Quarto Domingo do Advento

Ir. Cristóvão Oliveira Silva | 22 de dezembro de 2018

BENDITA ÉS TU ENTRE AS MULHERES E BENDITO É O FRUTO DO TEU VENTRE…

O objetivo primordial de um cristão enquanto tal é empregar todos os esforços que lhe são possíveis em uma busca diária e constante de configurar-se real e concretamente à pessoa adorável do Senhor Jesus Cristo, enfrentando com bravura todos os obstáculos que se interpõem entre ele e o Senhor. Para auxiliá-lo nesta batalha, Deus proveu a Igreja com vários meios de santificação: os sacramentos, a Palavra, a espiritualidade e muitos outros. Maria, nossa Mãe em Cristo, é um destes canais do Espírito. Com isso, perguntamos: é possível mesmo converter-se e configurar-se, real e concretamente, a Jesus Cristo através de Maria por um método superabundantemente eficaz de modo que o possamos tomar como um recurso principal de nossa espiritualidade? A resposta da Igreja a essa pergunta é um imenso sim. A devoção à Virgem Maria, sendo sólida, séria e verdadeira, é um caminho de santificação eficaz.

A passagem do Evangelho sobre o qual meditamos neste Quarto Domingo do Advento é aquele da visitação de Maria a Isabel. “Isabel, repleta do Espírito Santo, exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! (…) Bendita é aquela que acreditou pois cumprir-se-á tudo o que o Senhor revelou”. Santa Isabel, movida interiormente pelo Espírito Santo a enaltecer Maria, pode ser para nós um modelo teológico-pastoral que nos ajude a ter, em um nível prático-concreto, uma relação viva com Maria que nos conduz necessariamente a uma relação mais perfeita com o Filho Eterno de Deus, Jesus Cristo.

***

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!’ Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu.’ Lc 1:39-45

A narração da visita de Maria à Isabel, “sua parente”, como enfatiza o próprio evangelista, e que aqui se encontra incompleta – falta-lhe o hino Magnificat de Maria, enquadra-se no contexto maior daqueles dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas, que nos trazem relatos sobre a “Infância de Jesus”, termo este que não é mais apropriado tendo em vista que muitas destas histórias se passam mesmo antes do nascimento de Cristo.

No caso da visita de Maria à Isabel, Jesus já fora concebido e está agora no ventre da Virgem Maria. Este fato é de altíssima importância e não pode ser negligenciado em nossa meditação. Maria, trazendo Jesus, o Filho de Deus encarnado, em seu seio tornou-se, por graça de Deus, uma custódia viva da divindade, um ostensório adorado não com ouro material, mas com o esplendor da humildade, do amor, e da coragem da Santíssima Virgem. Cada passo que dá a Virgem Maria tendo Jesus dentro de si deve ser contemplado de perto por causa da sua perfeitíssima união com Ele. Maria foi (e continua a ser) uma arca e um templo pelos quais nos acercamos do Filho de Deus.

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia.

A viagem a um lugar distante, ainda que temporária, pode funcionar como um símbolo desta grande mudança interior que todos nós temos de empreender para encontrar a verdade da vida; trata-se da jornada espiritual. Ao longo da Bíblia encontramos alguns exemplos. Um deles é o de Abraão, a quem Deus chama para uma longa peregrinação rumo a uma terra distante. Outro exemplo é o êxodo do povo de Deus que queixa o Egito para partir rumo à terra prometida. Essas jornadas representam a viagem que cada um tem de fazer para deixar-se a si mesmo e ir até Deus. Subir as montanhas representa também esse esforço de ascensão espiritual.

Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.

Zacarias e Isabel são o casal estéril que o Senhor abençoa com o dom de um filho, o qual será João Batista. O nome de Zacarias tem o significado de “o Senhor lembra”. A lembrança de Deus, porém, não é apenas “cognitiva”; ela é, antes de tudo, “ativa”. O Senhor responde à aflição dos seus fiéis com uma ação efetiva na história. De fato, a figura de Deus na Escritura não é a de uma entidade abstrata, fria e indiferente, mas a de um “apaixonado”, que responde com atos concretos. Deus está na história e na vida, não em sistemas conceituais. Isabel, por sua vez, ou Elisabete, significa “meu Deus é meu juramento”, e aponta para a firmeza da fé e da confiança que alguém tem no Senhor. Maria entra na casa de Zacarias e Isabel – é como se disséssemos que ela entra na vida deles, uma vez que “casa” pode ser um símbolo da vida, ou mesmo da sua parte mais interior, a alma. Através de uma devoção profunda, transformativa e humilde, Maria também entra em nossa casa, isto é, em nossa existência, e consigo traz-nos a presença do Filho de Deus.  

Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

Por meio de Maria, o Espírito Santo comunica-se a Isabel. Na verdade, é Cristo que, em Maria, dá do seu Espírito a João Batista e sua mãe. Maria continua sendo, ainda hoje, um canal da graça divina; ainda hoje, Jesus comunica o seu Espírito por meio de sua Mãe. A mediação universal de Maria é uma verdade que ainda aguarda ser solenemente proclamada; todavia, ela já faz parte do sentimento, do ensinamento e da prática da Igreja. O verbo “ouvir” (Isabel ouviu) nos remete a um dos aspectos mais importantes da vida espiritual: a abertura interior, a receptividade profunda – aquilo que Jesus chama a “terra boa que acolhe a semente” (Mt 13:23).

Com um grande grito, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!’

Isabel exclama sob o impulso do Espírito Santo. O que ela diz, portanto, não é uma palavra sua, mas a de Deus mesmo. E o que Deus proclama? Um elogio a Jesus e a Maria: “bendita és tu, bendito é o fruto…” A espiritualidade mariana consiste exatamente nisso, em louvar a Deus Filho Jesus Cristo por meio de sua Mãe. Trata-se de um louvor concomitante. É claro que a Virgem Maria não é um objeto de adoração, mas um caminho pelo qual, verdadeiramente podemos nos acercar mais perfeitamente de Cristo.

Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?

“A Mãe do Meu Senhor” é certamente um dos títulos mais belos da Virgem Maria. Ora, a mãe do meu Senhor, por consequência lógica, só pode ser minha “senhora” – daí se explica a invocação mais presente nos lábios dos cristãos para invocar a Santíssima Virgem: “Nossa Senhora”. Por vezes, tempos pouca consciência da grandeza de Maria, ela que é a Mãe de Jesus Cristo, grandeza esta que nos é propícia junto a seu Filho.

Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.

No encontro entre João Baptista e Jesus intermediado por suas mães, Isabel e Maria, podemos entrever aquele misterioso encontro, aquela misteriosa união, que existe entre o Antigo e o Novo Testamento. Isabel, a anciã, carregando dentro de si um profeta de Deus, simboliza perfeitamente o povo da antiga Aliança; Maria, jovem, virgem, trazendo em si o Verbo encarnado, representa a Igreja, o povo da nova Aliança.

Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu.’

Acreditar não é simplesmente dar uma adesão intelectual a um corpo de doutrinas. Acreditar, teologicamente falando, é entregar-se nas mãos de Deus em uma relação de total confiança. É uma confiança, porém, que exige conversão, a mais sincera e forte possível no que de nós depender, e um amor sem limites. É esta entrega total que faz com que a Palavra de Deus, com suas promessas, se efetive realmente em nossa vida. Pela fé (confiança, auto-entrega) em Deus, a sua ação se concretiza mais poderosamente na história. Várias vezes Jesus alerta-nos para esta dependência: “a tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 7:50); “tudo o que pedis rezando, acreditai que o recebestes, e vos será concedido” (Mc 11:24).

A PALAVRA DE DEUS HOJE

Como poderíamos repetir de certo modo a experiência de Isabel, pela qual seríamos plenificados pelo Espírito Santo com a visita de Maria, isto é, com nossa relação pessoal com a Mãe de Deus?

Através de um aprofundamento cada vez maior de uma espiritualidade genuinamente mariana, isto é, que nos leve a Cristo e nos configure a Ele não somente num nível puramente conceitual, numa religiosidade pervertida baseada apenas em palavras vazias, mas que concretamente, de verdade, forme em nós a imagem do Filho de Deus, que se expressaria em nosso esforço real de conversão.

Para encetar um caminho mariológico de espiritualidade, é preciso antes ter de fato uma vida espiritual. E em que consiste em essa vida? Antes de tudo, em um amor sobrenatural, isto é, posto em nós por Deus mesmo, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Se não desejamos Cristo, se não sofremos por Ele, se não temos fome e sede dele, então não somos cristãos verdadeiros, não somos nada, apenas pessoas vazias que estão neste mundo para causar sofrimento aos outros. Portanto, antes de tudo, desejemos Cristo, lutemos e soframos por Ele. Então daríamos os passos seguintes da vida espiritual: o arrependimento dos pecados com sua devida confissão, a frequência à santa missa, a prática da oração, da esmola e do jejum, as obras de misericórdia, espirituais e temporais, a meditação da Palavra de Deus…

Dentro deste quadro de discipulado do Senhor, como “encaixamos” uma piedade marial, ou, em outras palavras, como damos um tom mariológico à nossa devoção?

