20 de Janeiro de 2018

Cristóvão O Silva


Mais uma vez, eis-nos no mês de janeiro, em que celebraremos no dia 20 o centésimo septuagésimo sexto ano desde aquele acontecimento na igreja de Santo André delle Frate. Sim, trata-se de um acontecimento, um fato histórico presenciado por diversas testemunhas e cuidadosamente documentado, cujas consequências são visíveis até hoje, até mesmo nas pedras dos suntuosos edifícios erguidos em Jerusalém pelo protagonista desta história.

​Não, não se trata de uma doutrina, de uma ideia, de uma proposta teológica arbitrariamente construída. É um fato, e porque tem a força da realidade objetiva, pode mover a história em direção ao bem.

Que fato foi este? Um jovem na casa dos vinte anos, de família bem sucedida, com uma linda noiva a esperá-lo, com a cabeça cheia de projetos e o coração cheio de sonhos, como é próprio da juventude, sem nenhuma outra grande preocupação na vida senão aquela de seguir o seu destino de sucesso e de gozar as facilidades da riqueza; pois bem, um tal jovem, quase que num atmo de segundo, se vê invadido por uma luz sobrenatural, que lhe vem, a princípio, de uma fonte objetiva e exterior, uma Mulher de pé sobre um altar, a irradiar uma luz intensa, a qual, por fim, lhe vai penetrar até o mais íntimo do ser e mudar-lhe totalmente o destino. Era a Virgem Maria que lhe aparecia, segundo ele mesmo haveria de reportar. Mas, desta vez, não aparecia a crianças inocentes, nem a santos fervorosos; não! Desta vez, o anfitrião a receber a Mãe de Deus não era nem sequer cristão, mas um judeu, um israelita, um filho de Abraão! Como outrora a mesma Maria visitou a sua parenta Isabel, agora Ela visita também um outro primo distante; e do mesmo modo como Isabel ficara repleta do Espírito Santo com a saudação d’Aquela que a visitava, agora também o jovem é preenchido por uma graça sobrenatural, a qual mais tarde ele descreveria como “luz”.

Nossa Senhora visitou e haveria de visitar muitas outras pessoas naquele longínquo século dezenove – aparições que seriam aprovadas pela Igreja como autênticas, como a da Rue du Bac em 1830, La Salette em 1846, e a acachapante história de Lourdes em 1858. Com Afonso Ratisbonne, todavia, não houve profecias de catástrofes, queixas de infidelidade; houve tão-somente um silêncio todo ele envolto em amor. Se em 20 de janeiro Nossa Senhora trouxe à terra uma mensagem, esta foi de ternura e compaixão. Exatos cem anos mais tarde, entretanto, um outro vinte de janeiro aconteceria, desta vez não da luz, mas das trevas: em 20 de janeiro de 1942 os altos membros do Partido Nazista se reuniram nas paragens de Wansee, nos subúrbios de Berlim, onde decidiram pela “Solução Final da Questão Judaica”.

O tempo passou. Wansee se tornou um nome odioso; Sion, porém, um nome cheio de promessas. Qual sentido hoje teria para nós a devoção a Nossa Senhora de Sion? A questão deve ser considerada no contexto do lugar e missão de Maria na vida cristã. A primeira ideia que vem às mentes quando se trata de avaliar o papel da Virgem no discipulado cristão é a de considerá-la como um exemplo a se seguir. É preciso, todavia, alargar as fronteiras deste entendimento.

Antes de ser um exemplo, Maria é um princípio ativo dentro do Corpo Místico de Cristo. Deus age na Igreja e no mundo por meio de Jesus Cristo. Ora, todos os santos que estão no céu, estão em comunhão profunda com Jesus Cristo, são um só com Ele, são membros do seu Corpo Místico. Portanto, ao agir Deus por meio de Cristo, age também, necessariamente, por meio de todos os redimidos que estão no Céu, visto que estes não podem de Cristo se separar e são com Ele uma só realidade – os membros em união com a Cabeça. Isso é muito mais verdadeiro em relação à Virgem Maria, que detém, por graça e vontade de Deus, a supremacia da Santidade e da Glória recebidas. Por isso, quando Deus age por meio de Cristo, e Cristo age com Ele, pois a ação da Trindade é una, age necessariamente por meio de Maria. A mediação universal de Maria, que não foi ainda definida pelo magistério extraordinário da Igreja, está presente, contudo, no magistério ordinário, que é suficiente para a constituição do dogma.

É por isso que, ao nos unirmos espiritualmente a Nossa Senhora pela devoção, nos unimos necessariamente a Cristo e à ação da graça divina, cujo objetivo é nos santificar. Se praticamos uma devoção sincera à Virgem Maria sob o título de Nossa Senhora de Sion, entramos em comunhão com aquela graça que Deus quis comunicar primeiro a Afonso e a Teodoro Ratisbonne. Penso que a essência desta graça é o exercício da caridade sobrenatural aos judeus, que ao longo da história da Congregação se apresentou sob diversas formas. Este princípio se encontra claramente expresso no texto do prefácio às Constituições atuais, nos “Elementos essenciais da Inspiração dos Fundadores”, no número 2: “Testemunhar na Igreja e no mundo o amor particular de Jesus Cristo pelo seu Povo Israel”. O referido texto não integra as Constituições propriamente, mas o fato de estar em seu Preâmbulo, e o largo uso que se faz dele na vida da Congregação, provam a sua importância.

Que a luz que envolveu Afonso 176 anos atrás, esteja também sobre nós neste 20 de janeiro de 2018. Boa Festa.

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