26 Horas até Auschwitz

Os alunos e adultos ali presentes têm um objetivo bem estabelecido: pensar a Shoah e as suas consequências éticas.

Maycon | 25 de novembro de 2018

Domingo, 18 de novembro de 2018, por volta das 14h30 um trem com 497 pessoas deixava a Gare de Leste na cidade de Paris com destino à cidade de Oswiecim, na Polônia. Dentre estes passageiros alunos de diversos estabelecimentos escolares da França, principalmente as Escolas de Sion de Paris, Grandbourg e Marselha, jovens com idade entre 14 e 18 anos. Entre eles também estavam três religiosos de Sion (Carlos Vasconcelos, Maycon Custódio e Nayon Nigel) convidados para participar e acompanhar os trabalhos. Tratava-se da 11ª Edição do Trem da Memória, cujo objetivo é fazer viva a memória da Shoah entre os estudantes franceses e adultos, em vista de responsabilidade a ser assumida por eles na sociedade.

O projeto Trem da Memória surgiu em 1995, impulsionado pela Irmã Louise-Marie, da Congregação de Nossa Senhora de Sion e pelo Pe. Jean Dujardin, da Congregação dos Oratorianos e pela leiga Martine Querette.

Realizado a cada dois anos, o Trem da Memória é o coroamento de uma série de atividades realizadas entre os alunos de 11 escolas francesas, que durante doze meses se preparam para esta viagem através de aulas, discussões, seminários. Por ser uma viagem bastante concorrida, os alunos são selecionados a partir de vários requisitos, tais como a apresentação de carta de motivação, real interesse na questão da Shoah e comprometimento com o tema.

Apesar de reunir amigos, colegas num mesmo trem, onde a alegria é visível por todos os alunos, logo se percebe que esta viagem não é turística. Os alunos e adultos ali presentes têm um objetivo bem estabelecido: pensar a Shoah e as suas consequências éticas.

Durante a viagem de ida, houve diversas animações realizadas pelos próprios alunos. Cada escola tinha em torno de 10 minutos para apresentar um tema que era ouvido por todos no trem. Os temas eram variados, tais como, a implicação econômica e política da subida de Hitler ao poder, o processo de morte de incapazes na Alemanha Nazista chamado de Aktion T4, a condição das crianças nos campos nazistas, os justos entre as nações, testemunhos de sobreviventes, a cultura após Auschwitz, etc. Os temas foram previamente preparados pelos alunos em colaboração com um professor.

A viagem de ida durou cerca de 26 horas. O trem da SNCF por vezes devia parar seu trajeto para dar passagem a trens comerciais, o que fez com que diversas vezes nosso trem ficasse parado no meio do “nada” ou em alguma estação em um país do leste europeu. A chegada a Oswiecim se deu na segunda-feira, dia 19, no fim da tarde. Os alunos ficaram hospedados no Centro de Diálogo e Oração de Oswiecim, que fica exatamente em frente ao Campo de Concentração de Auschwitz I.

Na terça-feira, dia 20, estava programada a Caminhada da Esperança, partindo do Centro de Diálogo em direção a Birkenau, distância de 2,5 km. Foi impressionante ver cerca de 500 pessoas, na maioria jovens, caminhando em absoluto silêncio. Percebia-se na introspecção dos alunos que realizar aquela caminhada, naquele lugar, tinha um significado especial e, ao mesmo tempo, havia um profundo respeito pelo lugar para aonde estávamos indo.

Não era um lugar qualquer, mas um lugar que faz questionar a consciência humana. Ao chegar ao campo, todos foram divididos em pequenos grupos para fazer a visita do local, acompanhados de um guia do próprio campo, o que durou cerca de três horas. Ao fim das visitas, todos se concentraram no Memorial Internacional para uma celebração.

Novamente, deve-se notar o silêncio zeloso dos 500 participantes. No chão, havia uma estrela de Davi confeccionada com velas e também a palavra Zahor (Lembra-te) escrita em hebraico. Ao final da celebração, cada um devia pegar uma vela e levá-la consigo, simbolizando a fragilidade da vida ,e ao mesmo tempo, o desejo de somar à construção da fraternidade entre os homens.

A palavra Zahor é como que o lema do Trem da Memória. Ela simboliza, em primeiro lugar, a memória que se faz de todas as vítimas da catástrofe; mas, ao mesmo tempo, é um compromisso que cada um faz para manter acessa a vigilância para que tal mal não se repita. “Fazer memória traz responsabilidades. Deve-se honrar dos que se foram a memória para construir o futuro, o nosso futuro”, disse o padre oratoriano Jérôme Prigent, presidente da Associação do Trem da Memória,  que acompanhava o grupo.

Um momento marcante foi a oração do Kaddish, recitada pelos alunos judeus que participaram do Trem da Memória. Após isso, os alunos passaram a ler os nomes de pessoas que foram assassinadas durante a Shoah. Há um simbolismo importante neste gesto. Primeiro, os próprios alunos recolheram alguns nomes e os escreveram em cartolinas que formavam um rolo (como a Torah) e conforme iam desenrolando o enorme rolo os alunos iam-se revezando para fazer a leitura dos nomes. Imaginem a emoção dos alunos judeus ao lerem e escutarem os nomes de seus ancestrais naquele momento!

