A Vocação de Sion e sua Responsabilidade na Igreja

Elio Passeto


O ponto de partida dos religiosos de Nossa Senhora de Sion deve compreender nossa realidade enquanto comunidade religiosa que ocupa um lugar dentro da Igreja e nela deve encontrar sua definição.

Ademais, nosso ser Sion se articula a partir de sua particularidade, unicidade, originalidade e responsabilidade como Igreja e para a Igreja. Nosso elemento fundante é que somos uma parte da Igreja, um componente do seu todo, por isso nossa atividade e maneira de ser, são expressões do ser da Igreja.

​A vocação sioniense encontra apoio na afirmação da Igreja quando ela se auto define em relação “intrínseca” com o povo judeu. Se outras vocações na Igreja encontram suas definições em uma atividade prática, nós, de Sion, nos definimos a partir do que é razão de ser da Igreja, dar testemunho de uma porção importante de sua identidade.

Os ensinamentos do Concílio Vaticano II e sua continuação afirmam que a Igreja é judia em sua fundação: o contexto de seu nascimento é inteiramente judeu e os elementos que a constituem são judeus. O documento da Comissão Bíblica Pontifical, 2001, nº 2, claramente afirma: “Antes de tudo é através de sua origem histórica que a comunidade dos cristãos se encontra ligada ao povo judeu. Com efeito, Aquele em quem ela pôs sua fé, Jesus de Nazaré, é um filho deste povo. Uma manifestação sempre atual deste laço da origem consiste na aceitação, pelos cristãos, das Santas Escrituras do povo judeu como Palavra de Deus. ”

Assim, portanto, no período dos Apóstolos, mesmo afirmando a originalidade de sua fé em Jesus como o Messias, a comunidade cristã a fez de maneira judaica e buscando se afirmar distinguindo-se de outros grupos judeus, ela a fez como uma entidade Judaica. Certamente, dentro da diversidade normal no judaísmo, o grupo que seguia Jesus se auto-afirmou de maneira especial, acreditando em Jesus como Filho de Deus que se faz Deus. No entanto, ainda neste ponto, tal afirmação somente foi possível dentro do contexto do mundo judaico. Somente os judeus esperavam o Messias e a afirmação de fé no Messias é uma afirmação genuinamente judia.

Nós sabemos que vários fatores históricos foram a base do distanciamento que a Igreja tomou em relação a suas raízes (e hoje nós sabemos que houve uma colaboração recíproca muito grande entre ambos), porém esta realidade de distância com o judaísmo fez com que a Igreja fizesse o caminho de volta, retornasse às suas raízes. Hoje, pois, ela vive em tempos de re-descobertas de suas origens, como nos ensinam os documentos nestes últimos, quase 50 anos, depois do Vaticano II. E devemos ter presente que os ensinamentos do Concilio Vaticano II são normativos para todos os Católicos. Por ocasião de seu discurso aos representantes do American Jewish Commitee, aos 15 de fevereiro de 1985 afirmava o Papa João Paulo II: “ Quero afirmar, com absoluta convicção, que o ensinamento do Concílio Vaticano II na sua Declaração Nostra Aetate ..., permanece sempre para nós, para a Igreja Católica, para o Episcopado ... e para o Papa, um ensinamento que deve ser seguido. Um ensinamento que é necessário aceitar, não somente como algo conveniente, mas como uma experiência de fé, uma inspiração do Espírito Santo, uma Palavra da Sabedoria divina”. Alguns exemplos das máximas dos ensinamentos da Igreja decorrentes da declaração Nostra Aetate, nos confirmam suas implicações em nossa própria identidade e especificidade da missão enquanto Sion: Temos com o povo judeu um patrimônio em comum; A Sabedoria judaica desde sempre e até nossos dias é uma ajuda importante para a compreensão da fé cristã; Nós cristãos temos uma relação intrínseca com o povo judeu; Uma ruptura completa entre a Igreja e a Sinagoga está em contradição com as Sagradas Escrituras.

Como tais ensinamentos devem ser traduzidos na prática cristã? Não existe ainda uma elaboração adequada, contudo não podemos mais pensar teologicamente nossa fé sem supor esta verdade que é parte integral de nossa história de fé e que deve ser integrada no ensinamento. Ademais, Sion encontra nestes ensinamentos o fundamento de seu chamado renovado na Igreja. Por isso o fato de que estas proclamações da Igreja não foram ainda traduzidas em linguagem teológicas para a vida dos cristãos, nos interpelam, a nós de Sion, para trabalharmos na sua formulação.

