A Fundação de Sion e Suas Datas

Elio Passeto

A família dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion traz em sua história algumas datas relacionadas aos seus primeiros passos de existência. Normalmente um documento de oficialização indica etapas de um caminho já andado. Não é o ato de oficializar que dá vida a algo, ao contrario, ele confirma de iuris a existência de facto.

Em 14 de dezembro de 1852 temos uma Carta Lauditiva do Prefeito para a Congregação da Propaganda da Fé, assinada pelo Cardeal Fransoni pela qual Roma confirma uma atividade já existente e encoraja sua continuação. Nesta fase não estamos falando de um projeto abstrato, mas de uma atividade dos chamados Padres de Sion, em torno do espírito do Pe. Théodore e do Pe. Marie Alphonse, que se fundamentava na experiência vivida por Alphonse aos 20 de janeiro de 1842, que foi entendida como um chamado de Deus para os dois irmãos.

Neste mesmo ano de 1852, o Pe. Marie Alphonse deixa os Jesuítas para somar força com seu irmão no projeto de Sion. Alphonse não será um vagabundo, isto é, um clérigo sem conexão eclesial. Ele deixa os Jesuístas com as devidas permissões do Superior Geral bem como do então Papa Pio IX. Portanto, devemos ver esta Carta Lauditiva (1852) diretamente ligada com a unificação dos dois irmãos em função da obra de Sion.

Aos 21 de junho de 1855, temos uma carta de Aprovação da Sociedade dos Missionários de Nossa Senhora de Sion, dada pelo Arcebispo de Paris. Mais uma vez essa carta oficializa uma prática, mas não funda nada. A fundação de fato precede essa data. Prova disso é a comunidade formada já pelos dois irmãos, Théodore e Alphonse. Mesmo que já possamos identificar uma oficialização das irmãs em anos precedentes, os dois irmãos não são considerados irmãs e de fato, com outros Padres, já constituíam uma vida religiosa partilhada e que será posteriormente confirmada, oficialmente, segundo os critérios da Igreja.

E, por fim, aos 10 de janeiro de 1893 temos a aprovação das regras constitutivas do Instituto pelo Arcebispo de Paris. Essa aprovação apenas confirma a anterior aprovação de 1855; mais uma vez essa data não significa fundação.

Penso que nós, Religiosos de Sion, devemos beber um pouco mais das fontes originais (escritos de primeira mão) para podermos sentir juntamente com nossos fundadores nosso momento primeiro. Os textos são abundantes por parte de ambos sobre como eles entenderam e transmitiram o momento inicial, sem o qual nada tem sentido, tudo depende dele e é precisamente onde estamos fundados.

Na verdade, os dois irmãos sempre celebraram o 20 de janeiro como a data da fundação da Congregação. Para Théodore o 20 de janeiro foi o momento de reorientação de seu ministério. Foi a partir dessa data que ele deixou sua visão Sacerdotal diocesana e começou a pautar sua atividade ministerial sob a ótica universal de sua vocação. Sabemos que a experiência de Deus através de Maria vivida por Alphonse provocou em Théodore  uma profunda reflexão, ele entendeu que Deus o estava incluindo nesse chamado. Por isso o 20 de Janeiro não é um acontecimento privado de Alphonse, Théodore implicou-se nele de igual importância e, sob certo aspecto, ainda mais. Tudo para Théodore assumiu sentido a partir dessa manifestação: Deus o chamou novamente, como um chamado dentro do chamado, e a partir desse momento toda a sua atividade será norteada junto e a partir de seu irmão. Nada foi feito ou fundado sem a participação de ambos e sempre iluminados pelo 20 de Janeiro.

A abertura da casa, a constituição do Catecumenato, a compra das primeiras propriedades, o lugar a ser estabelecido, mesmo o uniforme das primeiras jovens que chegaram em Sion, tudo isso foi de comum acordo entre os dois irmãos. Em grande parte foi devido à iniciativa ou fruto da insistência de Alphonse que Théodore entendeu a vontade de Deus que se manifestava através de Alphonse, e não se poderia impedir que esses projetos ou ideias de Alphonse viessem à luz.

