Domingo, 1 de Julho de 2018

Nesta solenidade, a Santa Igreja celebra os dois mais fortes pilares erguidos pelo Senhor Jesus Cristo na construção de sua Igreja, os apóstolos São Pedro e São Paulo. Qual é a relevância de tal comemoração? A Igreja é um corpo vivo, o Corpo Místico de Cristo, o Templo do Espírito Santo. Ela, porém, foi estabelecida por Deus através de um processo histórico e real: “Deus enviou seu Filho ao mundo” (Jo 3:17) e este Filho, por sua vez, estando no mundo, enviou as suas testemunhas (Mc 16, 15). Ao estabelecer e enviar os apóstolos, o Senhor deu-lhes a missão de propagar a sua Palavra e a sua graça (Mt 10, 1-20). É, portanto, por meio do ensinamento dos apóstolos que chegamos ao conhecimento de Deus, quem é Ele, o que fez por nós, e o que quer de nós. Por isso, o conhecimento que o cristão tem de Deus não é gnóstico, isto é, não é fruto de seu próprio labor intelectual; ao contrário, o conhecimento cristão de Deus é uma abertura na fé a uma Palavra que se manifestou na história concretamente. Ao comemorarmos São Pedro e São Paulo, pedimos a Deus que nos dê o dom da fé em sua Palavra, a qual viemos a conhecer por intermédio destes dois grandes apóstolos.

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Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes Jesus: E vós quem me dizeis ser ele? Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo! Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.  Mt 16, 13-19.

Esta passagem tem em seu centro a pessoa de “Simão, filho de Jonas”, o humilde pescador, discípulo de Jesus, a quem Deus faz uma revelação sobrenatural [não foi a carne nem o sangue que te revelou] concernente à pessoa de Jesus de Nazaré: é Ele o Cristo, o Filho do Deus vivo. O próprio Senhor, então, o transmuta em Pedro, a Rocha, isto é, o fundamento sobre o qual a Igreja se erguerá como uma construção realizada por Jesus mesmo. Pedro, ainda, gozará de uma autoridade espiritual quase que divina. Do pequeno pescador, Deus faz o líder espiritual de toda a terra [Te darei as chaves do Reino dos Céus]!

Chegando ao território de Cesareia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?

Cesareia de Filipe localizava-se a 40 quilômetros ao norte do Mar da Galileia. A menção dela aqui não pode deixar de ser significativa. Tratava-se de um local em que muitos templos pagãos haviam sido construídos sobre rochedos e até mesmo escavados dentro deles. Similarmente, Pedro, o pescador, seria um rochedo sobre o qual Cristo construiria a sua Igreja, que é o templo de Deus.

A expressão Filho do Homem não é rara no Antigo Testamento. Seu significado básico é simplesmente “ser humano”, usada para designar o homem em seu aspecto mais essencial. A expressão, todavia, ganha um maior peso nas visões de Daniel: Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído (Dn 7, 13-14). Ao empregar a si mesmo o título de Filho do Homem, o Senhor pode se referir a sua humildade, que o fez assumir a forma humana [“Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 5-7)], ou a esta figura messiânica no livro de Daniel.

Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.

O povo estava confuso e não entendia direito quem era Jesus de Nazaré. A menção, porém, de João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas, mostra que o povo O percebia como alguém munido de uma missão divina, alguém enviado por Deus, e diante de quem, portanto, não caberia indiferença.

Disse-lhes Jesus: E vós quem me dizeis ser ele?

Jesus quer que os discípulos se dirijam e Ele para dizer-Lhe quem eles dizem ser o Filho do Homem. A confissão de fé, acima de tudo, não se faz para si mesmo ou para os outros; nós confessamos Cristo a Cristo. Neste me dizeis entrevê-se toda a relação pessoal que existe entre os discípulos e o Senhor, uma relação que, no tempo da Igreja, é toda ela mística e espiritual, fundada na oração.

Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!

Esta é a confissão que, segundo o que o texto do Evangelho vai nos dizer adiante, foi inspirada por Deus mesmo a São Pedro. Aqui nós temos em síntese toda a nossa fé a respeito de Jesus: Ele é o Cristo e Filho de Deus vivo. “Cristo” ou “Messias” significa ungido: Jesus é o Messias que Israel esperava; ungido, porém, não com óleo, mas com a unção divina do Espírito Santo (Mt 3, 13-17). Deus é chamado vivo para que se diferencie dos ídolos, que são deuses mortos, isto é, inativos. O Deus de Israel, todavia, é vivo, ativo na história, e a maior de suas ações é o envio de seu Filho na encarnação do Verbo Eterno no seio da Virgem Maria. Jesus não é filho de Deus no sentido que os deuses pagãos gregos tinham filhos. Na mitologia grega, um deus tinha relações sexuais com uma mulher, da qual nascia um homem semideus. Quando se diz que Jesus é o Filho de Deus, a linguagem da fé quer dizer que o Eterno Filho de Deus, “Deus de Deus, luz da luz, gerado, não criado” como nas palavras do Credo Niceno-Constantinopolitano, assumiu uma natureza humana e se fez homem verdadeiramente, sem abandonar, contudo, a sua natureza divina: “Verdadeiro Deus e verdadeiro homem”.

Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus.

Nem a carne nem o sangue – trata-se de uma expressão semítica que significa “homem algum”. Carne e sangue são uma metonímia para significar homem.

