A Virgem Contraventora

As aparições de Nossa Senhora representam uma profunda contravenção à ideologia subjetivista e idealista. 

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Cristóvão

6 de outubro de 2018

Esta é a descrição, segundo a narrativa do Barão Teodoro de Bussiéres, que o próprio Afonso Ratisbonne dá a respeito do que lhe acontecera em Roma naquele dia em que caminhava pela nave da igreja de Santo André dos Frades. 

 O acontecimento, ao longo da história da Congregação de Sion, é referido ora como “aparição”, ora como “visão”. Um ou outro ainda se refere a ele como “experiência teologal” e até mesmo como “revelação de Deus”. Um documento eclesiástico da época o classificou simplesmente como “milagre”. 
 
Qualquer que seja o nome que se dê ao acontecimento, é importante ter em mente a substância mesma do fato, e como este se enquadra no contexto maior da Igreja, sobretudo a Igreja da época, e do mistério cristão. 
 
O não tão longínquo assim século XIX é considerado amiúde como um século marial devido às várias aparições de Nossa Senhora, especialmente na Europa, e ao destaque que o culto da Virgem Maria ganhou no ensinamento da Igreja naquele período. As aparições marianas mais importantes no século XIX foram: a) aparição em Paris em 1830; b) aparição em La Salette em 1846; c) aparição em Lourdes em 1858. Há ainda outras aparições que não tiveram tanta repercução mundial; são elas: em Pontmain, França, em 1871; em Knock, Irlanda, em 1879; em Castel Petroso, Itália, em 1888. 
 
Há ainda outros fatos que fazem do século XIX um século marial. É em 1842, por exemplo, mesmo ano em que Afonso Ratisbonne veria a Virgem Maria em Roma, que o escritos de São Luís Maria Grignion de Monfort são achados, incluindo a sua obra magistral “Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Maria”, que é sem dúvida, hoje em dia, a obra mariológica mais influente no mundo católico. Em 1854, o Papa Pio IX proclamava o Dogma da Imaculada Conceição de Maria, isto é, o ensinamento de que a Virgem Maria nunca possuiu em si a concupiscência. Antes, porém, 1846, a Virgem Maria, sob o título de Imaculada Conceição, foi proclamada, pela Igreja, Padroeira dos Estados Unidos da América. Entre 1883 e 1902, o Papa Leão XIII publicaria nada mais que onze encíclicas sobre o poder do Santo Rosário. 
 
Foi, pois, em meio a esta atmosfera profunda e delicadamente mariana, que o fato de 20 de janeiro de 1842 se dera. Em meio a tantas outras aparições, era impossível que o milagre concedido a Afonso não fosse chamado, também ele, de “aparição”. De fato, há algo nele que se parece com aqueles outros fatos históricos aos quais a Igreja deu o nome de “aparições”, e que justificaria, portanto, e em certa medida, esse título. Esse algo é precisamente o aspecto histórico da questão. O que aconteceu em 20 de  janeiro de 1842 na igreja de Santo André dos Frades não foi somente uma movimentação subjetiva em Afonso; foi algo também presente na realidade objetiva: as lágrimas que Afonso derramava ali eram lágrimas de verdade e não lágrimas simbólicas. 
 
O que se quer dizer quando sublinhamos que estas intervenções de Deus na história da Igreja são “históricas” e não meramente subjetivas? É verdade, todavia, que, nestas assim chamadas “aparições” de Nossa Senhora, apenas os videntes a podem ver; o que nos levaria a afirmar, em um primeiro juízo, que tais fenômenos seriam puramente de ordem subjetiva. O caso é que a percepção de mundo, a “mundividência” como a chama a Filosofia, nas sociedades ocidentais de hoje em dia são profundamente materialistas: julga-se que a realidade é tão-somente um composto físico-químico que cabe às ciências empíricas conhecer, descrever e manipular. 
 
Há, todavia, outras formas de percepção do mundo que são mais amplas, complexas e holísticas. E temos de partir delas para compreender as afirmações, e as realidades descritas por estas afirmações, que acerca do mundo faz a Palavra de Deus. Se cremos, por exemplo, que existem anjos conosco a nos ajudar em nosso dia a dia, temos de admitir, necessariamente, que o mundo é muito mais que um composto físico-químico. A realidade deve-se compor, pois, de várias camadas, as quais, ainda que invisíveis aos olhos físicos, poderiam, contudo, ser admitidas pela perscrutação do espírito.
 