Sabemos por experiência que estes ensinamentos da Igreja convidam-nos a uma atitude cristã diferente, não sermos melhores, mas que sejamos mais coerentes com o ser cristão. Não é apenas uma exigência de conhecimento - de já ter lido um livro ou documento, ter aprendido uma língua ..., mas é exigido uma maneira de ser e de viver como cristão, aplicando a afirmação de que não estamos em ruptura com a sinagoga, e sabendo que a Palavra que nutre a Igreja é a Palavra de Deus dada ao povo judeu e que como tal permanece válida para hoje.
Estes ensinamentos não ressoam em nada estrangeiros para nós de Sion e mesmo antes que eles fossem elaborados em documentos, nós já os tínhamos como parte de nossa identidade; uma parte estava latente, mas outra já era manifesta e isto desde nosso início. Melhor dizendo, para nós, Sion, esta maneira de refletir, é nosso elemento vital. Portanto, os ensinamentos da Igreja, em relação ao povo judeu, devem ser a base norteadora de nossa identidade, fora disso perdemos nossa razão de ser.

Na verdade, a história de nossa Congregação nos assegura seu chamado especial: dois irmãos judeus descobrem a fé cristã. Este fato único nos faz uma existência curiosa dentro da Igreja. Certamente isto tem sua explicação nos desígnios de Deus. Os dois fundadores já reconheceram a gratuidade do acontecimento e buscaram em Deus a resposta. O que é extraordinario não é o fato de que os dois irmãos entrassem para a Igreja, o espetacular é que os dois tivessem decidido fundar uma Comunidade na Igreja e a chamassem Nossa Senhora de Sion. Na verdade a Congregação está avançada um século da proclamação do Vaticano II, que não disse nada novo, pois a realidade judaica é parte integrante da Igreja desde seu inicio, como dissemos antes.

No tempo em que na Igreja não tinha nem a compreensão teológica, nem a linguagem apropriada para falar do povo judeu de maneira positiva, a existência, em seu seio, de uma comunidade chamada Nossa Senhora de Sion, fez uma grande diferença pela maneira como alguém pode ser cristão na Igreja, mesmo sem renunciar sua “judaicidade”.

É-nos hoje sabido que a geração que seguiu Theodoro e Afonso Maria projetou sua própria visão antisemita sobre os fundadores. Vendo seus escritos e estudando seus comportamentos, se rende conta de como a questão judaica permaneceu séria e importante para os dois irmãos, já no seu âmbito familiar; o povo judeu foi sempre o ponto de referência para eles, e de forma alguma eles desprezaram os que permaneceram judeus e curiosamente não portaram com eles nenhuma dificuldade no reconhecimento de suas identidades judaicas.

De fato a Comunidade de Sion, cada um de seus membros, se inscreve dentro de um espaço definido, limitado, como parte de um todo, com uma particularidade e singularidade na Igreja. É o que institucionalmente chamamos Congregação e como responsabilidade na Igreja, nomeamos vocação ou carisma. Portanto somos distintos: Sion é, ou nós somos, o fruto de um chamado específico de Deus - este fato deve nos interpelar cada segundo de nossa existência.
Esta distinção, em relação aos outros é muito importante, pois permite à Igreja formar seu corpo na sua própria diversidade onde cada membro tem necessariamente funções diferentes para que o todo funcione. E é através desta diversidade que a harmonia do todo atinge sua plenitude (cf I Cor 12). Este princípio se aplica a todos os cristãos, e a fortiori ele serve de base às diferentes vocações na Igreja.

Se os Dominicanos fazem o que é próprio aos Franciscanos e não o que é esperado de sua especial vocação na Igreja e vice-versa, alguma coisa vital estará faltando na Igreja. Isto é verdade para todos os níveis, necessariamente para nós em Sion. Assim a consciência clara da especificidade vocacional e de sua aplicabilidade é o dever maior de cada Congregação. Nós devemos ter sempre presente esta exigência: Sion é uma realidade única eclesial e é em relação com a Igreja que nós nos definimos.

Vendo a situação hoje, a partir dos ensinamentos em relação ao judaísmo lançados pelo Concílio Vaticano II, notamos que muitas coisas pertencem a toda a Igreja, alguns ensinamentos estão mais avançados, neste domínio, do que nós vivemos e partilhamos como Comunidade de Sion. O que confirma que interessar-se pelo judaísmo e estudá-lo é dever de todos na Igreja, não é exclusividade de ninguém.

O que fazer então? Mudar nossa vocação, iniciar uma nova comunidade? Não fazer nada? Seguir a força da natureza e esperar uma morte natural? É preciso afirmar mais do que nunca que nossa vocação é necessária na Igreja e esta necessidade deve ser assumida por cada um de nós.

A Igreja deu grandes passos, é verdade, mas como dito antes, ainda não formulou uma nova linguagem para expressar seus avanços no ensinamento sobre nossas raízes judaicas, este fato demanda uma experiência vivida, requer uma fé sensível. Supõe tempo para se mergulhar neste oceano que é a Tradição judeu-cristã. Os indivíduos podem fazer isto e muitos fizeram e estão fazendo, mas existe o risco de se perder na experiência e não ter seguidores, não ter continuidade. A Comunidade Religiosa é constituída para isso. Ela é o meio que porta e que sustenta a elaboração da experiência e desta nova linguagem exigida na Igreja. Nosso lugar está aí, nossa missão é viver este ensinamento por dentro.

