Abraão e sua História

Jean Starcky


Apresentamos aqui parte de um estudo publicado pelo periódico Cahiers Sioniens, n.2, pp 1-120, junho de 1951. Os "Cahiers" eram uma publicação parisiense da Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion, e que circulou em meados do século XX. ​

Abraão ocupa um lugar essencial na tipologia religiosa, assim como a literatura judaica, cristã e islâmica o testemunha. Mas qual é a sua realidade histórica? A pergunta se impõe porque a nossa salvação é devida a uma intervenção de Deus no tempo, muito mais do que a uma descoberta da estrutura religiosa do homem.

O Problema

É preciso admitir que um historiador, até tempos atrás, não tinha muita coisa para dar a resposta. Certamente, ele via em Abraão o herói de alguma lenda étnica ou local, ou até o ancestral fictício do clã do qual se originou o povo judeu. Sendo um crente, ele descartava estas hipóteses, pois para negar a existência de Abraão e dos principais feitos de sua vida, ele teria de tirar da história do povo judeu o seu ponto de partida.

Sem dúvida, é difícil determinar com detalhes o que se encontra ligado desse modo à história da salvação; de certa maneira, o conhecimento dos gêneros literários do antigo Oriente nos valerá para evitar as compactas afirmações. Mas a própria expressão de «gênero literário» não está destituída de perigo: ela sugere a existência de leis precisas, análogas às nossas, que nos dariam a chave das dificuldades que os velhos textos apresentam. Na verdade, ela só é válida num sentido amplo, e cada escrito deve ser examinado por si mesmo. Infelizmente as intenções dos autores são raramente explícitas, e é o nosso conhecimento da história do Oriente, então, que nos permitirá medir a parte que ocorre na apresentação.

Às vezes os acontecimentos exatos são, ao mesmo tempo, conhecidos por nós através da Bíblia e dos textos profanos: algum sucesso ou revés dos reis de Israel e de Judá são relatados pelos textos cuneiformes como também pelos Livros dos Reis1. Habitualmente, as descobertas dos arqueólogos, dos linguístas e dos etnógrafos nos propiciam informações de ordem muito geral, da qual a síntese é, aliás, muito útil: graças a esta reconstituição do «meio bíblico» nós podemos julgar a veracidade de uma indicação cronológica ou geográfica, de um nome próprio de pessoa, de um costume social ou de uma atitude religiosa.

A história dos Patriarcas, tal como é relatada em Gênesis, não é retalhada por nenhum dos acontecimentos que os papiros egípcios ou as tabuletas acadianas nos transmitiram. Por muito tempo pensou-se haver um elo comum entre as duas correntes na menção de Amrafel rei de Senaar (Gn. 14,1), identificado com o rei babilônico Hamurabi, autor do celebre código que se encontra no museu de Louvre. Com razão, a isto se renunciou. É unicamente, então, através de um estudo das condições sociais e religiosas da época dos patriarcas que capazes estamos de «confirmar» as narrações do Gênesis.

A época amorreana.

Tendo em conta os números fornecidos pela Bíblia e o acordo com a mor parte dos entendidos para fixar no XIII século a data do Êxodo, pode-se situar Abraão no XIX ou no XVIII século antes de nossa era. É precisamente a época de Hamurabi e da primeira dinastia babilônica, da qual é o mais ilustre monarca. Esta dinastia não é originária da Mesopotâmia, mas do Deserto da Síria: ela é oriunda de um clã amorreu, isto é do grupo nômade que, depois do fim do III século, é o senhor da estepe. A partir dela invadiu sucessivamente o Médio Eufrates, a Babilônia, a Assíria, uma parte da Síria, e até mesmo a costa feniciana, que disputa com os Faraós.

Nestas últimas regiões, o elemento cananeu era o mais importante, pelos menos numericamente, e uma observação análoga se impõe para a Mesopotâmia, onde os Suméro-acadianos, ontem senhores de todo o Oriente, se mostravam ainda os agentes mais ativos da civilização. Enfim, as descobertas recentes revelaram a presença dos Hurritas na Alto-Mesopotâmia desde antes a hegemonia amorreana, e a sua infiltração em todo o crescente fértil ao longo do segundo milênio. Este povo, do qual a língua não é nem semítica, nem ariana, descendia das montanhas da Armênia e do Irã, e contrariamente aos nômades amorreanos, trazia consigo uma técnica e um direito evoluídos. Civilização semelhante, ainda que de língua diferente, são os Hititas, mas até o XV século, parece não ter eles se fixado na Síria ou na Mesopotâmia.