Que te revelou – O termo grego utilizado aqui é ἀπεκάλυψέν [apecalipsen]. O substantivo referente a este verbo, αποκάλυψις, cujo significado é “revelação, é a primeira palavra do Livro de Apocalipse, que dá, inclusive, o título à obra. A ideia expressa pelo termo é “remoção da cobertura” de modo que o que está embaixo venha à mostra. É Deus quem tira o véu que encobre o mistério de seu Filho encarnado, Jesus Cristo. Por uma moção sobrenatural, Ele age sobre o intelecto de São Pedro e dá-lhe um conhecimento objetivo da realidade de Cristo e confirma-a com uma certeza indestrutível. Quando Deus nos concede o dom da Fé, é exatamente isso que acontece: ouvimos da Igreja a Palavra de Deus e o Espírito Santo a confirma dentro do nosso íntimo.

E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

A rocha é um símbolo bastante comum dentro da tradição bíblica. Deus é chamado a rocha de Israel: “Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou...” (2Sm 23:3). A rocha é o símbolo da firmeza, da imutabilidade, daquilo que atravessa os séculos sem em nada se alterar. Também os salmos nos falam da rocha: “Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!” (Sl 19:14). Nosso Senhor nos convida a edificarmos a nossa vida sobre a rocha, isto é, sobre a firmeza dos seus mandamentos: Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha...” (Mt 7, 24). A Igreja de Cristo, ou seja, a comunidade universal dos discípulos ao redor de Pedro, é, pois, construída sobre um fundamento perene, invencível, que atravessará os séculos do tempo sem se deteriorar. A Igreja tem uma natureza rochosa, isto é, invencível, indestrutível.

Edificarei. Cristo é o construtor principal da sua Igreja, não os discípulos. O verbo no futuro se abre para todos os séculos em que a Igreja foi-se desenvolvendo e cobrindo toda a face da terra. Ainda hoje, é Cristo quem edifica a Igreja, é Ele quem converte os corações e leva as pessoas a se unirem a seu Corpo Místico pelo qual a graça divina é derramada nos corações.

A minha Igreja. A Igreja pertence a Cristo e não aos homens. É ele o supremo responsável por ela.

As portas do inferno não prevalecerão. Aqui nós contemplamos aquela batalha que existe desde o início dos tempos, a batalha entre os descendentes de Caim e os desdentes de Abel (Gn 4), mais ainda, a batalha entre os descendentes da mulher e os descendentes da serpente enganadora (Gn 3). O Salmo 1 nos fala dos piedosos, que meditam sempre a Palavra do Senhor, e dos ímpios com seus deboches da piedade. Cristo, com sua encarnação e com o estabelecimento da Igreja, assume esta batalha para dar vitória aos filhos de Deus sobre os filhos do maligno.

Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.

As chaves e o poder de ligar e desligar são símbolos do que podemos chamar a “autoridade espiritual de Pedro”. Em outras passagens, podemos contemplar como Cristo Nosso Senhor concede outras formas de autoridade aos apóstolos. Mt 1, 1: “E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal”. Lc 10, 19: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum”. As chaves do Reino, porém, são dadas somente a Pedro, e parece o fato ligar-se àquela outra missão que Jesus lhe dá em Jo 21, 17: “apascenta as minhas ovelhas”. Jesus pode conceder esta autoridade uma vez que a Ele “foi dada toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28, 18). Este dom, porém, não se perdeu na história com a morte de Pedro. É fé da Igreja que o bispo de Roma exerce esta mesma autoridade petrina, pois o Evangelho não nos fala somente do que foi, mas acima de tudo, do que é.

Meditação

Lembrar a apostolicidade da fé é extremamente importante nestes dias em que uma moda gnóstica se faz cada vez mais presente nas sociedades ocidentais, a ponto, inclusive, de invadir os círculos cristãos. Essa moda gnóstica consiste no seguinte: a pessoa pensa, consciente ou inconscientemente, que ela pode atingir a Deus mediante os seus próprios esforços intelectuais, a ponto de se tornar totalmente autônoma em relação ao anúncio da Igreja. É preciso notar que a própria Igreja nos garante que Deus é acessível à razão humana, que os homens, meditando sobre a criação, podem chegar ao conhecimento do Criador. Este conhecimento, todavia, é limitado e imperfeito, e sujeito a muitíssimos erros. Deus, porém, revelou-se concretamente na história, uma história por Ele mesmo iniciada, por Ele mesmo conduzida, e que chegará, sob a sua moção, à consumação final. É a história da Igreja, que continua e estende sobre toda a terra a presença do Filho de Deus encarnado. Para conhecer a Deus, é preciso, pois, abrir-se a esta Palavra concretamente revelada na história, é preciso crer na pessoa de Jesus de Nazaré como o Filho de Deus; é preciso crer no que este Filho e o Espírito Santo ensinaram e comunicaram aos apóstolos. Abrindo-nos a esta Palavra, sobretudo Àquele que é Ele mesmo a Palavra, Cristo, recebemos a sua luz e somos santificados, plenificados e divinizados.

Oração

Senhor, dá-nos a graça de nos abrirmos cada vez mais a Ti e à tua Palavra, conforme a transmitiste aos apóstolos Pedro e Paulo. Amém.

 

Autor: Cristóvão Oliveira Silva, nds

capa: O Abraço de Pedro e Paulo, Pintor: Angelos. Data: séc. XV; Local: Mosteiro de São João o Teólogo, Patmos, Grécia.

Os textos do Evangelho Dominical são extraídos da Bíblia Ave Maria Edição Online com modificações nossas sobre a base do texto grego. Os demais textos bíblicos foram extraídos da Bíblia Almeida 1994.

 

 

 

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