Solenidade do Nascimento de São João Batista

Is 49, 1-6 / Sl 96,1-2. 3-4. 5-6. 7 / At, 13,22-26 / Lc 1,57-66.80

 São João Batista é aquele de quem disse Nosso Senhor: entre os nascidos de mulher não há maior que João; entretanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele (Jo 7, 28). Com exceção de Jesus e Maria, São João Batista é o único santo cuja natividade celebramos liturgicamente. Este fato aponta para a grandiosidade do precursor do Senhor: era alguém enviado por Deus para dar testemunho da luz, isto é, para apontar aos seus contemporâneos a pessoa do Salvador, aquele que é a verdadeira luz que ilumina a todos (Jo 1, 9). Deus envolveu a vida de João Batista em uma aura de mistério e santidade: seu nascimento implicou uma aparição angélica no templo de Jerusalém, seu pai ficara surdo-mudo por nove meses, o nome que recebera era estranho ao patrimônio onomástico de sua família, e seu significado apontava a misericórdia de Deus, seu crescimento e sua juventude deram-se longe dos burburinhos das cidades e vilarejos, numa vida envolta em silêncio e adoração, e finalmente coroada com o martírio. São João Batista é um exemplo perfeito de espírito profético: sua boca era uma espada afiada (Is 49, 2) pela qual teve de pagar com a própria vida (Mc 6, 16-29); apontou para Cristo, sobre quem disse: Importa que ele cresça e que eu diminua (Jo 3, 30). O espírito profético de São João Batista está vivo na Igreja, a qual também existe para dar testemunho da luz. E a sua voz, que é a voz daquele que clama no deserto (Mc 1, 3), continua a ressoar pelo ministério da Santa Igreja, convidando os todos à conversão, a abrirem-se Àquele que vem depois de mim (Mc 1, 7).

Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor engrandecera a sua misericórdia para com ela, e congratulavam-se com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias. Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João. Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome. E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados. E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele. (...) E a criança crescia e se fortificava no espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.

Esta passagem sobre o nascimento de São João Batista está no contexto maior dos dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas, capítulos estes longos e densos, os quais, juntos com aqueles dois primeiros capítulos do Evangelho de São Mateus, integram o que na Igreja chamamos de As Narrativas da Infância (isto é, da infância de Jesus). O Papa Bento XVI, no seu livro A Infância de Jesus, comenta que a pergunta pela origem de Cristo, que percorre essas narrativas da infância, é uma pergunta, na verdade, pela sua identidade: quem é Jesus Cristo? Estas passagens, portanto, relativas a João Batista, sobre o seu nascimento, a sua circuncisão e a imposição do seu nome, podem ser lidas sob a mesma perspectiva: Que será este menino? – é a pergunta que o próprio texto se faz.

Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho.

Isabel, como Sara, esposa de Abraão, e como Ana, esposa de Elcana (1 Sm 1), está avançada em anos e não tem filhos; portanto, além da esterilidade que a acompanhou na juventude, também agora a velhice impõe-se como barreira entre ela e a gestação. Sara e Ana enfrentaram o mesmo impedimento duplo de suas esperanças. E assim como Deus sobrepôs-se a estas limitações humanas, visto que para Deus nada é impossível (Lc 1, 37), nos casos de Isabel e Ana, também agora com Isabel o seu poder concede-lhe o que por mera natureza seria impossível, a gestação. O espetacular milagre, porém, não tem como objetivo meramente satisfazer o sonho materno de Isabel, assim como também não o foi em relação a Sara e a Ana. Assim como pelo nascimento de Isaac e do profeta Samuel Deus operou um ato salvífico, isto é, uma intervenção na história a fim de movê-la na direção de seus planos, agora também, pelo nascimento de João Batista, Deus mais uma vez intervém na história de modo a cumprir a sua promessa de salvação mundial (Gn 12: 3).

Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor engrandecera a sua misericórdia para com ela, e congratulavam-se com ela.

