a supor que esta se tenha verificado normalmente, sem qualquer pormenor digno de menção. Se assim não tivesse sido, como poderia a notícia permanecer escondida aos contemporâneos e, de alguma forma, não chegar até nós?

Quanto aos motivos da morte de Maria, não parecem fundadas as opiniões que lhe quereriam excluir causas naturais. Mais importante é a busca da atitude espiritual da Virgem no momento da sua despedida deste mundo. A este propósito, São Francisco de Sales considera que a morte de Maria se tenha verificado como efeito de um transporte de amor. Ele fala de um morrer «no amor, por causa do amor e por amor», chegando por isso a afirmar que a Mãe de Deus morreu de amor pelo seu filho Jesus (Traité de l'Amour de Dieu, Lib. 7, c. XIII-XIV).

Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, sob o aspecto físico, causou a cessação da vida do corpo, pode-se dizer que a passagem desta vida à outra constituiu para Maria uma maturação da graça na glória, de tal forma que jamais como nesse caso a morte pôde ser concebida como uma «dormição».

5. Em alguns Padres da Igreja encontramos a descrição de Jesus mesmo que vem acolher a sua Mãe no momento da morte, para a introduzir na glória celeste. Assim, estes apresentam a morte de Maria como um evento de amor que a levou a alcançar o seu Filho divino para participar da Sua vida imortal. No final da sua existência terrena, ela terá experimentado, como Paulo e mais do que ele, o desejo de se libertar do corpo para estar com Cristo para sempre (cf. Fl 1, 23).
A experiência da morte enriqueceu a pessoa da Virgem: passando pela comum sorte da humanidade, ela pode exercer com mais eficácia a sua maternidade espiritual em relação àqueles que chegam à hora suprema da vida.

O terceiro texto é de um livro em 3 volumes, originalmente em alemão, que está traduzido em Italiano (3). O autor desenvolve a idéia de Maria dentro da realidade de Israel e que por sua disponibilidade à Palavra de Deus ela faz a integração harmônica entre o povo de Israel e a Igreja que surge deste povo. A conclusão do autor é que Maria não pode ser compreendida senão a partir de Israel:

Anexo III
«A Igreja é devedora a Israel do verdadeiro conhecimento de Deus. É devedora a Israel do conhecimento que Deus quer no mundo um povo como instrumento para cada libertação. Mas é devedora também a Israel da tomada de consciência de que este povo tem necessidade da ajuda do Messias, pois o ser humano é fraco.
E no povo de Deus que é Israel foi estabelecido o combate contra o pecado no mundo, desde o inicio, da prova de fé de Abraão, o ‘sacrifício de Isaac’, até o ‘sim’ de Maria e a paixão voluntária de Jesus.
Desta forma Israel é verdadeiramente a mãe da Igreja e Mãe de todos os cristãos… Maria é o verdadeiro símbolo da unidade entre a Sinagoga e a Igreja como a única esposa de Deus».

Notas:
1. Bernard de Clairvaux, Le oui de Dame Marie (Miss 4, 8), Sources Chrétiennes, n. 390: À la louange de la Vierge Mère (Cerf, 1993). Saint Bernard de Fontaine, monge de Clairvaux (1090 ou 1091, château de Fontaine-lès-Dijon morto aos 20 de agosto de 1153), reformador da vida religiosa.
2. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1997/documents/hf_jp-ii_aud_25061997_po.html (14.05.2014).
3. Gerhard Lohfink / Ludwig Weimer, Maria non senza Israele, una nuova visione del dogma sull’Immacolata Concezione, (3 vols), Ecumenica Editrice - BARI, 2010. Volume III: Maria, l’immagine dell’Israele redento, 545.

Primeiramente Maria é uma mulher, vem de uma família, de um povo, mora em um lugar e se situa em um tempo na história. Mesmo se o texto do Evangelho quer anunciar um verdade teológica, uma experiência de fé, ele situa Maria em uma realidade concreta:

«No sexto mês, o Anjo foi enviado por Deus a um povoado da Galileia de nome Nazaré, a uma ‘jovem’(3) comprometida em casamento a um homem de nome José, da família de David; esta Jovem moça se chamava Maria» (Lc 1,26).
Neste texto encontramos muitas as informações sobre a mulher Maria: sua família, seu lugar geográfico, seu engajamento familiar...

