Solenidade da Sagrada Família

Ir. Cristóvão Oliveira Silva | 29 de dezembro de 2018

Cristo é a plenitude da Religião

“Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” É a resposta misteriosa que o menino Jesus dá a Maria e José que o procuravam aflitamente. Longe de ser uma resposta malcriada, o Senhor fala desde a sua filiação divina em relação a Deus Pai, revelando-a assim ainda que sutilmente, e demonstrando uma profunda afeição e devoção ao templo de Jerusalém. O Evangelho do reencontro do Menino Jesus no Templo, que é familiar a todos aqueles que rezam o Rosário todos os dias, é meditado neste domingo dentro do contexto da Solenidade da Sagrada Família. Para compreendermos como essa passagem do Evangelho pode iluminar nossa vida cristã hoje, especialmente em relação ao nosso contexto familiar, lancemos um olhar sobre os vários elementos que se encontram no texto de hoje e como eles se relacionam com a adorável pessoa do divino Salvador.

Jesus se encontra no chamado templo de Jerusalém. O templo era uma grandiosa estrutura física localizada no monte Sion, que guardava dentro de seus limites o complexo sistema religioso de sacrifícios que constituía o culto do Antigo Testamento. Como um lugar de sacrifício, oração e ação de graças, principalmente em relação às três festas principais, a festa de Páscoa, a festa das Semanas e festa das Tendas, ele se apresentava como um centro nacional de peregrinação e referência espiritual. Por conter a Arca da Aliança dentro do recinto chamado “Santo dos Santos”, o templo era considerado o lugar da revelação da presença de Deus.

O culto a Deus através de sacrifícios, que poderiam variar desde o abate de animais e libação de sangue a uma simples apresentação de oferendas com frutos da terra, sempre foi um elemento da religiosidade do Antigo Testamento. De fato, na história de Noé, a primeira coisa que este faz ao sair da arca é cultuar a Deus por meio de sacrifícios, “Noé ergueu um altar ao Senhor, tomando de todo animal grande e puro e todo pássaro puro, ofereceu holocaustos sobre o altar” (Gn 8, 20). Abraão, por sua vez, ergueu vários altares a Deus, onde, segundo o texto bíblico, ele “invocava o nome do Senhor” (Cf. Gn 12, 8), sem fazer, contudo, uma referência clara ao uso de sacrifícios. Após a aliança da circuncisão, porém, a referência a um culto sacrifical é salientada, “Abraão ergueu os olhos, observou, e eis que um carneiro estava preso pelos chifres num denso espinheiro, ele foi apanhá-lo para oferece-lo em holocausto em lugar de seu filho” (Gn 22, 13). Depois da saída do Egito, o culto a Deus através de sacrifícios de animais se torna um mandamento, “Farás para mim um altar de terra, para aí sacrificar teus holocaustos e sacrifícios de paz, tuas ovelhas e teus bois; em todo lugar onde eu fizer lembrar meu nome, virei a ti e te abençoarei” (Ex 20, 24).

O culto sacrificial exige por sua vez a instituição de sacerdotes. A intermediação junto a Deus não pode ser oficiada por qualquer um. É preciso uma investidura e uma graça especial para tanto. Assim, o culto do Antigo Testamento era celebrado por sacerdotes: “Revestirás Aarão com as vestes sagradas, o ungirás e o consagrarás para que ele exerça o meu sacerdócio” (Ex 40, 13). A Epístola aos Hebreus nos dá a definição bíblica de um sumo sacerdote, isto é, o oficiante principal do templo: “Todo sumo sacerdote, com efeito, tomado dentre os homens, é constituído em favor dos homens  no que respeita às suas relações com Deus; sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5, 1).

O Menino Jesus havia subido com seus pais a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa. A Páscoa de que se trata era a celebração da memória da saída do podo eleito do Egito, sob a guia de Moisés, como o resultado de um ato libertador operado por Deus. Esta saída do Egito e a subsequente aliança com Deus no monte Sinai constituem o centro do Antigo Testamento e o testemunho principal sobre Deus: Deus é o libertador, o redentor, o salvador. A Páscoa, também ela, é marcada pelo sacrifício de animais: “Ide providenciar cordeiros para vossos clãs e imolai a Páscoa” (Ex 13, 21).

A presença, portanto, do Menino Jesus em Jerusalém e no templo evoca toda esta temática. O menino Jesus, temática e concretamente falando, encontra-se em um contexto de sacrifício, adoração, oração, memória do Êxodo, sacerdócio, culto e presença de Deus. Uma vez que, segundo a fé, Cristo é o cumprimento das promessas e a realização histórica dos seus tipos veterotestamentários, uma vez que Cristo é o Filho de Deus encarnado, a Palavra feita carne (Jo 1, 14), Cristo no templo apresenta-se como a plenitude da religião, a plenitude do culto. É ele o templo vivo de Deus (Jo 2, 19), a vítima sacrifical e o sacerdote (Hb 7 – 10). Em Cristo todas as nossas necessidades espirituais são sanadas. Ele é o nosso culto vivo, “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23); Ele é a fonte de toda graça e verdades sobrenaturais: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (JO 14, 6).