Este quadro já bem carregado complica-se mais ainda com a questão dos Hicsos. Sob este nome, os Egípcios denominaram os povos asiáticos que, por 1700 a.C., acabaram com Médio Império e, um século depois, foram expulsos do Delta. Sua contribuição para com a civilização material do Egito foi negativa e tudo leva a crer que eles eram parentes dos Amorreanos. É preciso falar o mesmo dos Arameus; seu nome não é constatado antes do XII século, porém eles são um ramo dos Akhlamu — já conhecidos nos dois séculos anteriores. O que sabemos da língua amorreana nos permite aproximá-la mais do arameu do que do cananeu ou do acadiano. Si se acrescenta que o Deserto não derramou duas vagas sucessivas, o amorreano, depois o arameu, mas que se trata na realidade de uma série quase que ininterrupta e mais ou menos rara de incursões, migrações ou de infiltrações, pode-se supor que os nomes de Amurru e de Aram foram empregados em épocas diferentes para designar povos da mesma origem. Ainda que muitas passagens da Bíblia relacionem os Hebreus aos Arameus pode-se pensar então que na realidade eles são oriundos do grupo amorreano, e os ligam aos Hicsos invasores do Delta (do Nilo).

Sítios arqueológicos.

Evoquemos brevemente o nome dos sítios explorados que elucidaram mais esta época perturbada do segundo milênio. Na Babilônia, as escavações de Ur nos revelaram a atividade da III dinastia desta cidade, pelo ano 2000 a.C. Em Susa, no Elam, encontrou-se a estela trazida da Babilônia e onde Hamurabi havia feito gravar o seu Código. Em Assur, entre tantos achados, vemos tabuletas de caráter jurídico, datando do XII século, mas fazendo-nos conhecer leis assírias mais antigas. Perto de Kerkuk, celebre por seus poços de petróleo, escavou-se Nuzi, cidade hurrita do XV século que propiciou 4.000 tabuletas redigidas em acadiano. Em Mari, se encontrou nos palácios 20.000 tabuletas e nós possuímos em particular a correspondência diplomática de Zimrilim, último rei de Mari, vencido por Hamurabi. Na Turquia, perto de Cesaréia da Capadócia, o sítio de Kultepe forneceu as tabuletas escritas em acadiano: elas nos informam sobre as relações comerciais da colônia assíria que no início do segundo milênio se instalou no meio da população asiática. Ainda na Turquia, a 150 km ao leste de Ancara, perto da cidade de Bogaz-Keuï, encontrou-se a capital do reino hitita e seus arquivos do XIII século, em particular um código de leis. Na Fenícia, as tabuletas de Ras-Shamra (XIV século) nos relevaram os mitos cananeus, e em Biblos, pelo ano 1800, nós conhecemos dois reis, cujo nome é de cunho amorreano. Nomes da mesma origem são lidos nos vasos e estatuetas egípcios de execração, datando igualmente do Médio Império. Estes objetos eram quebrados num gesto ritual e com eles o poder dos príncipes ou das cidades asiáticas. No tempo de Sesóstris I (XIX século), o nobre egípcio Sinuhe viveu longos anos no norte da Palestina e nos conservou o relato de sua estadia. Em Tel el Amarna, Médio Egito, encontrou-se as cartas endereçadas pelos príncipes da Ásia aos faraós Amênofis III e IV (XV século). Elas são redigidas em acadiano. Em Tanis, no Delta, as escavações não forneceram grandes resultados para a época dos Hicsos, que deles foi a sua capital.

Eis, a título de exemplo, o que se pode tirar desta massa de documentos — estamos longe de ter citados a todos — e também os estudos etnográficos sobre as tribos árabes2

Os nomes próprios.