Apresento algumas reflexões de nossos fundadores nas quais aprendemos que o ato fundador foi o 20 de janeiro e que um e outro estava implicado no mesmo projeto de Sion. Porém, se por um lado foi Alphonse que fez a experiência do 20 de janeiro, por outro, Théodore entendeu que a manifestação de Deus a Alphonse também foi um sinal para si.  Em várias ocasiões Théodore não entendeu as ideias e projetos de Alphonse (como é o caso de nossa presença em Terra Santa naquele momento), mas não se opôs, por estar seguro de que era a vontade de Deus que se manifestava nele.

Por ocasião da morte da Ir. Alphonsine, em 1882, o Padre Théodore fez uma longa reflexão sobre sua vida e explicou como ela chegou a Sion. Em sua reflexão, Théodore nos informa que os primeiros passos foram sugestão de Alphonse, incompreensíveis a ele em um primeiro momento, mas levado a sério porque era um sinal de Deus:

 "Ela (Ir. Alphonsine) foi um sinal que eu pedira à Santíssima Virgem para poder discernir a vontade de Deus em relação a essa Fundação. O Padre Marie escreveu-me de Roma em 1842, imediatamente após sua conversão, para que eu me comprometesse a instituir um Catecumenato para jovens israelitas. Ao ler sua carta, eu me dirigi, confuso, à Virgem Santíssima e disse-lhe: "Se é a Senhora, ó Maria, quem revelou esse pensamento ao meu irmão, deixa-me conhecer a vontade de Deus através de um sinal para que eu possa entender ... No mesmo dia, mais tarde, chegaram os país de uma criança pedindo-me para que eu assumisse sua formação... Essa criança era a Ir. Alphonsine... "

Essa reflexão de Théodore ensina-nos sobre uma atitude completamente ligada ao 20 de Janeiro. Alphonse ainda estava em Roma, poucos dias depois de seu Batismo (31 de janeiro). E já aprendemos que existe uma relação intrínseca entre os dois irmãos e uma profunda interação nos projetos de Sion.

Ainda no mesmo ano (agosto 1842), Alphonse já está determinado, com Théodore, a estruturar funcionalmente a vida de Sion. É importante termos presente que neste momento Alphonse está apenas entrando para sua formação junto aos Jesuítas. Mais uma vez, as ideias vêm de Alphonse, e mesmo a orientação de como e quando é, para Théodore, a voz de Deus que fala através de Alphonse, e este, por sua vez, não se sente o primeiro, mas um servo de Deus buscando ser fiel à Sua voz:

“... Eu penso, meu querido Théodore, que a inauguração da capela deve ser feita no mês de Maria. Teremos tempo para terminar todas as coisas corretamente, e se o Arcebispo de Paris se dignasse presidir esta cerimônia, ele daria, ao mesmo tempo, a Confirmação aos Catecúmenos que receberiam o Batismo e seriam admitidos aos Sacramentos ... Penso que já lhe disse sobre minha intenção de fazer os quadros de São Ignácio, São Bernardo para a Capela ... Você teria a bondade de me mandar as medidas das fotos ...

Depois de alguns momentos de reflexão diante de Deus, eu disse comigo mesmo: "Será que erraríamos comprar uma casa para duas garotas que acabaram de se apresentar? ... É sábio improvisar com tanta pressa um trabalho tão sério e que pede amadurecimento, que deve ser desenvolvido com grande cuidado?

(...) perguntei-me então se seria prudente envolver-me neste momento em novas despesas, cujo valor não posso prever, sem saber o que me custará exatamente o que está se fazendo agora. Pensei comigo mesmo se seria apropriado retirar a soma de dinheiro que disponho na casa (banco) do meu tio, de forma súbita e inexplicável; nossa família está com relações as mais carinhosas para comigo... São isso meu bom irmão, os motivos que me levam a persuadi-lo sobre adiar a compra de uma casa ...