Se Nossa Senhora vem a terra em certas ocasiões conversar com certos indivíduos, e até mesmo interagir corporalmente com eles, Santa Catarina Labouré, por exemplo, pôde debruçar-se sobre os joelhos da Virgem Maria quando esta se sentava em uma cadeira, ainda que tais acontecimentos estejam alheios aos olhos dos outros, eles são, contudo, verdadeiros, desenrolando-se em extratos desconhecidos da realidade, e  provando-se pelos efeitos visíveis de sua ação, a saber, os milagres que se operam em tais aparições. 
 
Se nós olharmos o contexto ideológico da Europa no século XIX, nós vamos compreender que as aparições marianas foram como que uma “contravenção” às modas filosóficas da época. O século XIX foi um período em que as doutrinas subjetivistas e idealistas que vinham sendo “chocadas” no século XVIII, depois de romper a casca do ovo, cresciam e se fortaleciam nos meios culturais. 
 
Este pintinho ideológico era o seguinte: a sociedade, por influência de certos filósofos, começou a admitir a ideia de que o ser humano não seria capaz de apreender a realidade objetiva do mundo em que ele se insere; tudo aquilo que o homem julga ser conhecimento do mundo não passaria, na verdade, de representações mentais; o ser humano só conheceria os pensamentos que ele tem da realidade, mas não a realidade mesma; e como não se pode ter certeza de que o mundo exterior existe, pois a única coisa que se conhece são as as imagens mentais que acerca dele fazemos, logo, pouco importando se o mundo exterior existe de fato ou não, a realidade em que vive cada pessoa é, em última análise, ela mesma na sua mente ou espírito. 
 
Ainda segundo esta forma de pensar, se uma pessoa “discorda” da ordem estabelecida do universo, universo este que ela julga ser a mente dela, o que ela precisa fazer é simplesmente mudar o pensamento que ela tem da realidade. Se alguém não gosta dos judeus, basta considerá-los animais e jogá-los em campos de concentração e matá-los aos milhões, pois, afinal de contas, é a mente que diz se um ato é bom ou mal, e não os atos em si mesmos — isso é o Nazismo. Se se considera que bebês que crescem nos ventres de suas mães não são seres humanos, então tudo bem, podemos matá-los — isso é a ideologia abortífera. Se um homem quer ser uma mulher, basta ele dizer para si mesmo: “eu sou uma mulher” , pois, afinal de contas, o que importa é o pensamento e não o mundo real, o qual nem sabemos se existe mesmo — isso é a ideologia transgenderista. 
 
Os frutos da ideologia idealista e subjetivista mostram quão insana e errada ela é. 
 
Ora, o fermento destas ideias verdadeiramente malucas estava agindo intensamente no século XIX. As ameaças que elas traziam para a vivência da religião eram enormes. Se o caminho do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo se apresentava tão difícil, o caminho da cruz, então bastaria modificá-lo na mente, já que o Evangelho seria tão-somente uma maneira subjetiva de encarar a vida, e, como subjetividade, não teria nenhuma validade universal e nenhum poder de obrigar. 
 
As aparições de Nossa Senhora são uma profunda contravenção a esta mentalidade. Elas se asselham com o que aconteceu na época de Jesus, quando os seus milagres exteriores e visíveis questionaram radicalmente o modo de pensar de muitos: Deus age no mundo sem pedir licensa a intelectuais, ricos e autoridades, e sem pedir a opinião deles. As aparições e Nossa Senhora no século XIX têm o seguinte significado: vede: Deus existe, o Evangelho é verdadeiro, eu, a Virgem Maria, estou no céu e ouço as vossas orações, o mundo existe mesmo, foi criado por Deus, e vós tendes de vos submeter à ordem da realidade e não planejar revoluções. As aparições de Maria no século XIX foram não apenas um apelo de conversão a Deus, mas também um pedido de conversão à realidade objetiva da criação. 
 
Eu penso que o que aconteceu em 20 de janeiro de 1842 em Santo André dos Frades deve ser compreendido também dentro deste contexto amplo do que estava acontecendo no mundo e do que viria depois. O dom da fé que foi divina e instantaneamente concedido ao jovem Afonso, o milagre de sua conversão por intercessão de Nossa Sennora, atesta a ação de Deus que age no mundo segundo o padrão que Ele mesmo anunciara: “E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim.” Jo 12, 32. 
 
(1) De Bussiéres, Théodore. The Conversion of Marie-Alphonse Ratisbonne. New York: Edward Dunigan & Brother, 1955. 

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