Nomes como Abraham, ou melhor, Abram (Gn. 17,5) e Jacob, são comprovados na época sob a forma de Abarama e Yacobel, o segundo sendo do tipo amorreano habitual: o verbo no imperfeito, seguido do nome divino El. Temos citado mais acima o nome de Amrafel (Amraphel): o sentido muito provável é: a boca de El ordenou, pois, em outros nomes do tempo de Hamurabi3, se encontra no seu final pi-el, boca de El. A maior parte dos nomes amorreanos apresenta ou subentende, — por exemplo, Jacob, — o apelativo divino El. Mais que um nome próprio, é preciso ver aqui a palavra semítica il ou el, que corresponde à nossa palavra deus. Voltaremos mais abaixo sobre este ponto. Assinalamos ainda dois nomes em el: aqueles de Batuel o arameu (Gn. 25,20) e seu irmão Qamuel (Gn. 22,21), sobrinho de Abraão.

O capítulo 14 do Gênesis, que narra a campanha de quatro reis contra os pequenos principados do Mar Morto, apresenta uma forma literária muito particular, mais arcaica, o que parece, do que aquela dos capítulos que o cerceiam. Os quatro reis são Amraphel, já nomeado, Ariok, Tideal e Kedor-Laomer, o chefe da coalizão. Seu nome é elamita e, de fato, Kedor-Laomer é dito rei de Elam. Tideal é rei de Goïm.

Os nomes próprios geográficos são igualmente de bom quilate. Assim provavelmente contemporâneo de Hamurabi. A palavra Goïm tem o sentido de nações estrangeiras, pagãs. Quanto a Ariok, é um bom nome hurrita.Amrafel e o rei de Senaar, provavelmente o monte Singar a oeste de Mossul, um dos habitantes dos Amorreus, e na Bíblia, este apelativo se estendeu a seguir ao resto da Mesopotâmia4. Por outro lado, os nomes dos ancestrais de Abraão, Téra, Nacor e Serug foram encontrados nos nomes de cidades5, todas situadas na Alto-Mesopotâmia: esta é a região de Harã, aonde Téra e seu filho Abraão vêm se instalar (ou se reinstalar) após ter deixado Ur na Caldéia, isto é na Mesopotâmia meridional. A Alto-Mesopotâmia e o Aram dos dois rios (Gn. 24,10), aonde se mantém a família do patriarca, enquanto que ele e seu sobrinho Lót, respondendo ao apelo divino, se dirigem para a Terra Prometida (Gn. 12,1).

Leis e Costumes.

A Lei mosaica não conhecia a adoção. Ora uma curiosa passagem do Gênesis a supõe: não tendo filhos, Abraão constitui seu herdeiro um dos seus escravos: Eliezer de Damasco (Gn. 15,3). Um texto de Nuzi registra a adoção de um escravo, e alguns contratos prevêem que, no caso do nascimento de um filho, o adotado perde tudo ou parte do seu direito de herança. É assim que Eliezer será substituído por Isaac. Eis um exemplo proveniente de Nuzi:

Tabuleta de adoção de Nashwi...: ele adotou Wullu... Enquanto Nashwi viver, Wullu lhe proverá comida e roupa. Quando Nashwi morrer, Wullu será o seu herdeiro. Se Nashwi tiver um filho, este dividirá em parte igual com Wullu, mas é o filho de Nashwi que ficará com os deuses de Nashwi... Além disso, Nashwi deu a sua filha Nuhuya como esposa a Wullu. Mas se Wullu tomar outra mulher, ele perde todo o direito aos bens de Nashwi...

Também Labão exige que seu genro Jacó não tome outra mulher além de Léa e Raquel (Gn. 38,50). Ele dá um interesse todo especial aos seus deuses lares ou terafim, talvez porque a sua posse estava ligada àquela da herança (Gn. 31,30 e capítulo 43).
Enfim, também Jacó trabalhou vinte anos para Labão antes de ter as suas filhas, penhor da herança6.
Do mesmo modo o direito da progenitura é ao mesmo tempo atestado em Assur e em Nuzi e o levirato pelo Código hitita, mas estas duas particularidades são ignoradas pelo Código de Hamurabi.

