Terceiro Domingo do Advento

Tiago Rangel Cardoso | 14 de dezembro de 2018

Alegrai-vos!

Caros irmãos e irmãs, “gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete.” Começo esta reflexão citando o início da segunda leitura na sua versão em latim, ilustrando assim o centro da liturgia a ser celebrada neste domingo e durante a semana. O chamado domingo Gaudete nos lembra a nos alegrar não somente durante o tempo do Advento mas em nossas vidas, pois Deus de fato está conosco; o Emanuel se encarnou para ser a Shekina[1] de Deus no meio de seu povo. Não fazemos, contudo, um intervalo na preparação para o Natal, pelo contrário, adicionamos a essa preparação uma característica muito natural aos fieis e seguidores de Jesus Cristo: a alegria.

As leituras, antífonas e orações da liturgia nos levam ao contentamento em Cristo da mesma maneira que os símbolos, tais como os paramentos litúrgicos (casula, estola) e a vela da coroa de Advento que será acesa neste terceiro domingo, mostram o mesmo espírito de júbilo presente na Igreja.

Em nossa primeira leitura, duas palavras chave são essenciais: a alegria e a espera messiânica. Segundo os estudiosos, o profeta Sofonias foi contemporâneo do profeta Jeremias. Ambos compartilhavam a mesma situação dramática: o reino de Israel ao norte tinha sido tomado pelo império Assírio. Agora os inimigos se voltavam para o reino de Judá, ao sul, que tinha por capital Jerusalém; é ao povo nessa cidade que o profeta se dirige em suas pregações. Os dois primeiros capítulos de Sofonias e o livro do profeta Jeremias, incluindo as Lamentações, mostram a desgraça no reino do norte e admoestam o povo que o mesmo estava prestes a acontecer em Judá. Todavia, esses versos do capítulo 3 de Sofonias nos apresenta uma visão bastante otimista com fortes elementos messiânicos. Nós lemos, por exemplo: “o rei de Israel, o Senhor, está em nosso meio.” (Sof 3:15) Embora não citado nominalmente, no contexto messiânico o rei certamente se refere ao rei Davi, o qual unificou as tribos de Israel em um só reino na sua capital Jerusalém. O termo “ naquela dia” (em hebraico ביום ההוא BaIom haHu’) é outra expressão messiânica encontrada em diferentes livros da bíblia hebraica, algumas vezes descrito como um dia catastrófico outras vezes como um dia sereno. Em ambos os casos se refere à chegada do messias. Uma terceira palavra relacionada ao messias é “salvador”. No contexto profético, um salvador deveria vir “naquele dia” para restaurar o próspero e glorioso reino de Israel que uma vez tinha sido governado por Davi. Em suma, esses sãos adjetivos que, com outras, criaram a figura e espera  do messias no decorrer da história do povo de Israel.

A segunda palavra principal em nossa reflexão é a alegria. Embora o povo estivesse numa situação de aflição, o profeta exorta a filha de Sião, outro sinônimo para o povo de Israel, a se alegrar e gritar de alegria. Apesar de tudo, havia esperança pois “o Senhor, teu Deus, está em seu meio” e, portanto, nenhum medo ou desânimo deveria prevalecer.

Na sequência, no lugar do salmo, nós temos um texto do profeta Isaías como responsório, o qual vai ao encontro da primeira leitura. Embora de um período anterior, o texto mantém os dois elementos já mencionados enfatizando o salvador e a salvação, a alegria e o júbilo.

O texto evangélico, por sua vez,  parece não ter ligação com esse tema numa primeira impressão. De fato, não nenhuma referência imediata sobre a alegria. Porém, quando olhamos para figura de João Batista, lembramos uma tradição judaica segundo a qual, antes da vinda do messias, Elias deveria retornar ( cf 2 Reis 2: 11). As figuras nos Evangelhos têm como base as figuras bíblicas hebraicas. Enquanto figura, João Batista pode ser comparado então ao profeta Elias. De fato, João é apresentado instruindo aqueles que vieram a ele perguntando “o que devemos fazer?”. João age como os profetas que antes dele tentaram admoestar o povo sobre seu comportamento a fim de não serem influenciados pela corrupção ou idolatria dos deuses pagãos.

Sobre uma coisa estamos certos, João não é o Messias. Ele não afirma isso literalmente mas quando questionado se seria ele o Cristo ( o messias, o ungido, o escolhido), João responde que um mais poderoso viria. João batizava com água. Na verdade, a imersão na água era um ritual judaico de purificação praticado várias vezes ao logo do ano e até mesmo hoje, antes do Shabat ou das principais Festas judaicas, diferentemente do Batismo cristão que feito de uma vez por todas. Sem nenhuma dúvida, o mais poderoso é Jesus e o fogo no qual Jesus batizaria foi interpretado pela Igreja como sendo o Pentecostes, também pode ser relacionado com a experiencia do Sinai significando de onde essa purificação viria.