A presença do Menino Jesus no templo no contexto da Solenidade da Sagrada Família nos mostra que a fonte de vida espiritual e sobrenatural para as famílias cristãs está em Cristo. Além disso, sob a mediação de Maria e o patrocínio de São José, isto é, através de uma devoção viva à Sagrada Família, as famílias cristãs podem obter largamente a graça divina necessária para o cumprimento dos deveres familiares e a força para os momentos difíceis.

A devoção viva a Cristo, à Virgem e a São José se mostra na frequência à missa dominical, na contemplação dos mistérios divinos pelo Rosário e pela leitura da Sagrada Escritura. É muito importante que em cada lar cristão não falte um quadro que mostre o rosto adorável de Jesus, como os quadros do Sagrado Coração, da Sagrada Face, da Divina Misericórdia ou ícones orientais. Acima de tudo, é a oração que traz à família a paz e a graça de Deus. Onde há oração, feita com amor e desejo de estar em comunhão com o Senhor, onde há essa oração verdadeira, Deus aí se faz presente com sua paz, sua graça e seus socorros.

1ª Leitura – Eclo 3,3-7.14-17a (gr.2-6.12-14)

Quem teme o Senhor, honra seus pais.
Leitura do Livro do Eclesiástico 3,3-7.14-17a (gr.2-6.12-14)
 
3Deus honra o pai nos filhos
e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe.
4Quem honra o seu pai,
alcança o perdão dos pecados;
evita cometê-los
e será ouvido na oração quotidiana.
5Quem respeita a sua mãe
é como alguém que ajunta tesouros.
6Quem honra o seu pai,
terá alegria com seus próprios filhos;
e, no dia em que orar, será atendido.
7Quem respeita o seu pai, terá vida longa,
e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe.
14Meu filho, ampara o teu pai na velhice
e não lhe causes desgosto enquanto ele vive.
15Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez,
procura ser compreensivo para com ele;
não o humilhes, em nenhum dos dias de sua vida,
a caridade feita a teu pai não será esquecida,
16mas servirá para reparar os teus pecados
17ae, na justiça, será para tua edificação.

Palavra do Senhor

Salmo – Sl 127,1-2.3.4-5 (R. Cf 1)

R. Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos!
1Feliz és tu se temes o Senhor*
e trilhas seus caminhos!
2Do trabalho de tuas mãos hás de viver,*
serás feliz, tudo irá bem! R.

3A tua esposa é uma videira bem fecunda*
no coração da tua casa;
os teus filhos são rebentos de oliveira*
ao redor de tua mesa. R.

4Será assim abençoado todo homem*
que teme o Senhor.
5O Senhor te abençoe de Sião,*
cada dia de tua vida. R.

2ª Leitura – Cl 3,12-21

A vida da família no Senhor.
Leitura da Carta de São Paulo aos Colossenses 3,12-21
 
Irmãos:
12Vós sois amados por Deus,
sois os seus santos eleitos.
Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia,
bondade, humildade, mansidão e paciência,
13suportando-vos uns aos outros
e perdoando-vos mutuamente,
se um tiver queixa contra o outro.
Como o Senhor vos perdoou,
assim perdoai vós também.
14Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros,
pois o amor é o vínculo da perfeição.
15Que a paz de Cristo reine em vossos corações,
à qual fostes chamados como membros de um só corpo.
E sede agradecidos.
16Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza,
habite em vós.
Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a
sabedoria.
Do fundo dos vossos corações, cantai a Deus
salmos, hinos e cânticos espirituais,
em ação de graças.
17Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras,
seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo.
Por meio dele dai graças a Deus, o Pai.
18Esposas, sede solícitas para com vossos maridos,
como convém, no Senhor.
19Maridos, amai vossas esposas
e não sejais grosseiros com elas.
20Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais,
pois isso é bom e correto no Senhor.
21Pais, não intimideis os vossos filhos,
para que eles não desanimem.

Palavra do Senhor.

Evangelho – Lc 2,41-52

 
Jesus foi encontrado por seus
pais no meio dos doutores.
 
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 2,41-52
 
41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém,
para a festa da Páscoa.
42Quando ele completou doze anos,
subiram para a festa, como de costume.
43Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem 
de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém,
sem que seus pais o notassem.
44Pensando que ele estivesse na caravana,
caminharam um dia inteiro.
Depois começaram a procurá-lo
entre os parentes e conhecidos.
45Não o tendo encontrado,
voltaram para Jerusalém à sua procura.
46Três dias depois, o encontraram no Templo.
Estava sentado no meio dos mestres,
escutando e fazendo perguntas.
47Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados
com sua inteligência e suas respostas.
48Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados
e sua mãe lhe disse:
‘Meu filho, por que agiste assim conosco?
Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados,
à tua procura.’
49Jesus respondeu:
‘Por que me procuráveis?
Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’
50Eles, porém, não compreenderam
as palavras que lhes dissera.
51Jesus desceu então com seus pais para Nazaré,
e era-lhes obediente.
Sua mãe, porém,
conservava no coração todas estas coisas.
52E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça,
diante de Deus e diante dos homens.

Palavra da Salvação.

Fonte dos textos bíblicos: CNBB
http://liturgiadiaria.cnbb.org.br/app/user/user/UserView.php?ano=2018&mes=12&dia=30

Congregação dos Religiosos de Nossa Senhora de Sion
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