Terminamos com um detalhe curioso: perto de Hebron, habitada pelos Hititas, Abraão compra de Efrom o Hitita o campo e a gruta de Macpela. Esta cessão foi feita diante de todos aqueles que passavam pela porta da cidade (Gn. 23,18). Ora certos contratos, entre os quais a transferência de bens, eram proclamados à porta do palácio ou da cidade, segundo as tabuletas de Nuzi7. Concluamos: os costumes patriarcais parecem ser aquele da Alto-Mesopotâmia, sua «terra de origem», eres-moledet (Gn. 24,7 e 31; 13). Assim se explicariam melhor as analogias que constatamos com o direito hitita, hurrita e assírio. Contudo, nós começamos a conhecer só a legislação suméro-acadiana anterior a Hamurabi,8 onde encontraremos talvez os paralelos à Bíblia, que faltam no famoso Código editado pelo rei da Babilônia. E Abraão talvez vivesse antes de Hamurabi9.

Etnografia.

Talvez o leitor tenha constatado, com certa surpresa, que as nossas comparações advêm das civilizações urbanas do 2º milênio. Ora, não são os patriarcas nômades? É referente a isto que os recentes estudos dos etnógrafos nos são de grande valor. Eles conheceram um tipo de civilização de dupla morfologia: as tribos de pastores «vagueavam com seus ovinos durante uma grande parte do ano, dando-se, no verão, à cultura irrigada, pelo menos o tanto quanto as incursões devastadoras dos grandes nômades (cameleiros) o permitiam. A cultura terminou por transformar seus utensílios, fazendo desaparecer paulatinamente a tenda substituída pela cabana de folhagem, depois pelas moradias de terra. É assim que o R. P. Charles descreve a transformação que se operou na tribo dos Bu-Shaaban, numa região situada ao sul do distrito de Haran10, onde Jacó e Labão pastoreavam as suas ovelhas. É uma civilização análoga que o papiro de Sinuhe reflete, quatro mil anos antes, sobre uma região que é talvez a planície entre o Líbano e Anti-Líbano. Sem duvida, na mesma época, Abraão conduzia os seus carneiros através das estepes da Síria para atingir os planaltos de Siquém, de Betel e Hebron e, mais ao sul, o Neguev, a vasta planície de Bersabéia. Nesta grande migração parece ter ocorrido, para o patriarca, a transumância habitual dos nômades «com uma zona de estiagem no norte e de inverno nas estepes do Neguev; nelas, com efeito, a temperatura é mais amena e as águas que deslizam sobre os declives da montanha de Hebron, muito próxima, alimentam as cavidades d’água do Wadi Ghazzeh, enquanto que um abundante lençol de água subterrâneo alimenta os poços de Bersabéia e de Guezer. Aqui os Patriarcas sediaram-se e tiveram, com os outros usuários das pastagens, mais de uma contestação relacionada aos pontos de água. O que é ainda um traço característico da vida dos nômades, Gn. 21,25 ss. e 26,15 ss.11

Em nossos dias ainda, alguns nômades, criadores de animais de pequeno porte, tornam-se criadores de bovídeos e agricultores12.

Com os Abraâmidas, nós não nos deparamos, então, com uma tribo de «grandes nômades», essencialmente cameleiros, mas com os «pastores», e bem cedo com os «seminômades», particularmente permeáveis às influências citadinas, o que nos dá a resposta ao problema acima suscitado. Por outro lado, se na época real ocorreu para os Hebreus o milagre do Deserto, para os nômades, que os Patriarcas ainda eram, ocorreu o milagre da Cidade, símbolo da Terra Prometida. Ainda em nossos dias, «a Cidade não é a imagem escriturária, isto é — para todos aqueles que reconhecem em Abraão o Pai dos Crentes — a imagem divinamente inspirada, dada à descendência do Patriarca Pastor como o termo definitivo e perfeito das transumâncias e da progressão de sua raça?»13.

Religião.

A família de Abraão, à primeira vista, aparece como politeísta: Josué o lembra às tribos reunidas em Siquém: Vossos pais habitavam outrora do outro lado do Rio (Eufrates) — Téra pai de Abraão e Nacor — e eles serviam os deuses estrangeiros (24,2). Este Nacor é o avo de Labão, tão ligado aos seus ídolos doméstico, como temos visto.