Segundo os costumes da época, podemos entender que Maria tivesse por volta de 13 a 14 anos (jovem moça). Normalmente depois do Bat Mitzva (maturidade celebrada aos 12 anos), a jovem se preparava para o casamento, dado que ela já estava apta para isso. Neste contexto de Maria, logo depois de celebrar sua maturidade, os próximos anos serão em vista de se organizar para a vida matrimonial.

Fazendo parte de uma realidade judaica e uma realidade religiosa judaica, Maria foi formada na espera religiosa de seu povo: ser preparada para a vinda do Messias (Ungido, Cristo), que deveria libertar o seu povo do jugo do poder estrangeiro que o dominava, afim de poder servir a Deus livremente e não mais ser escravo de reis deste mundo. לעבוד את ה’ ולא אלים אחרים
Como outras jovens, Maria rezava para que isso acontecesse e se preparava para esta vinda. Certamente ele fazia perguntas a si mesma como isso aconteceria? No entanto ela guardava a certeza de que seria Deus, na sua misericórdia e poder, que realizaria, no momento querido por Ele e segundo a sua vontade.

Maria vivia dentro do universo religioso de seu povo, com seus valores, apreensões e esperanças. Deus devia então escolher uma ‘jovem moça’ concreta, humana. Segundo o relato Evangélico, Maria conhecia o tema anunciado a ela através do Anjo. Sua reação ao Anjo será: ‘como é que vai ser isso?’ e não: ‘eu não sei sobre o que está falando’. Lucas nos faz entender que Maria sabia que o Messias deveria vir e seria através das mãos de Deus.

Há uma grande conclusão a ter presente neste diálogo entre Maria e o Anjo enviado por Deus: a consciência de Maria da realidade vigente, da historia de seu povo, de suas esperanças religiosas… Nós aprendemos que Maria buscava entender e discernir os sinais dos tempos. A espera Messiânica de seu povo era também sua espera e isto deveria acontecer concretamente na historia.

Na verdade a Bíblia nos ensina que desde o inicio Deus quis associar as pessoas na Sua ação; Ele age através das pessoas; Ele as vocaciona e espera suas respostas. Maria é o exemplo desta relação entre o projeto de Deus para a humanidade e a resposta ao seu apelo. Sua resposta é livre, é consciente, é querida por ela (4).

Os textos dos Evangelhos falam da missão de Maria, de sua ação: ela é escolhida por Deus para ser o espaço da encarnação. Através de sua resposta Maria se põe a serviço de Deus, obediente à sua Palavra e se deixar agir por ela.

Poderíamos dizer que a redenção do mundo, na sua plenitude, Deus quis que fosse pela sua incarnação e para se encarnar foi necessário a participação da pessoa humana. Maria é esta pessoa. A ação de Deus, é, de certo modo, dependente desta colaboração humana, da participação humana. Os textos são fiéis ao evidenciarem que Maria é humana e permanece humana, permanece mulher e mulher cheia de Deus.

É esta realidade humana de Maria, respondendo ao apelo de Deus, que transforma a historia da humanidade, dado que ela, em sua capacidade de escolher entre o sim e o não, respondeu à Palavra de Deus, tornando-se a mulher serva de Deus por excelência, partícipe da ação de Deus para a humanidade. Como as pessoas de seu povo de seu tempo, Maria acreditava que o Messias deveria vir segundo a Palavra de Deus. Sua resposta portanto, é mais que um ‘Sim’, é a tomada de responsabilidade em ação. Na perplexidade de sua pergunta está já seu movimento de ação: ‘Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum? (Lc 1, 34). Nesta pergunta ela não está indicando uma indisposição para aceitar, mas pedindo explicação para agir. Ela não está dizendo que não está de acordo, apenas querendo saber o que e como fazer para que isso se realize.

A resposta dada pelo Anjo não é uma simples frase, para ser lida como uma seqüência de palavras, devemos ouvir o que está por trás do texto. As afirmações são buscadas na longa historia bíblica. Cada palavra é carregada do sentido da ação de Deus na historia:

‘O Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra… Para Deus, com efeito, nada é impossível . Disse então Maria: Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra. E o Anjo a deixou’ (Lc 1, 35-38).