É mister ressaltar que muitas outras comunidades, na Igreja, estão também orientando sua formação em relação ao judaísmo. Isto não deve nos fazer enciumados, mas nos confortar, porque justamente isto é um trabalho de Igreja e não como algo que é exclusivo nosso. Porém a nós é pedido uma exclusividade de vida neste assunto (a não ser que mudemos nosso nome para Nossa Senhora de Guadalupe, Aparecida, Medjugore... etc.) O nome Sion, já teologicamente, exige uma exclusividade do que a Igreja ensina sobre a importância do judaísmo para a fé cristã.

Nenhum cristão tem o direito de se dispensar da prática da justiça social e deixar de lado o bem do outro como seu ponto de atuação, assim como de testemunhar o amor de Deus pela humanidade, porque estas máximas são o princípio de todo o que crê, a fortiori para a vocação religiosa. Contudo não sejamos tomados pelo o que está em voga, o que agora todos estão fazendo; nós devemos ter claro que todos os elementos que compõem a prática cristã devem ser presentes no ser Sion. Todavia não podemos concentrar nossos esforços em alguns aspectos que são comuns a todos os cristãos sem priorizar nossa particularidade na Igreja. Deveríamos fazer uma análise de nós mesmos para ver quanto tempo estamos investindo nossas energias em atividades que não são prioridades de Sion.

Existem coisas que outros são responsáveis por fazer e não compete a nós e há coisas que nós somos os únicos responsáveis, não existem outros. Às vezes pode parecer que nossa missão é a mais difícil, mas devemos estar certos de que a Igreja não será completa sem nossa parte - nossa atuação a partir do que nos é específico, é vital para a plenitude da missão da Igreja no mundo.

Esta particularidade exige uma maneira de ser, uma forma de viver. Desde os primeiros passos em Sion e de maneira permanente nossa vida deve ser pautada nesta dimensão. O específico de Sion deve ser aprendido, estudado, discutido, ensinado e vivido. Ele não é adquirido somente pelo nome que levamos. O valor do judaísmo para a compreensão da fé cristã, que é um princípio do ensinamento da Igreja, deve ser um elemento constitutivo da identidade dos membros de Sion.

De fato nossa dinâmica de definição deve continuar, mas sobretudo nossa atuação concreta, enquanto Sion, com uma vocação específica, única na Igreja deve ser clarificada. O conhecimento da tradição da Igreja deve ser completada pelo conhecimento da tradição judaica que a alimentou. A leitura da Palavra de Deus deve ser feita ajudada, como diz os ensinamentos da Igreja, pela tradição judaica que interpretou esta mesma Palavra ao longo dos séculos até nossos dias. Por isso, a elaboração da nova linguagem teológica como definição de Sion, é um trabalho prestado à Igreja que fazemos na clarificação de elementos que são já enunciados, mas ainda desconhecidos enquanto formulação. Todos os setores onde atua Sion, todos os espaços de formação que Sion atinge, somos responsáveis por um ensinamento portador da compreensão que respeite os avanços dos ensinamentos da Igreja e que seja evidente nossa particularidade. Nossa experiência como Congregação vivida a partir da relação “intrínseca” com o judaísmo e com a “não ruptura com a Sinagoga” deve ser presente desde a catequese de base onde ela é feita por Sion até o curso paroquial, escolar, formação universitária ... O ensinamento da Palavra de Deus, em toda a sua dimensão, é o campo de atuação de Sion e deve abranger o que abrange a Igreja. Não há atividade específica, mas nosso específico deve ser transparente no que fazemos, isto é, nossa particularidade de ser Igreja ou melhor a particularidade da Igreja que somos nós deve ser o fio condutor de nossas atividades.

Todo ensinamento novo, interpretação nova, supõem re-elaboração de linguagem e de metodologia de trabalho. Vivemos este momento histórico na Igreja de novas descobertas e sustentados por estes recentes ensinamentos somos, como Congregação, diretamente encorajados a melhor expressar nossa maneira de ser Sion na Igreja. Os modelos existentes não contemplam os avanços atuais. Ademais, às vezes, os conceitos são viciados de compreensões que impedem perceber o novo que surge a partir do existente. Em relação ao Judaísmo a Igreja anuncia os princípios, as conclusões, falta a elaboração do discurso, a formulação didática do ensinamento. Os Religiosos de Sion se identificam como razão de Ser com estes ensinamentos, contudo faz-se-nos necessário a contínua reflexão conjunta de nosso específico na Igreja para o mundo, dinâmica esta que deve ser portadora de novo modelo prático de estudo, de serviço, de vida e de ensinamento, para nós Sion em primeiro lugar e se difundir no trabalho de Igreja onde e como atuamos.

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Viva Nossa Senhora de Sion!

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