Segundo Domingo do Advento

Frei Joel Marcos Moreira | 9 de dezembro de 2018

O tempo do Advento é, antes de tudo, um tempo de espera e, como bem sabemos, esperar não é uma tarefa muito fácil, especialmente nos nossos dias em que quase tudo é mensurado a partir da duração de tempo. Os recursos que utilizamos cotidianamente são avaliados por sua praticidade exatamente porque precisamos ou queremos poupar tempo. Desta maneira, esperar exige paciência que, por sua vez, pode causar inquietação e ansiedade.

Personagens bíblicas, contudo, conseguem vislumbrar uma perspectiva muito mais positiva com relação à espera. Os profetas, por exemplo, demonstram que este é o tempo ideal para o amadurecimento e o cultivo da esperança (que coincidentemente ou não, tem em português o mesmo radical da palavra “espera”¹). Isto é, neste tempo passamos a ter consciência de que algo nos falta; e também é esta a ocasião ideal para deixar crescer em nós o cultivo da busca da realidade desejada.

É nesta lógica que a primeira leitura deste domingo se insere. Ela nos fala de uma época em que o povo de Israel se encontrava exilado na Babilônia, sendo forçado a estar distante da terra que o próprio Deus lhe prometera, sem ao menos a possibilidade de um lugar físico para oferecer seus sacrifícios e, assim, poder cumprir com os mandamentos divinos. É neste ambiente de crise que o profeta Baruque proclama o impensável: a glória e o esplendor de Jerusalém. “Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno.”

Por que, afinal, cobrir de elogios e honras uma cidade que se encontra destruída e ocupada por estrangeiros? Longe de ser irônico com relação à própria situação de miséria, o profeta está vislumbrando o futuro de seu próprio povo que ainda se encontra oprimido. A exaltação da Cidade Santa reflete, na verdade, a iminente vitória e retorno daqueles que a ela foram destinados por promessa divina.

A visão profética não é simplesmente uma visão otimista ou uma palavra de conforto num tempo de aridez. Na verdade, o profeta que reconhece a iniquidade do povo como causa de sua própria flagelação é o mesmo que anuncia a vitória como resultado da fidelidade de Deus: “Saíram de ti, caminhando a pé, levados pelos inimigos. Deus os devolve a ti, conduzidos com honras, como príncipes reais.” De fato, a ousadia de se falar de esperança num tempo de crise é próprio daquele que está seguro de que aquilo que se espera é garantido.

Algo parecido pode ser observado na carta aos Filipenses (2ª leitura). Paulo se encontra preso, provavelmente em Roma. A perseguição, contudo, não lhe representa intimidação ou sinal de desistência. A confiança na providência divina mais uma vez se faz presente e a fidelidade de Deus para com sua promessa é comprovada na comunhão dos fiéis e no anúncio do Evangelho. A segurança que a mensagem profética transmite é baseada na esperança da volta do Messias: “Tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus.”

Um outro elemento interessante nas leituras de hoje é a historicidade da esperança profética. A Palavra de Deus não se limita em descrever a realização sobrenatural da profecia, mas menciona antes a situação factível daquele que espera. Ou seja, importa ao escritor sagrado transmitir não somente os feitos de Deus na história da humanidade, mas também a circunstância humana daquele que espera em Deus e deposita Nele seu destino e segurança. Isto é particularmente perceptível no Evangelho.

Ao começar a ler o Evangelho deste domingo, qualquer desavisado poderia ser levado a crer que se trata do relato do nascimento de Jesus ou, ao menos, de um evento específico qualquer: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes…” Com tantos nomes de regiões e pessoas, é visível a intenção do evangelista de situar o evento na história (num tempo e espaço determinado). Qualquer um poderia esperar um grande evento a ser descrito nas linhas seguintes.

No entanto, o texto segue: “…foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.” De fato, o evangelista demonstra que seu foco aqui não está no nascimento de Jesus ou qualquer realização de alguma profecia, mas sim na exortação profética de João Batista em vista da promessa Messiânica: “preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas” pois “todas as pessoas verão a salvação de Deus”.

O texto bíblico deixa claro que a esperança profética é tão fundamental na história da salvação quanto a realização da profecia. O Deus de Israel se revela não só na glória e no esplendor da Jerusalém pós-exílio, mas também nas palavras esperançosas de um cativo da Babilônia. Sua fidelidade se expressa não só na vinda do Messias, mas também nas palavras de exortação e confiança de um prisioneiro em Roma, detido pela perseguição.

A festa da encarnação que celebraremos em breve é  precedida pela exortação de alguém que, mesmo estando no deserto, símbolo de aridez e impossibilidade de vida, espera pela vinda Daquele que tem palavra de vida eterna. É o próprio Salmo que nos recorda: “Os que lançam as sementes entre lágrimas ceifarão com alegria.” A voz daquele que grita no deserto deve ser refletida na nossa voz hoje, de cristãos chamados a ser profetas e testemunhas da fidelidade de Deus mesmo nos tempos de crise.