O Senhor engrandecera a sua misericórdia para com ela. É digno de menção o modo pelo qual o Evangelista constrói esta sentença. O Senhor não apenas demonstra misericórdia ou apenas faz misericórdia; é dito, porém, que o Senhor engrandecera a sua misericórdia para com ela. Trata-se do mesmo verbo [ μεγαλυνω ] no começo do cântico de Maria neste mesmo capítulo: minha alma engrandece o Senhor (L 1, 46). Este engrandecimento se entende como um extravasamento, um transbordar, um irromper para além dos limites habituais; é assim a misericórdia do Senhor.

Congratulavam-se com ela. [ συνέχαιρον αὐτῇ ] Tomar parte na alegria do próximo, alegrar-se com o bem do próximo, é uma atitude espiritual nobre. São Paulo a recomendou aos romanos: “alegrai com os que se alegram, chorai com os que choram” – é o efeito da fraternidade, da comunhão espiritual. Esta alegria pela felicidade do próximo é o oposto da inveja, o sentimento satânico (Santo Agostinho), que é a tristeza sentida pelo sucesso do próximo.

No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias.

A circuncisão é o ritual sagrado, praticado no Antigo Testamento e praticado ainda pelos judeus, pelo qual o prepúcio de um bebê do sexo masculino é removido no oitavo dia após o seu nascimento. Em Hebraico, o rito é chamado brit milah [ ברית מילה ] que significa aliança da circuncisão – trata-se de um sinal que simboliza, que marca, a relação pactual que existe entre Deus e Israel conforme o mandamento dado a Abrahão:  Vós sereis circuncidados na carne de vosso prepúcio, e isto será um sinal do pacto que existe entre mim e vós – Gn 17,11. A tradição judaica procurou meditar sobre o significado profundo da circuncisão e chegou a intuições que valem a pena ser mencionadas aqui. A circuncisão seria um símbolo de sacrifício; neste caso, o que conta não é exatamente a remoção do prepúcio, mas o derramamento do sangue do menino. É evidente que a religião bíblia abomina o sacrifício humano; pela circuncisão, porém, o pequeno homem é consagrado a Deus pelo derramamento de algumas gotas de seu próprio sangue. Outros, todavia, na sua interpretação, deram mais ênfase ao prepúcio, o qual, em Hebraico, se diz orlah [ ערלה ], cujo significado literal é barreira. A barreira física do prepúcio simboliza a barreira espiritual que existe entre Deus e o homem, barreira esta que, em síntese, é o pecado (Gn 3, 6). A remoção física da barreira do prepúcio, isto é, a circuncisão, representa simbolicamente os esforços que o homem emprega para destruir a barreira que existe entre ele e Deus, ou seja, a circuncisão é o símbolo da conversão. A tradição também vê no oitavo dia o símbolo do vencer as limitações naturais, uma vez que o sete é o número simbólico da criação (Gn 1).

Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João.

O nome João, tão comum no Brasil e em Portugal, é a versão portuguesa do nome latino Iohannes, que por sua vez traduz o grego Ιωαννης, o qual traduz o hebraico יוחנן, que significa o Senhor agracia. Dois campos semânticos se discernem no termo. O primeiro é יו (io), que é uma espécie de abreviação para o tetragrama sagrado do nome de Deus: YHWH [ יהוה  ]. O segundo é חנן, que significa ser gracioso para com, ser favorável a, favorecer, agraciar. No versículo 58, ouvimos ou lemos que o Senhor engrandecera a sua misericórdia para com ela. Trata-se, pois, do mesmo tema: a misericórdia [ graça, favor ] do Senhor que se manifesta pelo nascimento prodigioso de João Batista.

Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome.

Deduz-se, portanto, que a prática usual era dar à criança nomes comuns ao patrimônio onomástico da família. Se o menino recebe um outro nome, fica destacado o peso e a importância deste novo nome.

E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse.

Em Lc 1, 20, o anjo Gabriel, como punição corretiva, faz Zacarias ficar mudo até que se cumprisse o que ele anunciara. Aqui, porém se vê que o pai de João Batista também ficou surdo. Não falar e não ouvir é um símbolo espiritual da não comunhão com Deus, uma vez que “a Palavra, no princípio, era Deus” (Jo 1, 1).

Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados.

De onde vem factualmente este “pasmo”? Zacarias, um sacerdote do templo de Jerusalém, estava há nove meses surdo e mudo, como efeito de uma visão que tivera enquanto oficiava dentro da casa de Deus, e o povo soube a respeito desta visão, como se diz em Lc 1, 22. O casal, que é de idade avançada, concebeu um filho. No nascimento, recebe um nome profético, emblema do que estava a acontecer espiritualmente. O “pasmo” é, portanto, e sobretudo, com o Senhor que está a manifestar uma ação em Israel.

E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus.

O versículo introduz o Cântico de Zacarias, que é rezado todos os dias pela Santa Igreja na oração de Laudes, dada a grandeza do que aí se expressa. A Liturgia de hoje, porém, omite o cântico. Agora Zacarias pode comunicar-se com os demais e, sobretudo, com Deus através de seu hino de louvor. O fato sugere uma forte relação entre o dom humano da comunicação e Deus mesmo; comunicação é, acima de tudo, comunicação com Deus. Uma vez que encontramos o interlocutor infinito, Deus, tornamo-nos mais hábeis para a comunicação com o próximo.

O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia.

O santo temor de Deus, como a humildade, é um daqueles sentimentos fundamentais para relação com Deus: o temor de Deus é o princípio da sabedoria. Trata-se de uma disposição interior de prontidão e vigília: estar pronto para Deus em todos os momentos.

Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele.

Esta pergunta não é sem resposta. É abundante o material sobre João Batista em todos os quatro livros do Evangelho. Os principais temas a seu respeito que podemos elencar são:

  1. A figura de Elias que retorna, Lc 1, 15 -15: ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem-disposto.
  2. Profeta que vai adiante do Senhor, Lc 1, 76: E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho.
  3. Um profeta maior que todos os profetas, Mt, 11, 7-11: Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos eu, mais que um profeta. É dele que está escrito: Eis que eu envio meu mensageiro diante de ti para te preparar o caminho. Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.
  4. A voz que clama no deserto, Jo 1, 19-23: Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu? Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo. Pois, então, quem és? Perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não. Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías.
  5. Testemunha da luz, Jo 1, 6-8: Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

E a criança crescia e se fortificava no espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.

Crescia se fortificava. O menino se desenvolvia tanto fisicamente [ crescia ] quanto espiritualmente [ no Espírito ]. Do Menino Jesus o Evangelista dirá que teve um crescimento “triplo”: em sabedoria, em estatura e em graça. O fortificar-se no Espírito pode designar duas coisas: a) João crescia no relacionamento com Deus sob influência das moções do Espírito Santo, uma vez que, segundo o anjo Gabriel no texto de São Lucas, desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo (Lc 1, 15); b) que João amadurecia psicologicamente até atingir a maturidade de caráter. Este último sentido merece ser destacado tendo em vista a situação contemporânea no ocidente, onde as pessoas crescem e se fortificam corporalmente, mas permanecem criancinhas no caráter, na personalidade. As crianças são egocêntricas e incapazes de sacrificar-se pelos outros; próprio do adulto, porém, é o heroísmo, o emprego de todos os esforços em prol do bem comum. É boa a oração que pede a Deus a graça de crescer nos sentimentos e pensamentos, deixar de ser criança e começar a ser adulto.

Nos desertos. O deserto, como a montanha, é um lugar do encontro com Deus; é um lugar de tentações e provações; é um lugar de silêncio, de sobriedade, de oração. O seu oposto espiritual é a cidade, não a cidade de Deus (Ap 21, 2), mas a cidade dos homens, onde o burburinho social impede as almas de retirarem para a presença de Deus. Para amadurecer e desenvolver-se espiritualmente, é preciso romper com ela: Jesus tomou o cego pela mão e levou-o para fora da aldeia (Mc 8, 23). Veja-se, hoje em dia, o apostolado do Cardeal Sarah em favor do silêncio contemplativo.

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