E, contudo, quando Deus se dirige pela primeira vez a Abraão (Gn. 12) não ocorreu a revelação do seu nome e nem a proclamação de sua unicidade. Tudo acontece como se Abraão já o conhecesse. Outro episódio é ainda mais surpreendente: no capítulo 14, do qual temos notado o caráter arcaico, Melquisedec, rei de Salém (sem duvida Jerusalém) invoca sobre o patriarca a benção de El-Elyon, isto é o Deus Altíssimo, qualificado Criador dos céus e da terra. Melquisedec, que não é um hebreu, teria o mesmo deus que Abraão?

Nos documentos profanos, Elyon aparece muito mais tarde: numa estela arameana de Sefira (perto de Alepo), datada do VIII século, mas a título de nome divino, junto ao de El, sendo o mesmo precedido de uma lista de deuses assírios14. A expressão O Criador da terra é lida numa grande inscrição fenícia recentemente descoberta em Karatepe na Cilícia, sem duvida do mesmo século: no fim do texto, o rei invoca três deuses contra aqueles que trocariam o que quer que seja na porta da cidade: Baal-Shamem, isto é o Senhor dos Céus, El-qone-ars, isto é O Criador da terra e Shamash-Olam, isto é o Sol da Eternidade15.

El, como deus pessoal, é atestado desde o XIV século, à Ras-Shamra, aonde ocupa, e de longe, o primeiro escalão16. Entre os seus inúmeros atributos, destacamos dois: ele é denominado Bâni-banût, que, sem duvida deve-se traduzir por Criador da Criação17 e Malek-ab-shanim, Rei Pai dos anos18, que é um equivalente do cognome El-olam, Deus da Eternidade, sob o qual Abraão invoca o Senhor em Bersabéia (Gn. 21,33).

Quase a morrer, Jacó abençoa seus filhos; a José ele diz: sê protegido pela mão do Poderoso (ou do Touro) de Jacó, pelo Nome (?) do Pastor da Pedra de Israel, pelo Deus de teu pai, e que El (?)-Shaddai venha em teu auxílio... (Gn. 49, 24 ss.). Esta passagem é de sabor muito arcaico, e aqueles que no-la transmitiram não a compreendiam muito bem, como o testemunham as diferenças entre o hebreu e as versões. Se for preciso reter a tradução de abîr por touro, comparar-se-á este apelativo divino àquele de Thor-el, Touro-El, que se encontra em Ras-Shamra19. O nome de El-Shaddai é difícil de explicar. Nós nos unimos aos entendidos que nele encontram a palavra semítica shadu, empregada, sobretudo, em acadiano, no sentido de montanha, e, como se sabe, o Senhor é, nos Salmos, denominado muitas vezes sob o termo sur, isto é Rochedo, e, aqui mesmo, ele é a Pedra de Israel. Na literatura cuneiforme, muitos deuses, em particular Amurru — o grande deus amorreano — trazem a alcunha de shadu. Amurru é qualificado de Senhor do Grande Monte ou Grande Monte simplesmente. Assim, ele significaria sem duvida o apoio inabalável que se encontraria na divindade, e, em Gênesis, Shaddai é quase sempre empregado quando Deus se apresenta como o fiador da Aliança: 17,1; 28,3; 35,1120. O autor do Pentateuco tem consciência da antiguidade do nome Shaddai: «Eu me mostrei a Abraão, a Isaac e Jacó, sob (o nome de) El-Shaddai, mas meu nome é Yahweh»21.

Mais do que os cognomes divinos, é o nome de El que merece mais atenção. Através da etimologia, nós nos permitimos reenviar o leitor a um estudo no qual reunimos as provas que ligam El à raiz ‘WL, que expressa prioridade: o que nos permitiu inserir este apelativo na série dos nomes divinos da época amorreana e que reflete a estrutura tribal dos primeiros semitas: Ab, Pai; Amm, Parente próximo. El designaria primitivamente o xeique e, por analogia, a divindade do grupo étnico22. É nos textos cuneiformes, no III milênio, que nos encontramos pela primeira vez a palavra el, sob a forma acadiana ilu. E isto de duas maneiras: seja sob uma forma autônoma, no sentido de deus, em particular diante de um nome próprio divino: ilu Enlil, o deus Enlil; seja na composição de muitos nomes próprios de pessoas, por exemplo, Rabilu, onde rab quer dizer grande. Mas nestes nomes, como traduzir ilu? Não é prudente tomá-lo como um nome próprio (El é grande), pois um deu El não é atestado antes das tabuletas de Ras-Shamra23. Traduzi-lo por Deus, é prejulgar o pensamento religioso desta remota época. Sendo dado que ilu, tomado isoladamente, significa deus, a tradução obvia é: o deus é grande.