Ainda de acordo com João, aquele que há de vir deverá limpar separando e pondo o trigo no cesto e a palha no fogo. Isso pode ser visto na perspectiva messiânica na qual, segundo a tradição judaica, o messias é caracterizado como sendo um juiz.

Finalmente, na segunda leitura da carta de Paulo aos Filipenses, de onde a Igreja tira o motiva da celebração “Gaudete”, segundo os estudiosos, Paula não teria conhecido Jesus pessoalmente. Mas após aceitar sua mensagem, Paulo acreditava que Jesus estaria prestes a retornar muito em breve. Daí a razão pela qual ele sempre faz um grande esforço exortando a comunidade a estar e manter-se pronta pois “o Senhor está próximo” e a qualquer momento Ele poderia voltar.

De igual maneira, somos todos chamados uma vez mais durante o tempo de Advento no qual, enquanto fazemos memorial do Cristo vivo e ressuscitado, a Igreja nos lembra que nossa esperança, o Emanuel que outrora se encarnou, voltará para estabelecer o reino de Deus em nosso meio. Por isso, constantemente nos alegremos.

 Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete. Modestia vestra nota sit omnibus hominibus: Dominus enim prope est. Nihil solliciti sitis: sed in omni oratione et obsecratione cum gratiarum actione petitiones vestræ innotescant apud Deum. Benedixisti Domine terram tuam: avertisti captivitatem Jacob.

[1] Palavra hebraica da tradição Judaica usada pelos rabinos para descrever, entre outras coisas, a presença de Deus na nuvem durante o êxodo.

1ª Leitura – Sf 3,14-18a

O Senhor, teu Deus, exultará por ti, entre louvores. 
Leitura da Profecia de Sofonias 3,14-18a
14Canta de alegria, cidade de Sião;
rejubila, povo de Israel!
Alegra-te e exulta de todo o coração,
cidade de Jerusalém!
15O Senhor revogou a sentença contra ti,
afastou teus inimigos;
o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti,
nunca mais temerás o mal.
16Naquele dia, se dirá a Jerusalém:
‘Não temas, Sião,
não te deixes levar pelo desânimo!
17O Senhor, teu Deus, está no meio de ti,
o valente guerreiro que te salva;
ele exultará de alegria por ti,
movido por amor;
exultará por ti, entre louvores,
18acomo nos dias de festa’.

Palavra do Senhor.

Salmo – Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R.6)

R. Exultai cantando alegres, habitantes de Sião
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!

2Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
3Com alegria bebereis no manancial da salvação. R. 

4e direis naquele dia: ‘Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime.R. 

5Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
6Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!’R. 

2ª Leitura – Fl 4,4-7

O Senhor está próximo.
Leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses 4,4-7
 

Irmãos:

4Alegrai-vos sempre no Senhor;
eu repito, alegrai-vos.
5Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens!
O Senhor está próximo!
6Não vos inquieteis com coisa alguma,
mas apresentai as vossas necessidades a Deus,
em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças.
7E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento,
guardará os vossos corações e pensamento
em Cristo Jesus.


Palavra do Senhor.

Evangelho – Lc 3,10-18

Que devemos fazer? 
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 3,10-18
 
Naquele tempo:
10As multidões perguntavam a João: ‘Que devemos fazer?’
11João respondia:
‘Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem;
e quem tiver comida, faça o mesmo!’
12Foram também para o batismo cobradores de impostos,
e perguntaram a João:
‘Mestre, que devemos fazer?’
13João respondeu:
‘Não cobreis mais do que foi estabelecido.’
14Havia também soldados que perguntavam:
‘E nós, que devemos fazer?’
João respondia:
‘Não tomeis à força dinheiro de ninguém,
nem façais falsas acusações;
ficai satisfeitos com o vosso salário!’
15O povo estava na expectativa
e todos se perguntavam no seu íntimo
se João não seria o Messias.
16Por isso, João declarou a todos:
‘Eu vos batizo com água,
mas virá aquele que é mais forte do que eu.
Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas
sandálias.
Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
17Ele virá com a pá na mão:
vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro;
mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga.’
18E ainda de muitos outros modos,
João anunciava ao povo a Boa-Nova.

Palavra da Salvação.

Fonte dos textos bíblicos: CNBB
http://liturgiadiaria.cnbb.org.br/app/user/user/UserView.php?ano=2018&mes=12&dia=16

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