Isto é o que proponho de minha parte: os primeiros catecúmenos que surgirem serão postos, de acordo com sua educação, conforme se julgar apropriado, ou na casa das Senhoras de São Luís, ou na casa das Irmãs da Caridade, às quais pagarei pensão ... O juro de meu capital será suficiente para pagar no início todas essas pensões ... Quando o número dos catecúmenos for suficientemente considerável para poder reuni-los, seria conveniente alugar um apartamento pequeno ou a pequena casa anexada à nova Capela ... Deixemos Maria fazer...[1]

O texto que segue foi escrito por Thédore e confirma a evolução das atividades de Sion e ao mesmo tempo o empenho dos dois irmãos na obra de Sion e a harmonia absoluta entre ambos.  Vale a pena lembrar que estamos em 1844, Alphonse está em seu Noviciado com os Jesuítas e permanece focado, próximo e convicto, na obra de Sion:

“Aconteceu que eu tinha tratado com um notário desonesto. Entreguei-lhe o montante de 150 mil francos que eu tinha a meu dispor para que ele pudesse pagar em dinheiro vivo ao vendedor da casa. Qual não foi a minha surpresa quando eu soube que o vendedor não havia sido pago! Ele reivindicava o pagamento, que para mim já tinha sido feito. Ele reclamava a soma com juros. O notário infiel embolsou sem me deixar nem mesmo um papel escrito para acusar o que ele havia recebido ...

 

(...) minha posição neste caso foi absurda, porque eu não possuía recibo, nada, e os juízes do caso me consideravam como alguém que não tinha noção do que tinha feito. O auge do meu sofrimento foi ver-me despojado de todos os meus recursos e, portanto, privado de qualquer meio de prover o necessário a muitas crianças que eu adotara ...

 

(...) sem saber que decisão tomar, tive a inspiração de ir consultar meu irmão, o Pe. Marie, que na época estava na Casa dos Jesuíta em Laval. Era Natal do ano de 1844. Cheguei a Laval consternado e perturbado só em pensar como revelar meu infortúnio ao Pe. Marie, ele que era interessado tanto quanto eu na obra de Nossa Senhora de Sion. Mas sua confiança imperturbável era mais forte do que a minha. Nunca esquecerei a calma e a serenidade com que ele ouviu minha triste história.

 

(...) ao terminar minha história, ele me levou ao pé da manjedoura, e apontando para a palha sobre a qual o Menino Jesus estava deitado, me disse: "Aqui está o nosso tesouro!" Ele parecia mais feliz do que nunca, fazendo-me entender que a obra de Sion não está fundada nos recursos financeiros, e que a própria Santíssima Virgem, que a criou e a fundou, proveria o necessário; devemos deixar o presente e o futuro em suas mãos maternas[2].

 

Esses, portanto, são alguns textos de nossos fundadores que nos ensinam como eles fundaram e viveram nosso início. Nós não estamos autorizados a celebrar outra data senão o 20 de janeiro como nossa fundação; mas estamos, sim, interpelados a conservar e transmitir todos os passos que demos e que faz parte de nossa rica história. O dia 21 de junho de 1855 é uma dessas datas importantes, cujo conhecimento nos acrescenta muito, sobretudo por estabelecer o vínculo entre o que precede e o que procede.

Em 1854 Théodore confirma, entre tantas vezes, nosso momento fundador e inicial sem o qual nada pode ser entendido. Todas as nossas celebrações, como o 21 de junho de 1855, devem ser celebradas e memorizadas no interior dessa data fundação que é 20 de janeiro de 1842:

"Hoje é o aniversário da fundação do nosso Sion. Foi neste dia que o pensamento de Sion foi trazido à terra, não por anjo, nem por um arcanjo, nem pelos apóstolos, mas pela própria Mãe de Deus"[3].

Elio Passeto, nds

Jerusalém, junho 2018

[1]. Carta de Marie-Alphonse a Théodore, 24 de agosto de 1842.

[2].  Mes souvenirs, p. 213-214.

[3]. Théodore, 20 de janeiro de 1854.

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