Vejamos algumas correspondências destas expressões presentes já em momentos diferentes da historia bíblica: ‘O Espirito Santo virá sobre ti’: ‘E o Espírito de Deus pairava sobre a superfície das águas’(Gn 1,2). ‘Envias o teu Espírito e eles serão criados, e assim renovas a face da terra’ (Sl 104, 30). ‘Sobre ele repousa o Espírito do Senhor…’ (Is 11, 2); ‘e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra’: ‘A nuvem cobriu a tenda da Reunião, e a glória do Senhor encheu a Habitação. Moisés não pôde entrar na Tenda da Reunião porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia a Habitação’ (Ex 40, 35); ‘Os filhos de Israel permaneciam acampados durante todo o tempo em que a Nuvem repousava sobre a Habitação’ (Nm 9, 18), ‘Ora a Nuvem permanecia dois dias, um mês ou um ano; enquanto a Nuvem permanecia sobre a Habitação, os filhos de Israel ficavam acampados; mas quando ela se levantava, então partiam’ (v.22); ‘Durante o dia a Nuvem do Senhor pairava acima deles…’ (Nm 10, 34). Lucas no relato da transfiguração vai usar a mesma expressão para falar da presença de Deus: ‘Ainda falava, quando uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra; e ao entrarem eles na nuvem, os discípulos se atemorizaram’ (Lc 9, 34). ‘Para Deus, com efeito, nada é impossível’: ‘Acaso existe algo que seja tão extraordinário para o Senhor? Na mesma ocasião, no próximo ano, voltarei a ti, e Sara terá um filho’ (Gn 18, 14).

Estas citações que parecem intercaladas na resposta dada pelo Anjo a Maria, ou melhor dizendo, as palavras que Maria refletiu antes de dar sua resposta, é como se Maria tivesse feito uma revisão (ouvido) toda a historia de Deus, depois da criação. Todo o percurso que seu povo fez juntamente com Deus onde Deus diz e sua Palavra age. Em sintonia com a Revelação da Palavra e amparada na tradição da fé de seu povo, Maria responde positivamente:

‘Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra. E o Anjo a deixou’ (Lc 1, 38).
Com efeito esta resposta faz eco com outras tantas respostas na historia contada na Bíblia. É uma resposta que dá sentido aos outros ‘SIMS’ e por sua vez sem os outros precedentes, o SIM de Maria não seria possível.

Servir a Palavra de Deus remonta ao começo da criação. No momento da criação, quando Deus estabeleceu as pessoas sobre a Terra, Ele havia seu partner, com quem ele dialogava; havia confiança entre os dois lados e a criatura reconhecia o seu Criador e o Criador se comunicava com a criatura.

Um dia, segunda as Escrituras, Deus disse ao seu partner: ‘… da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás…’ (Gn 2,17); a decisão das pessoas foi não obedecer este mandamento, não pautar a vida segundo a Palavra de Deus. Não ser mais servos do Senhor, agir segundo a própria sabedoria humana. A Palavra de Deus não obriga mais.

Quando Deus quis continuar sua relação normal com as pessoas não houve mais comunicação; o elo foi rompido, não havia mais fidelidade, sua Palavra não foi mais ouvida, observada. Deus procura ainda as pessoas (representada por Adão) e as pessoas se escondem da presença do Senhor Deus:

‘Eles ouviram o passo do Senhor Deus que passava no jardim à brisa do dia e o homem e sua mulher se esconderam da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. O Senhor Deus chamou o homem: (איכה) Onde estas? Disse ele: Ouvi teu passo no jardim, respondeu o homem, tive medo porque estou nu, e me escondi’ (Gn 3, 8).

A Bíblia nos relata que o homem não respondeu à pergunta, sua resposta é já a explicação da razão de ter se escondido, mas não a pronta resposta à pergunta: ‘onde estas?’ Este não cumprimento à Palavra de Deus e a não resposta ao seu apelo, criou uma ruptura entre a criatura e o Criador. Por uma atitude humana, Deus perdeu o seu partner que era o representante entre suas criaturas. A criatura seguiu o seu própria caminho, ou melhor dizendo se perdeu no caminho.

A misericórdia de Deus busca sempre estabelecer este elo rompido, mas não há resposta ao seu apelo. Esta pergunta: ‘onde estas?’ permanece na historia da humanidade; este eco de voz ressoa por toda a terra na espera de uma resposta, aguardando que a criatura se reconheça diante de seu Criador.

Através da natureza, que é obra do Criador, todo o mundo ouve a Palavra de Deus (todos os povos e nações). A resposta de nossa parte é sempre livre e pode ser positiva ou negativa, mais não se pode dizer que não ouvimos o chamado de Deus. Deus chama e toca cada pessoa pelo seu próprio ato de criar.