A celebração se encerrou também de forma simbólica. Após estudarem a tragédia da Shoah, após conhecerem a olho nu o lugar onde tudo aconteceu, após fazer memória dos mortos, estava na hora de ir embora, dar as costas ao Campo. Mas antes disso, os alunos deviam assumir um importante compromisso. Eles estenderam nos trilhos uma enorme faixa de tecido costurada por eles próprios durante a viagem no trem, onde estava escrita em todas as línguas conhecidas a expressão “Lembra-te” (Zahor, em hebraico).

O lugar onde se desenrola esta faixa é altamente simbólico. Exatamente em cima da rampa de acesso dos trens, a poucos metros das câmaras de gás e dos fornos crematórios onde um número sem fim de pessoas encontrou a morte logo nos primeiros momentos em que chegaram aos campos.

Deixar o campo sim, esquecer o que ali se passou, jamais! “A Shoah é o contrário de todos os valores humanos e divinos. Aqui vemos o mal que a humanidade foi capaz de realizar. E todos fomos afetados por este mal. Os Nazistas fizeram da Shoah um tipo de anti-Torah, a inversão absoluta de todos os valores da humanidade. Por isso, Auschiwtz nos reenvia à nossa própria vida e a necessidade de estarmos de maneira viva diante dos outros. Lembra-te…”, foi dito numa das emissões.

Após o desenrolar da faixa, os alunos deixaram o campo em silêncio. Na noite deste mesmo dia, os alunos participaram de uma mesa redonda em um teatro da cidade, com participação de uma rabina, professores e também da Irmã Annia, da Congregação de Sion.

Na quarta-feira (21), os participantes foram até o Campo de Concentração I, Auschiwtz, onde há a famosa inscrição: “O trabalho liberta”. Divididos em grupos, eles passaram cerca de três horas no campo sendo acompanhados por um guia do próprio museu. Ainda nesse mesmo dia, houve uma visita à sinagoga no centro da cidade e também à Judenrampe (rampa construída especificamente para facilitar a chegada dos trens com judeus vindos de várias partes da Europa).

Após momentos intensos vividos em Oswiecim, era hora de voltar para casa. O trem trazendo os participantes de volta a Paris deixou a estação da cidade por volta das 18h45. Durante a viagem de volt,a aconteceram novas apresentações de temas preparados pelos alunos, assim como uma mesa redonda onde os alunos elaboraram questões respondidas pelos professores, cristãos e judeus. A chegada a Paris aconteceu depois de mais de 26 horas de viagem.

Algumas Considerações

O projeto Trem da Memória é uma atividade de grande valor para os Colégios de Sion na França. É um projeto que toca de maneira muito concreta a existência judaica no último século.

Como não se pode falar em Judaísmo sem tocar na questão da Shoah, o Trem da Memória de maneira concreta, pedagógica e profunda ajuda os alunos dos colégios de Sion (e outros) a compreenderem a Shoah e a se engajarem no compromisso da Memória e também a conhecerem o judaísmo atual e percebê-lo como uma realidade viva.

Exemplo disso, entre os diversos adultos acompanhantes, estavam  ex-alunos que se colocaram à disposição para ajudar na organização e realização do projeto, inclusive judeus.

Outro destaque importante é a valorização que os alunos fazem de sua escola e da história de sua escola (no caso dos Colégios de Sion) ao saber que personalidades da Congregação estiveram diretamente envolvidas junto aos judeus durante a Guerra. Entre os temas dos programas, não faltaram menções às Religiosas de Sion, como Madre Marie Francia, e aos Religiosos de Sion, como Pe. Devaux, que salvaram judeus da perseguição, além de diversas menções às casas dos Irmãos e Irmãs de Sion na Rue Notre-Dame des Champs como lugares de salvamento de judeus.

Os alunos dos colégios conhecem, valorizam e transmitem os valores e as ações realizadas pelas Irmãs e Irmãos de Sion. Num dos dias, os irmãos foram convidados a participar da avaliação do dia realizada pelo Colégio Sion Paris. No momento da apresentação dos religiosos, os alunos ficaram surpresos ao descobrirem que os Irmãos de Sion, da mesma Congregação do Pe. Devaux, moravam a poucos metros do colégio em que eles estudam.

Esta viagem, longe de ter sido uma viagem turística a um lugar distante, foi uma experiência intensa de compromisso com a memória da Shoah e respeito com o fato histórico. Pode-se imaginar que um ambiente com mais de 450 adolescentes não seja propício para fazer tal experiência, mas engana-se, pois o que vimos claramente foram alunos muito bem preparados para esta viagem e que assumiram a responsabilidade de se conhecer os lugares onde tais fatos históricos se passaram.

É louvável igualmente a organização da viagem, desde questões logísticas, até mesmo as apresentações que foram todas realizadas pelos próprios alunos. O comprometimento e preocupação deles para que tudo acontecesse bem, seu interesse pelas questões debatidas, suas dúvidas e questionamentos demonstram que a Shoah é um tema importante para eles, assim como o Judaísmo – seja o do tempo de Jesus e dos dias atuais.

Por fim, percebemos com alegria que a vocação e a história de Sion é uma vocação viva e que desperta interessa nos jovens. Isso é um claro sinal de esperança para nós e uma confirmação daquilo que Pe. Theodoro dizia: “Quanto mais caminho, mais me convenço de que a obra de Sion é obra da atualidade” (15/03/1859).

Caso se interesse por mais informações sobre o Trem da Memória, acesse http://traindelamemoire.fr/ ou siga a página no Instagram: traindelamemoireofficiel

Maycon Custódio

Irmão de Sion. Vive em Paris.

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