Leitura: "Ver a Vida Como Ela É"

Leituras Seletas


Nós somos melhores do que julgamos ser, e os outros também. Existe uma medida justa, bem difícil de encontrar, entre o otimismo, que vê só o bem, e o pessimismo, que vê somente o mal: é ver o bem e o mal que se lhe mistura às vezes presentes na obra da criação divina. O mal é mais visível do que o bem, porque ele se encontra na superfície das coisas; o bem, porém, o ultrapassa de muito. Quando temos a oportunidade de ter uma conversa espiritual com uma pessoa devota, ficamos sempre positivamente surpresos: ela é melhor do que pensávamos.

 ​Creiamos, pois, no bem em nós; e creiamos no bem que há nos outros. Estes são caminhos de Deus. O mundo era terrivelmente malvado quando Jesus veio, mas este mal não o pôde deter.

É preciso então não ter medo nem de nós mesmos nem dos outros. É preciso ver a vida como ela é. Trata-se de um olhar profundo e demorado, o qual nos dá a Deus; pois Deus está no fundo de todos os seres. Tudo é porque Ele o quis ou permitiu. E se o mal permitido por Deus nos põe medo, digamos a nós mesmos que antes deste mal há um bem, e é este bem que foi desejado. Posso então dizer, mesmo diante do mal, que um querer (isto é, um amor) de Deus aí se esconde no fundo.

É este querer (ou este amor), que nós estamos procurando. Nós sofremos por não o encontrarmos o tanto que desejaríamos encontrar. Este sofrimento é nobre. Agradeçamos ao bom Deus por tê-lo depositado no fundo de nosso coração como um apelo Deus para nós, e de nós para Ele. Mas que nos consolemos, pois há um remédio, é a fé verdadeira. Há uma fé que adere às verdades com a inteligência apenas; e há uma outra que lhes adere com o coração. A primeira não basta: ela é fria e distante; ela não estabelece a união. Mas a fé verdadeira e viva é como tomar posse de Deus. Ele se torna nosso; Ele se torna o hóspede de nossa alma. E a alma, desapegada das coisas, está livre para se voltar a Ele por um olhar de amor que realiza a íntima união, tão anelada.

Aí está o “onde” ao qual Deus nos chama. Mas aí só chegaremos depois de uma longa viagem que nos separa das criaturas e de nós mesmos. Que nós tenhamos a coragem de percorrer este longo percurso, e venhamos a conhecer a alegria da chegada final.

Extraído de:  Dom Augustin Guillerand, Silence Cartusien. Desclée de Brouwer, 1976. P. 27.

Tradução: Ir. Cristóvão Oliveira Silva, nds

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