Mas aqui uma constatação capital se impõe: mostrou-se que estes nomes em el ou ilu são muito mais abundantes quanto mais se remonta às diversas línguas semíticas. No onomástico amorreano, eles são a maioria, sobretudo se a gente acrescentar a eles os nome próprios formados com Ab ou Amm, que são outros apelativos de El24. Ora os Amorreus apenas se sedentarizaram, então a maioria destes nomes foi trazida por seus ancestrais nômades. Ainda mais curioso é o caso das tribos árabes que, na época romana, faziam os seus rebanhos pastarem em Safa e em outras estepes da Síria e a Transjordânia: a quase totalidade dos nomes teóforos safaitas comportam o elemento el (ou ilâh, que tem o mesmo sentido): quando o nome é curto e falta o nome divino, direito se tem então de supor que se trata também de el: assim o nome próprio Wahb é uma forma abreviada de Wahbel ou Wahbilah25 que, segundo o sentido, corresponde ao nosso Dado-por-Deus (Deusdedit). Estas tribos teriam conservado uma onomástica muito antiga, o que não deve espantar o etnógrafo e o linguísta. Ainda hoje os Beduínos continuam a pronunciar certas consoantes do semítico antigo, ao passo que estes sons já haviam desaparecido dos textos acadianos.

Da predominância dos nomes em el na camada mais antiga de cada língua semítica, concluiu-se, com razão, que o elemento el remonta a uma época em que os semitas ainda não estavam dispersos nas terras do Crescente Fértil e representavam um grupo nômade, sem duvida na Arábia. Isto nos faz remontar ao menos ao IV milênio.

Havíamos traduzido o velho nome acadiano Rabilu por o deus é grande. O que esta expressão «o deus» visa? Tal deus particular26, que podia variar segundo os nomes, a época e o país? Seria curioso que este procedimento fosse repetido com tanta freqüência. Infinitamente mais provável é a hipótese que vê em ilu ou el o deus ancestral único: em outras palavras: só se adoraria uma só divindade no grupo étnico primitivo, a qual se poderia denominar sem confusão «o deus» por excelência27. Este emprego se reflete numa valiosa passagem do Gênesis: Jacó está caminhando para o Egito, onde vai encontrar seu filho José. Em Bersabéia ele oferece sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac. Numa visão noturna, Deus diz a Israel:... Eu sou o deus, deus de teu pai, não temas... (Gn. 46,1. SS.). Em hebreu, o artigo definido é ha e o texto traz ha-El, o Deus.

Relacionou-se este texto a muitas tabuletas de Kultepe, nas quais a palavra ilu deve ser traduzida por o deus. Trata-se de contratos onde cada uma das partes invoca o seu deus: que Assur e Ilabrat, deus de nosso pai sejam testemunhas, ou então, que Assur e teu deus... ou ainda que Assur e o deus de teu pai... A onomástica destes documentos capadocianos é em grande parte amorreanos. Lugar há para crer que o deus assim invocado não é outro senão aquele dos Amorreanos ainda nômades, pois nós estamos numa época anterior a Hamurabi. Ilabrat é um nome divino iniciado por ilu e procedido de um genitivo plural cujo sentido nos escapa. Em todo caso é a mesma divindade como o deus de teu pai, ou teu deus. Ocorre que ele venha a ser designado de um modo mais íntimo: contra a vontade de meu deus, minha mulher foi enterrada. Do mesmo modo como Israel (isto é Jacó) dá ao altar, que ergueu em Siquém, o nome de El-Elohe-Israel, isto é El, deus de Israel (=Jacó), Gn. 33,20. Aqui El é quase que um nome próprio. O deus dos pais ou o deus simplesmente é então uma noção comum aos Amorreanos e aos patriarcas, que seguramente a herdaram de seus ancestrais28.