A Bíblia nos conta que no inicio as pessoas ouviram a voz de Deus e correram se esconder, a encontrar falsas explicações. A expressão הנני (eis-me aqui) supõe estar transparente diante de Deus, disponível, sem reserva, é uma entrega total. Neste caso a Palavra de Deus passa a agir sobre o sujeito.

Em meio a realidade politeísta, onde reinavam vários deuses na consciência da humanidade, Abraão surge representando a inversão desta mentalidade. Sua atitude, segundo as Escrituras, marca o inicio do restabelecimento do elo rompido. Na verdade ele vai responder à pergunta feita por Deus a Adão no inicio, (איכה) ‘onde estas?’ e contrariamente a Adão, que rompe com a Palavra, Abraão age segundo a Palavra de Deus: Deus disse: vai e ele vai; parte e ele parte.

A partir de Abraão Deus recupera seu partner entre as criaturas. Se por um lado a não resposta de Adão ao apelo de Deus, causou o distanciamento entre a criatura e seu Criador, o ‘sim’ de Abraão restabelece, no mundo, o lugar de Deus. Como conseqüência a historia bíblica se situa no tempo e no espaço, tendo como lugar do encontro entre o Criador e o seu povo a partir de uma terra (Terra de Israel), de uma cidade (Jerusalém) e de um lugar especial (o Templo), como se representassem o Paraíso inicial. O primeiro pedido que Deus dirige a Abraão será vai (volta) para a Terra da promessa (lugar do Paraíso) e Abraão, sendo o homem do ‘sim’ a Deus, abre as portas à humanidade para o retorno ao Paraíso inicial:

- ‘O Senhor disse a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei… Abraão partiu como lhe disse o Senhor…’ (Gn 12, 1-14). Ele age segundo a Palavra do Senhor, como servo da Palavra.
- ‘Depois destes acontecimentos, sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui!’ (Gn 22, 1). Ele responde ao apelo de Deus. Está a disposição, não se esconde.

- ‘Tomou o livro da Aliança e o leu para o povo; e eles disseram: Tudo o que o Senhor falou, nós o faremos e obedeceremos’ (Ex 24,7). Neste caso temos a seqüência de Abraão, o povo que é fruto da promessa feita, se define como povo através de seu relacionamento com Deus e à sua Palavra; é o povo do ‘sim’ a Deus em oposição às nações que não respondem a Deus.
-‘... O Senhor chamou: Samuel! Samuel!, e Samuel respondeu: Fala, que teu servo ouve’ (ISm 3, 10). Samuel está atento ao chamado e prontamente se põe a disposição de Deus.

A partir de Abraão, portanto, o sujeito é conduzido pela Palavra. A Palavra passa a ser ação, ela faz o impossível. É Deus que age, porém Ele se serve das pessoas; Ele propõe e espera a resposta.

Todos os homens e mulheres que a Bíblia nos conta continuaram a resposta dada por Abraão. O plano de Deus, depois da relação rompida, visa a redenção da humanidade inteira; o restabelecimento da primeira relação rompida: Criador e criatura. Pelo sim de Abraão e o povo que dele surge, Deus estabelece a fundação desta relação em vista de toda a humanidade.

Maria é o ápice da cadeia dos ‘sims’ iniciado por Abraão: ‘Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a tua Palavra...’ (Lc 1, 35-38).

Em outras palavras, Maria afirma: eu sou disponível, que seja segundo a Tua Palavra; Eu sou a serva da Palavra: Eu sou fiel a Tua Palavra como foram todos os que me antecederam. Por esta disponibilidade de Maria Deus se faz conosco (Imanu-El). Toda a humanidade é partícipe desta relação estabelecida. Deus se faz ao alcance de todas.

Maria, portanto, plenifica a resposta à Deus, ela se põe a disposição da Palavra para que Deus conclua o restabelecimento da relação primeira. E para que a incarnação seja possível entre nós, Maria é a palavra final: do ponto de vista humano, ela tornou a humanidade de Deus possível.

A percepção desta maravilha de Deus para a humanidade, a consciência que somos criaturas e que nós temos um único Criador, depende de nosso הנני sim, como o de Maria a cada dia. Nosso não é possível, pois somos livres criaturas de Deus, mas assim agindo estamos impedindo Deus agir no mundo. Como se dissermos que a salvação do mundo passa por Maria e por nós também.