E só é capaz de vislumbrar o tempo da graça messiânica, aquele que espera e escuta a voz de Deus no silêncio de seu deserto interior. É nesta perspectiva que concluo citando um trecho dos sermões medievais do Beato Guerric D’Igny: “Por mais que uma tempestade de batalhas possa assediá-lo, por mais que você sinta a falta de sustento no deserto e fraqueza de espírito, nunca pense em voltar para o Egito. O deserto te sustentará com maior abundância através do maná.”²

 

  1. Enquanto que, em português, as palavras “esperança” e “espera” são parecidas, o mesmo não ocorre em outras línguas: espérance-attente, hope-waiting, etc.
  2. Guerric, D’Igny. Vol I. Paris: les éditions du cerf, 1970, p. 135.

1ª Leitura – Br 5,1-9

 
 
Deus mostrará o teu esplendor.
Leitura do Livro do Profeta Baruc 5,1-9
 

1Despe ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição,
e reveste, para sempre, os adornos da glória
vinda de Deus.
2Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e
põe na cabeça o diadema da glória do Eterno.
3Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém,
a todos os que estão debaixo do céu.
4Receberás de Deus este nome para sempre:
‘Paz-da-justiça e glória-da-piedade’.
5Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto
e olha para o Oriente!
Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo,
desde o poente até o levante,
jubilosos por Deus ter-se lembrado deles.
6Saíram de ti, caminhando a pé,
levados pelos inimigos.
Deus os devolve a ti, conduzidos com honras,
como príncipes reais.
7Deus ordenou que se abaixassem
todos os altos montes e as colinas eternas,
e se enchessem os vales, para aplainar a terra,
a fim de que Israel caminhe com segurança,
sob a glória de Deus.
8As florestas e todas as árvores odoríferas,
darão sombra a Israel, por ordem de Deus.
9Sim, Deus guiará Israel, com alegria, 
à luz de sua glória, manifestando a misericórdia
e a justiça que dele procedem.


Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 125,1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R. 3)

 
R. Maravilhas fez conosco o Senhor,
exultemos de alegria!

1Quando o Senhor reconduziu nossos cativos,*
parecíamos sonhar;
2aencheu-se de sorriso nossa boca,*
2bnossos lábios, de canções.R.

2cEntre os gentios se dizia: ‘Maravilhas*
2dfez com eles o Senhor!’
3Sim, maravilhas fez conosco o Senhor,*
exultemos de alegria!R.

4Mudai a nossa sorte, ó Senhor,*
como torrentes no deserto.
5Os que lançam as sementes entre lágrimas,*
ceifarão com alegria.R.

6Chorando de tristeza sairão,*
espalhando suas sementes;
cantando de alegria voltarão,*
carregando os seus feixes!R.

2ª Leitura – Fl 1,4-6.8-11

 
Ficareis puros e sem defeito
para o dia de Cristo.
Leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses 1,4-6.8-11

Irmãos:
4Sempre em todas as minhas orações
rezo por vós, com alegria,
5por causa da vossa comunhão conosco
na divulgação do Evangelho,
desde o primeiro dia até agora.
6Tenho a certeza de que
aquele que começou em vós uma boa obra,
há de levá-la à perfeição até ao dia de Cristo Jesus.
8Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós,
com a ternura de Cristo Jesus.
9E isto eu peço a Deus:
que o vosso amor cresça sempre mais,
em todo o conhecimento e experiência,
10para discernirdes o que é o melhor.
E assim ficareis puros e sem defeito
para o dia de Cristo,
11cheios do fruto da justiça
que nos vem por Jesus Cristo,
para a glória e o louvor de Deus.

Palavra do Senhor.

Evangelho – Lc 3,1-6

Todas as pessoas verão a salvação de Deus. 
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 3,1-6
 
1No décimo quinto ano do império de Tibério César,
quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia,
Herodes administrava a Galiléia,
seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide,
e Lisânias a Abilene;
2quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes,
foi então que a palavra de Deus
foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.
3E ele percorreu toda a região do Jordão,
pregando um batismo de conversão
para o perdão dos pecados, 
4como está escrito
no Livro das palavras do profeta Isaías:
‘Esta é a voz daquele que grita no deserto:
‘preparai o caminho do Senhor,
endireitai suas veredas.
5Todo vale será aterrado,
toda montanha e colina serão rebaixadas;
as passagens tortuosas ficarão retas
e os caminhos acidentados serão aplainados.
6E todas as pessoas verão a salvação de Deus”.

Palavra da Salvação.
Fonte dos textos bíblicos: CNBB
http://liturgiadiaria.cnbb.org.br/app/user/user/UserView.php?ano=2018&mes=12&dia=9

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