Eu proponho dois elementos. O primeiro é aquele que mais nos aproxima de uma imitação concreta de Isabel, isto é, o louvor à Virgem Maria e o recurso a Ela como nossa mãe e advogada. A oração da Ave-Maria efetiva isso muito bem. De fato, a Ave-Maria reproduz as palavras que Isabel pronunciou sob a inspiração do Espírito Santo: “bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre”, e com a Igreja acrescentamos, “Jesus”. Rezar, portanto, com grande devoção, isto é, com grande amor, atenção e seriedade, a Ave-Maria, e melhor ainda, o Santo Rosário, é o primeiro passo para nos fazer pessoas verdadeiramente devotas da Santíssima Virgem. Caberá ao Espírito Santo vir e santificar-nos como fez com Santa Isabel.

O segundo ponto é o exercício da escuta espiritual. Isabel escutou a saudação de Maria. Podemos ver aqui um aceno a essa escuta mais profunda. Refiro-me aqui a esta receptividade à Palavra de Deus, permeada de silêncio, adoração e uma atenção toda amorosa Àquele que fala. Em um nível prático, trata-se de dar mais espaço ao silêncio na vida, sobretudo na oração; significa ler a Escritura e meditá-la amorosamente; significa escutar o próximo com atenção e carinho; significa simplesmente fechar os olhos e, como Maria, ponderar no coração as obras de Deus não somente as que estão descritas na Bíblia, mas especialmente aquelas que acontecem concretamente em nossa vida, em nossa história, em nosso dia-a-dia.

Quanto mais configurados a Maria, mais configurados seremos a Cristo Nosso Senhor. Que Deus nos ajude a pôr em prática a sua Palavra. Amém.  

1ª Leitura – Mq 5,1-4a

De ti há de sair aquele que dominará em Israel. 
Leitura da Profecia de Miquéias 5,1-4a
 
Assim diz o Senhor:
1Tu, Belém de Éfrata,
pequenina entre os mil povoados de Judá,
de ti há de sair
aquele que dominará em Israel;
sua origem vem de tempos remotos,
desde os dias da eternidade.
2Deus deixará seu povo ao abandono,
até ao tempo em que uma mãe der à luz;
e o resto de seus irmãos
se voltará para os filhos de Israel.
3Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor
e com a majestade do nome do Senhor seu Deus;
os homens viverão em paz,
pois ele agora estenderá o poder
até aos confins da terra,
4e ele mesmo será a Paz.

Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 79 2ac.3b.15-16.18-19

R. Iluminai a vossa face sobre nós,
convertei-nos para que sejamos salvos!
2aAo Pastor de Israel, prestai ouvidos. 
2cVós que sobre os querubins vos assentais,*
aparecei cheio de glória e esplendor! 
3bDespertai vosso poder, ó nosso Deus*
e vinde logo nos trazer a salvação! R. 

15Voltai-vos para nós, Deus do universo!
Olhai dos altos céus e observai.*
Visitai a vossa vinha e protegei-a!
16Foi a vossa mão direita que a plantou;*
protegei-a, e ao rebento que firmastes! R. 

18Pousai a mão por sobre o vosso Protegido,*
o filho do homem que escolhestes para vós!
19E nunca mais vos deixaremos, Senhor Deus!*
Dai-nos vida, e louvaremos vosso nome!

2ª Leitura – Hb 10,5-10

Eis que eu venho para fazer a tua vontade.
 
Leitura da Carta aos Hebreus 10,5-10
 
Irmãos:
5Ao entrar no mundo, Cristo afirma:
‘Tu não quiseste vítima nem oferenda,
mas formaste-me um corpo.
6Não foram do teu agrado holocaustos
nem sacrifícios pelo pecado.
7Por isso eu disse: Eis que eu venho.
No livro está escrito a meu respeito:
Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade.’
8Depois de dizer:
‘Tu não quiseste nem te agradaram vítimas,
oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado’
– coisas oferecidas segundo a Lei –
9ele acrescenta: ‘Eu vim para fazer a tua vontade’.
Com isso, suprime o primeiro sacrifício,
para estabelecer o segundo.
10É graças a esta vontade que somos santificados
pela oferenda do corpo de Jesus Cristo,
realizada uma vez por todas.

Palavra do Senhor.

Evangelho – Lc 1,39-45

Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 1,39-45
 
39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia.
40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
a criança pulou no seu ventre
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42Com um grande grito, exclamou:
‘Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre!’
43Como posso merecer
que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos,
a criança pulou de alegria no meu ventre.
45Bem-aventurada aquela que acreditou,
porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu.’

Palavra da Salvação.

Fonte dos textos bíblicos: CNBB
http://liturgiadiaria.cnbb.org.br/app/user/user/UserView.php?ano=2018&mes=12&dia=23

Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion
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