Temos visto que uma parte dos nomes próprios atestados na tribo de Abraão era da mesma cunhagem que aqueles dos Amorreus, e não é temerário concluir: a uma cepa comum. Parece que na época dos grandes Profetas guardou-se deles ainda alguma lembrança, já que Ezequiel dirigiu à Jerusalém esta censura: teu pai era um amorreu e tua mãe uma hitita (16,3).

Menos surpresos ficaremos desde então se encontrarmos adoradores de El-Elyon fora do clã abraâmida. É difícil dizer se Melquisedec era um amorreu. O Deuteronômio enumera com freqüência os Amorreanos entre os povos de Canaã (cf. Gn. 10,16), e no capítulo 14, eles são abatidos no sul do Mar Morto pelos reis do Oriente (14,7). Aquele que escapou da derrota do Vale de Sidim noticia o ocorrido a Abraão, então residindo perto de Hebron, sob o carvalho de Mambré o Amorreu. Parece até que o elemento étnico mais importante tenha sido constituído no planalto de Samaria (Gn. 46,21). Um Melquisedec, sacerdote do Altíssimo, a Jerusalém ou no vale do Jordão, não tem então nada de improvável.

Estas populações eram então monoteístas? Uma sã filosofia religiosa, que sabe reconhecer o sentido do Absoluto em todo o homem, não veria nisto nada de inconveniente. Mas sob o ponto de vista estritamente histórico, o que temos dito mais acima não nos permitir afirmá-lo, pois, adorando um só deus, estas tribos podiam crer na existência de outros deuses étnicos. Por outro lado, elas eram mais ou menos sedentárias e certamente deuses estrangeiros haviam sido associados a El. É o que nós constamos em Ras-Shamra, onde El só é mais um deus entre outros, guardando, contudo, uma preeminência incontestável. Os Árabes, antes do Islã, reconheciam em Allah o deus supremo — Allah significa «o deus»: al-ilah — mas a ele associaram Lat, Ozza e Manat. É por causa disto que Maomé os censurará (Corã 29, 61-65), donde a expressão «associacionismo» empregada pelo Islã para designar o politeísmo.

Pensamos que a situação deveria ser a mesma na época amorreana visto que o culto de El ou Ilah pode ser transmitido entre os Nômades sem solução de continuidade29.
Uma constatação análoga foi feita para o Egito: desde o Antigo Império, os Sábios às vezes invocam a Deus sem precisão, o que não os impede de prestar um culto aos ídolos30.

***

Para concluir, qual foi a atitude religiosa de Abraão antes de Deus tê-lo conduzido à Terra Prometida e se ter engajado abençoar toda a humanidade através de sua posteridade. Como o havíamos dito, nada sugere que o Deus Altíssimo lhe era desconhecido quando desta memorável promessa (G, 12) . Sem duvida, ele já se esforçava para ser perfeito e andar diante da face de El-Shaddai (Gn. 7,2). A graça obsequiosa do Deus da futura Promessa o ajudava, sem duvida, a ligar-se a ele somente, se bem que chegada a hora, não haveria mais ídolos para quebrar: ele estava pronto para caminhar sobre um novo caminho, aquele que leva à Cidade santa, onde o próprio Deus habita.

Jean Starcky, tradução: Pe. Faustino Tonini, nds

Notas:

1 1. Para uma comparação cômoda, cf. J. Plessis, Suplemento do Dicionário da Bíblia, I, col. 782 a 800.
2 . Nós nos inspiramos, sobretudo, sobre os artigos tão ricos de R. P. de Veaux, Os Patriarcas hebreus e as novas descobertas, na Revista Bíblica, 1946, p. 321 ss.; 1948, p. 321 ss.; 1949, p. 5 ss. Nela se encontra também uma abundante bibliografia. O autor não estendeu o seu trabalho aos dados religiosos.
3. Conferir Revista Bíblica, 1948, p. 331 ss.
4. Ibidem, p. 332 ss.
5. Ibidem, p. 323 ss.
6. Ibidem, 1949, p. 26 e 33 ss.
7. Ibidem, p. 24. Há confusão entre os Hititas e Huritas cuja civilização oferece tratados comuns? Conferir Revista Bíblica, 1948, p. 325 ss.
8 8. Revista Bíblica, 1948, p. 21.
9 9. Revista Bíblica, 1948, p. 336.
10. H. Charles, A sedentarização entre Eufrates e Balik, Beirute, 1942, p. 93.
11. A.-G. Barrois, Manual de Arqueologia Bíblica, I, p. 87.
12. Revista Bíblica, 1949, p. 10 ss. O problema que o camelo suscita é tratado na p. 7 ss.
13. H. Charles, op. cit., p. 98.
14. Primeira edição por S. Ronzevalle, em Miscelâneas da Universidade São José, Beirute, 1931, p. 237 ss.
15. Conferir, por exemplo, G. Levi Della Vida, Rendiconti Ac. Dei Lincei, 1949, em particular p. 289.
16. R. Dussaud, As descobertas de Ras-Shamra e o Antigo Testamento, 2ª Ed. p. 91 ss.
17. Conferir H. Virolleaud, A lenda feniciana de Davel, p. 102 e 192.
18. Por exemplo, no poema de Baal: H. Virolleaud, na Síria, 1932, p. 131 (col. IV-V linha 24, cf. linha 42 onde El dá a vida eterna a uma deusa).
19. Ibidem, p. 102.
20. E. Burrows, The meaning of El-Shaddai (A significação de El-Shaddai), no Jornal de Estudos Teológicos, 1940, p. 152 ss. Sobre a religião patriarcal em geral, cf. E. Dhorme, A religião dos Hebreus nômades, Bruxelas, 1937.
21. Ex. 6,3. O sentido, a primeira forma e a antiguidade do nome de Yahweh suscitam um difícil problema: segundo Gn. 4,26, ele já é invocado pelo neto de Adão, e em 9,26, Yahweh é o deus de Sem. Quanto ao nome El, lembramos que ele é raramente empregado em Gênesis. É Elohim que com Yahweh é o nome habitual da divindade, em particular nas narrações compreendendo os patriarcas. Sobre a forma de Elohim conferir nota 25.
22. Arquivo Orientalni, 1949, nas Miscelâneas Hrozny, p. 383 ss.
23. Sua presença no Código de Hamurabi é controvertida.
24. Lista dada por Théo Bauer, Die Ostkananäer, a ser completada com os textos de Mari.
25. G. Ryckmans, Os nomes próprios dos semitas do sul, I, p. 77 e p. 224 ss. O nome divino Elohim é o plural majestático de Eloah, forma hebraica de Ilah. Encontra-se igualmente em uma lista sacrifical de Ras-Shamra, na qual designa um deus.
26. Salvo a partir do XIV século, para os sedentários que haviam feito de El um deus particular.
27. Esta conclusão é destacada por M. Noth, que estudou os nomes próprios hebreus no quadro da onomástica semítica, Stuttgart, 1928.
28. É um dos editores de Kultepe, J. Levy que mostrou a importância considerável destes contratos para o nosso conhecimento da religião patriarcal. Conferir Revista da História das Religiões, t. 109, 1934, p. 50 ss.
29. Ilah é às vezes invocado nos textos safaíticos. O estudo dos cognomes divinos, que permaneceram como tais ou tornaram-se nomes próprios, oferece mais de uma aproximação com o Gênesis, e os textos da Arábia do Sul são ainda mais eloqüentes a este respeito. Nós reunimos muitos dados sobre o deus El e sobre o monoteísmo dos Semitas num artigo (em árabe) na Revista al Mashreq, Beirute, 1948, fasc. 2. Ele é o resumo de três conferências feitas no mesmo ano na Universidade São José.
30. Foi R. Drioton que, por primeiro, trouxe à tona a existência destas «duas tradições contraditórias» no Egito. A heresia de Aknaton (Amênofis IV), no XIV século, foi, no sentido próprio desta palavra, uma escolha: ele compreendeu que ao lado do deus supremo não havia lugar para outros deuses: E. Drioton, O monoteísmo do antigo Egito, nos Cadernos de história egípcia, Cairo, janeiro 1949; cf. C. Desroches-Noblecourt, História das Religiões (Quillet), I, p. 251 ss. Anteriormente ao problema de El entre os Semitas e do Deus dos Sábios se coloca para o Egito e Sumer aquele do grande deus celeste: Ór e An.

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