Do ponto de vista da filiação de Deus, nós somos como Maria e Maria é como nós, filhos e filhas de Deus e vocacionados por Ele. O consciência da presença de Deus na historia, na Congregação, dependem de nossa resposta ‘sim’ ou ‘não’. Deus quer se servir de nossa resposta, de nossa liberdade e de nossa disponibilidade. A relação entre o passado e o futuro é responsabilidade nossa que estamos no presente. A historia da criação é dinâmica, Deus nos associa neste movimento. A criação não cessa de acontecer, mas somos nós, pelo nosso ‘sim’ a Deus que a conduzimos para o futuro ou pela nossa não resposta a Deus a impedimos de se realizar.

A Bíblia nos dá inúmeros exemplos de fé à Palavra de Deus. Deus faz o impossível com a participação humana: Abraão: partir sem saber onde e dele formar um povo; Sara: ter um filho em idade avançada; Moisés: tirar um povo para o deserto, lugar do nada; Jonas: anunciar a conversão de uma cidade, por que se servir de um homem?; Ruth: seguir o Deus de Israel contra todas as evidencias e dela sair Davi de onde sairá o Messias; Ester: salvar um povo do extermínio; Ana: ter uma criança quando as chances não mais existem; Maria: ser a mãe do Salvador; ‘nada é impossível a Deus’, Sua Palavra é criadora. Através do sim de Maria, a Palavra (logos, davar) se materializa. Como diz o evangelho de João: “E a Palavra se fez carne e estabeleceu sua tenda (Suka) entre nós”. (5)

A Escritura nos ensina que Deus age, muitas vezes, contrario às evidencias, diferentemente da lógica do mundo (6); o mais fácil e mais cômodo seria dizer não, continuar como está e que Deus encontre outra pessoa para o seu serviço, é a opção que existiu para Maria, como também para Abraão e outras pessoas de Deus, conhecidas da história bíblica. De Abraão a Maria e até nossos dias, Deus chama as pessoas ao seu serviço, como veículos de sua Palavra no mundo para que Ele seja nele reconhecido como o Deus Um e Único e assim seja louvado. O ‘SIM’ de Maria é o grande exemplo da intervenção de Deus no mundo através das pessoas e ao mesmo tempo é a prova da grandeza humana se fazendo serva de Deus.

Notas:

1. Este texto é uma reflexão apresentada no encontro das irmãs de Nossa Senhora de Sion em Ein Karem (3 a 12 de maio, 2014).

2. Gostaria de salientar que o Papa Bento XVI publicou um livro em três volumes sobre Jesus de Nazaré onde ele trabalha os aspectos fundamentais da fé cristã sobre o Jesus homem, encarnado (portanto Jesus-Deus) dentro da historia da salvação e Maria não faz parte de sua reflexão. Não porque ela não tenha importância, mas ela permanece em sua grandeza de mulher escolhida por Deus, serva de Sua Palavra, sem ser confundida com uma deusa.

3. Eu conservo a expressão ‘jovem’ para significar que naquele tempo uma jovem judia religiosa, antes do casamento, era naturalmente virgem, ao contrario, uma virgem não era necessariamente uma jovem e todas as fontes nos autorizam a afirmar que Maria era jovem.

4. Na história do cristianismo se desenvolveu uma gama enorme de definições sobre Maria; cada época e lugar refletem suas particularidades. É preciso nunca perder de vista que a ação de Deus através de Maria foi a partir de uma realidade humana, de uma mulher concreta. Deus não se serviu de Maria fora da realidade humana. A Igreja sabiamente, na formulação e ensinamento da ‘mariologia’, sempre protegeu este aspecto de serva do Senhor, mulher agraciada por Deus, precavendo-se assim contra o risco de uma ‘marioladria’ que seria uma falsa atribuição à Maria. Mas isso seria um tema para desenvolver em um outro momento. Menciona aqui o texto no final desta apresentação, de João Paulo II sobre a ‘Dormição de Maria’, onde o Papa retoma os ensinamentos da Igreja para falar da humanidade de Maria e de sua morte.

5. Jo 1, 14. Esta mesma afirmação é repetida em Ap 21, 3: “Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: Eis a tenda (Suka) de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus.”

6. ‘Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo do Senhor’ (Is 55, 8).

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